29 de dez de 2011

armazém

texto luiz felipe leprevost 
arte isabele linhares


olho para a senhora. ela foi a rigidez das fibras de quando ziguezagueava sua bicicleta. a juventude derreteu feito um cubo de gelo na frigideira. viveu a quimera, hoje piada sem graça. só conversa comigo porque me igualo às moscas, suas únicas ouvintes. busca-me outra cerveja na geladeira que range pedindo socorro. não devo duvidar, se faz o que faz é porque está viva. foi loira, somente nas tardes de sol. na época em que a maior parte dos dias acordavam sob o acinzentado céu do pós-apocalipse, sua grossa cabeleira ostentava grisalha antiguidade, como a das mulheres que somassem eternidades. mas é em sua loirice que me agarro agora. faceira, orelhas surdas no vento, bochechas coradas, da blusa os peitos a saltar, pernocas bem definidas, saídas com petulância da bermuda, descia pedalando a ladeira deste mesmo mercadinho. nossa ajuda fundou a cidade. ela não pode fazer a curva, derrapa, de nada servem os freios. os aros, entortados, dobrado em z o guidão. a coxa esquerda em frangalhos, em carne viva joelhos e cotovelos. finca-me seus olhos amarelazuis inchados de visões. foi exatamente aqui.

lf leprevost 
publica seus contos em http://www.notasparaumlivrobonito.blogspot.com/

isabele linhares
seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com

27 de dez de 2011

O Coração Desesperado

Texto: Eduardo Capistrano
Fotografias: Marco Novack*
* Estrelando: Carolina Fauquemont e Wagner Corrêa
Assistente: Nika Braun / Maquiagem: Andréa Tristão / Arte: Leonardo Goulart




Sou um amaldiçoado. A razão de minha maldição é o amor. Achei que não haveria prova maior dele. Hoje, sei que estou enganado. Como provar algo que não se compreende?
Eu gostaria, realmente, de poder descrever meu amor por Rebeca. Poderia dizer como a conheci, como nos apaixonamos, como ela é maravilhosa. Poderia tentar explicar como ela pareceu invadir minhas memórias de vida antes dela, como ela passou a fazer parte de cada plano meu para o futuro. Não sou capaz.
Posso dizer que ela tornou-se uma porção indispensável de minha vida. Depois de anos lutando contra o câncer, ele venceu. Os médicos estimaram que restava a ela um ano de vida.
A ela, e a mim.
Rebeca resignou-se e pretendia aproveitar da melhor forma que podia o tempo que lhe restava. Para ela, a morte parecia cada vez mais uma libertação de todo o sofrimento. Era para mim que a morte se anunciava horrorosa.
Minha existência tornou-se um suplício ímpar. Estava convencido de que o sofrimento só teria fim com minha própria vida, mas ao mesmo tempo tinha medo de fazê-lo, e me assolava a repugnância por minha própria covardia. Sentia-me acorrentado e sob tortura aplicada por meu próprio coração. “Ora”, fustigava ele. “Seu amor não é verdadeiro?”





Separava meu tempo entre testemunhar o definhamento diário de Rebeca e procurar escapatória, qualquer coisa, que pusesse fim ao sofrimento dela e ao meu. A certeza da impossibilidade, em vez de obstáculo, acabou quebrando obstáculos. Assim que cessaram todas as possibilidades médicas, científicas, racionais, transpus a barreira para o irracional.
Das falsas panaceias prometidas na forma de simplórios chás e misturas, cheguei aos ridículos rituais das simpatias, e delas às “operações” empreendidas por sacerdotes milagreiros, curandeiros e espíritos carnados e descarnados. O tempo passava e a cada fracasso a Morte se insinuava mais próxima. Aos meus tormentos somou-se a frustração com minha absoluta incompetência.
Rebeca parecia tão bem quando aquilo aconteceu. Lembrávamos com carinho de certo momento passado. Senti-me momentaneamente leve como antes de toda aquela dor. Ela sorria com tal brilho vívido nos olhos! Em menos de uma hora ela estava inconsciente no hospital, e eu estava coberto de sangue que ela vomitou sobre mim. Eu me lavava no banheiro do hospital, as palavras do médico ecoando em minha cabeça.
“Não passará de amanhã.”
Meus únicos pensamentos eram essas palavras e a velha questão que vinha fazendo ao longo daquele longo e excruciante ano. Como faria? Eu me enforcaria? Abriria os pulsos? Jogaria-me de um prédio, ou na frente de um carro? Entupiria-me de remédios? Estouraria os miolos?
Naquele momento, em que qualquer limite, qualquer tabu foi varrido do meu ser pela tormenta da fatalidade, minha visão caiu sobre um papel amassado que trazia no bolso, então sobre a pia do banheiro. De todas as minhas posses, apenas aquele pequeno pedaço de brancura não estava ensanguentado.
O anúncio de “Madame Rúbia” provocava. “Última Chance Para O Coração Desesperado.” Havia a visitado três vezes, e nenhuma das vezes ela me atendeu pessoalmente. Um assistente me trouxe em todas as vezes a mesma resposta lacônica. “Você não é um desesperado. Volte quando for.”
Talvez sinal maior de meu genuíno desespero foi ter deixado Rebeca moribunda no hospital em direção ao que podia ser mais uma charlatã, mais uma estelionatária com um pouco mais de talento teatral do que as outras, e que por uma grande sorte havia conseguido pôr naquele papel as palavras exatas para arrastar-me, em minha delirante confusão, para a madrugada mais escura de minha vida.
Assim, não era dono de perfeitas faculdades mentais quando me vi uma vez mais na ante-sala de Madame Rúbia. Assim que cheguei, contudo, não havia quem me recebesse. Entrei e avancei através de cortinas esfarrapadas até uma sala escura com uma mesa e duas cadeiras. Uma delas estava ocupada pela Madame. Não pude discernir suas feições nas sombras, apenas que era corpulenta, velha, feia e fumava um charuto.
Sentei-me diante dela. Em uma voz rouca e zombeteira, parando apenas ocasionalmente para soltar baforadas, ela descreveu como eu conheci Rebeca, falando nomes que só nós conhecíamos, com detalhes que só nós sabíamos. Em seguida riu de minha expressão de espanto e de lamentação. Descreveu então o dia de nosso casamento, para em seguida rir novamente.
Eu esmurrei a mesa, o rosto coberto de lágrimas. Ela parou de rir. Uma mão enrugada coberta de anéis e pulseiras surgiu das sombras, com dedos de unhas compridas empurrando um lenço branco em forma de coração.
Ela negou-me qualquer resposta, que não fosse narrar outro episódio de minha vida com Rebeca, escolhido para fustigar-me com o valor que tinha para mim. E a frase. “Um coração por um coração.”
A gargalhada da velha e a fumaça da sala expulsaram-me com o coração de tecido amassado em meu punho. Eu sabia o que a velha queria. Eu sabia do que ela precisava. Eu sabia, de alguma maneira, que funcionaria. Não era fato ou conhecimento algum que me fazia saber. Era o desespero. Eu chegara ao ponto de não-retorno. Eu faria qualquer coisa por Rebeca.
E o que tinha a perder? Eu já me considerava morto.
Voltei para casa e abri a funesta maleta que recheara com os possíveis instrumentos de minha própria morte. Em uma macabra antecipação de minha hora derradeira, havia em tempos recentes considerado esta ou aquela faca para abrir os pulsos, esta ou aquela corda com que me enforcar. Várias garrafas de bebida, vários frascos de remédios. E um revólver.
Saí às ruas, imaginando como faria aquilo. Algumas horas depois, bêbado e sedado com sabe-se lá que drogas correndo soltas por minhas veias, havia escolhido uma rua afastada e deserta. O torpor havia eliminado qualquer resquício de bom senso e humanidade que ainda restasse. Naquele momento, reduzido a um predador sem face nas trevas, pronto para atacar qualquer incauto que passasse, eu regozijava na perfeita perda de mim mesmo, e ao mesmo tempo, em algum recôndito superior, transcendental, imaculável de meu espírito, ocorria exatamente o oposto: eu finalmente me encontrava, revelava a verdadeira Rebeca, descobria meu amor por ela.
Ainda respirava pela boca quando uma vez mais fiquei diante da velha. Coloquei o pacote encharcado e rubro sobre a mesa na frente dela. Com a ponta dos dedos, ela removeu o pano e deixou seu mórbido conteúdo rolar pela mesa. Entregou-me o pano, pigarreando. “Ponha sobre o dela. Para o próximo sol ver.” Sua voz agora era solene, sem risos, sem zombaria. Ela não acreditava que eu seria capaz.
A manhã se aproximava, passava o torpor das drogas e a exaltação do crime, e a ansiedade pelo resultado impossível apenas multiplicava as angústias do arrependimento que já ameaçava me consumir. Eu mal lembrava direito quem havia sido minha vítima, mas em meus devaneios, imaginava que nada significaria, se Rebeca ficasse curada, feliz, sorridente. Viva.


O sol surgiu. Rebeca demonstrou desde o primeiro dia melhoras incríveis. Os médicos ficaram atônitos. Em uma semana ela saiu do hospital. Recuperou o peso, o tom de pele, o ânimo. Seus cabelos, seus lindos cabelos estavam de volta, ao redor de seu olhar e de seu sorriso. Viajamos em uma segunda lua-de-mel para comemorar. Ela retornou ao trabalho, revigorada. A doença, e a verdadeira causa de sua recuperação, pareciam apenas lembranças ruins.

Um ano se passou. Um ano de vida, de felicidade. Um filete de sangue do canto da boca de Rebeca, um ano depois. Ela retornou aos médicos, e a doença estava de volta, exatamente como estava há um ano atrás.
E eu também retornei, através de cortinas esfarrapadas, ao quarto escuro, onde Madame esperava. Eu gritei em desespero que tudo estava de volta, que não havia dado certo.
Madame descreveu nossa segunda lua-de-mel, coisas que só eu e Rebeca sabíamos. Tonto e nauseado, ouvi a velha gargalhar, vendo seus dedos velhos empurrando para a luz um lenço branco em formato de coração.


Marco Novack
Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br/


Eduardo Capistrano
Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011). Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com.

26 de dez de 2011

Sushi

Texto: Rafael Pesce
Fotografia: João Castelo Branco*
*Estrelando: Digão Duarte
produção: Fabiano Vianna / Raquel Deliberali / Nina Giusti Galiano

A caçada começava a noite. A roleta das oportunidades girava constantemente para Marcelo, jovem de 22 anos que nutria dois prazeres na vida: a culinária e principalmente as mulheres. Não era incomum usar uma das paixões para encontrar a outra. Como um autêntico desbravador, vagava pela selva de restaurantes em busca de boa comida e uma desejável companhia. O Watanabi, um dos mais famosos restaurantes japoneses da cidade, era um dos locais favoritos do rapaz. Incontáveis vezes o estabelecimento serviu de covil para o conquistador, mas nunca uma presa havia causado tanto impacto como a nova garçonete, Akemi, uma linda oriental de traços fortes e olhar penetrante.
Tudo aconteceu em uma noite gelada, com uma fina garoa que insistia em cair. Akemi – brilhante beleza, em japonês – trabalhava a apenas uma semana no Watanabi. Marcelo estava sentado em uma mesa no fundo, em um lugar onde pudesse observar a todos, ao mesmo em que passava despercebido. Devido ao clima nada convidativo, poucas pessoas se arriscaram a sair de casa. Talvez seja por isso, que ao invés de observar vulneráveis clientes, tenha notado Akemi. Após degustar uma rodada de Temakis e Chisahis, chamou-a discretamente:
- Mais alguma coisa senhor? – Falou a sorridente garçonete, exalando simpatia.
- Não. Só gostaria de dizer que você é linda! – Respondeu o confiante galanteador.
Após pedir a conta, para a alegria de Marcelo, um número de telefone constava no verso.
Não demorou muito para um encontro ser marcado. Para não parecer tão precipitado, três dias se passaram até a ligação. Na noite seguinte os dois se encontraram em um local reservado, a saída lateral do restaurante. Ao ver Akemi usando um vestido extremamente provocante, toda cautela usada no telefonema se foi, deixando os instintos mais primitivos do homem tomarem conta. Agarrou-a ali mesmo. Os beijos, carinhos e apertões já duravam alguns minutos, quando foram interrompidos por uma pequena picada. E foi então que...
Marcelo acordou assustado. Ainda um pouco grogue, viu que estava amarrado em uma cadeira, preso em uma espécie de calabouço. As paredes eram pintadas com diversas inscrições japonesas, indecifráveis para um simples ocidental. Marcelo tentou se recuperar do susto e pensou em tudo que tinha acontecido. Apenas se lembrava dos beijos e depois um grande blecaute. Para sorte do rapaz as cordas que o prendiam não estavam muito apertadas. Não demorou muito para ele se livrar daquele imbróglio. A porta da suposta cela estava destrancada, do outro lado um corredor seguia por aproximadamente 150 metros. Atravessou correndo aquele trecho, sentindo as imperfeições do chão de pedra castigarem seus pés descalços. No fim se deparou com outra porta. O silêncio, que até aquele momento se fazia presente, foi quebrado por uma série de grunhidos que vinham do cômodo seguinte. Voltar para o calabouço ou encarar o desconhecido? Essa era a dúvida de Marcelo. Resolveu seguir em frente e abriu a porta...
Não era um simples aposento. O que o jovem vislumbrava a sua frente era um verdadeiro salão, colossal, com uma ornamentação oriental que fazia Marcelo se sentir em outro século. Clic! Marcelo olhou para trás e viu que a porta por qual entrara estava trancada. Agora só podia continuar em frente. Os barulhos persistiam, porém o salão aparentava estar deserto. Infeliz engano. Abruptamente, as sombras que escondiam a origem dos grunhidos desapareceram, e delas eles saíram: mortos-vivos, seres em decomposição, arrastando-se lentamente em direção a ele. Porém, não eram simples zumbis. Aquela dúzia de devoradores de carne estava trajada com roupas samurais, um pequeno exército de Samurais-Zumbis! Não queria acreditar naquilo, sempre gostou de filmes de terror, mas jamais imaginou vivenciar um. A partir dali um verdadeiro jogo de caça começou, mas dessa vez a presa era ele.
Zumbis são seres lentos, quando sozinhos não são assustadores, sendo facilmente abatidos. Mas no momento em que uma horda se junta, a situação é bem diferente. Marcelo olhou para os lados, procurando algo que pudesse ajudá-lo. Para sorte dele, parte da decoração era composta por antigas espadas samurais, a arma ideal para um combate homem x morto-vivo, afinal, lâminas não precisam ser recarregadas. Munido de sua espada, esperou pelo embate. O primeiro zumbi perdeu a cabeça, decepada com um golpe perfeito e limpo. Os próximos dois tiveram braços e pernas arrancadas, o que permitiu que Marcelo procurasse por alguma saída. Depois de observar por alguns segundos, viu uma outra porta, localizada em um ponto crítico, onde a maioria dos zumbis se encontrava. Seria impossível matar o grupo restante, a situação requeria o uso de estratégia. Marcelo deslocou-se para o lado oposto, promovendo um berreiro para chamar a atenção dos errantes. Enquanto a horda se aproximava vagarosamente, um flanco vazio se apresentava, a rota de fuga perfeita. Marcelo correu, correu como nunca tinha feito na vida, evitando qualquer tentativa de mordida. Ainda ofegante abriu o que pensava ser a saída para a liberdade.
O que se viu foi uma forte luz branca. Seriam os raios de sol? Não deu tempo para pensar nisso. Ao abrir a porta sentiu uma lâmina perfurar o coração. Caiu ajoelhado no chão, com o sangue esvaindo-se do peito. Antes dos olhos se fecharem viu Akemi, segurando uma espada na mão e às gargalhadas enunciando: sushi para zumbis não é feito de peixe!
João Castelo Branco
Blog:
http://casadojoao.blogspot.com
Rafael Pesce
Outros contos em: http://contosdefleming.blogspot.com/

25 de dez de 2011

Massacre na Cinelândia

Texto: Florestano Boaventura
Arte: Lord Velprost

            Primeiramente gostaria de agradecer ao caríssimo editor Fabiano Vianna a oportunidade de escrever meus causos sórdidos neste sítio. Não entendo nada de internet nem destes formatos modernos de divulgação, confesso que sou um sujeito totalmente pré-histórico, que cresci publicando em jornalecos feitos na prensa. Vocês podem imaginar o que era lançar revistas naquela época.
            Mas enfim resolvi aceitar, principalmente pela massiva insistência desta molecada.
Orgulha-me ver que os jovens estão mandando ver e principalmente escrevendo histórias de terror com muita potência e inventividade. Todavia se existe algo que entendo é literatura de horror. Observei e vivi muitas coisas macabras nos últimos anos. E é o que pretendo relatar aqui.
Sou grato também ao Vianna pela paciência e empenho em digitar estes rabiscos para o sítio Lama. (ainda não me adaptei aos teclados assépticos e silenciosos dos computadores). 
Nunca imaginei que a nova geração se interessaria tanto pelas narrativas de terror quanto eu me identifiquei um dia, lá nos anos quarenta, quando cunhei a minha estimada revista Lodo no ateliê empoeirado de minha amiga e tutora, Matryona Yaba. Naquela época, parecia algo tão íntimo e particular... E que versão bonita, esta Lodo 127 reeditada por Daniel Gonçalves, Vianna, LF. Leprevost, Tizzot, Linhares e demais compartes.
Obrigado pela paciência. Tentarei escreverei mensalmente. Enquanto a fera deixar e se o Vianna não desistir de digitá-los. É o que eu sempre digo – a literatura ajuda a curar as cicatrizes das lembranças atrozes.

Mil novecentos e cinqüenta e dois foi um ano agitado. Durante uma expedição pelas Sete Quedas, em Guaíra, fui tocado pela maldição. Só sobrevivi mesmo graças aos cuidados da querida amiga Marlene, dona da Cantina Flor da Serra, lugar onde eu passei noites horripilantes atormentado por pesadelos e delírios, ardendo em febre. Marlene aprendeu, não sei em que circunstâncias, a fazer o chá e pasta de Acônito, o que aliviou bastante as dores de meu machucado. Sou eternamente grato à ela e sua família que cuidaram de mim naqueles entardeceres gélidos.
A volta para Curitiba foi difícil. Ainda me atormentavam as imagens das cachoeiras violentas, os índios-lobos, lobisomens, basiliscos e rituais selvagens. O perfume do chá de Acônito impregnado nas narinas.
A cidade estava agitada em virtude ao início da construção de um novo teatro pelo Bento Munhoz da Rocha e pela inauguração dos novos cinemas, o Cine Ritz e o Cine Vitória. Lembro que ouvi diversas pessoas falando neste assunto quando desci do ônibus. Eu conseguia ouvir os papos num raio de mais ou menos dois quilômetros. Vozes sobrepostas em eco, isso quase me enlouqueceu. Do Guadalupe vim andando feito um mendigo, com as pernas amortecidas e mente dilacerada. O meu olhar havia mudado, era como se eu tivesse morrido, sem ter sido enterrado. O lado obscuro aguçou minha percepção pro invisível. As estátuas da Rui Barbosa me acompanhavam, virando os olhos. Sombras me espreitavam a surdina. A alma de uma enorme besta me seguia pelas ruas do centro. Eu sentia a vibração de seus passos pesados.
Na época eu vivia num casebre miserável na chamada “Rua da Bola”, nossa conhecida Dr. Muricy de hoje. Tinha este apelido porque durante o dia a piazada gostava de jogar na ladeira. O casebre tinha sido herança de meu avô, Ernesto. Eu tive que gradear as janelas, porque era rente à rua, e as noites de lua cheia vieram sanguinolentas. A sombra da besta não me deixou em paz uma noite sequer. Era uma presença ameaçadora, angustiante. Nem os calmantes resolveram.
 A primeira transformação se deu ali. Sob a inclinação do teto de barro da casa de meu pai. A lua entrou pela janelinha basculante do banheiro e dilacerou minha carne. Nasceu dentro de meus brancos oculares refletidos no espelho fosco e rasgou minha pele com unhas sanguinárias. Flores de sangue brotaram no azulejo. O lobo atravessou o espelho. Senti fome de carne crua. De nada adiantaram as grades nas janelas, porque a casa era de madeira. Atravessei a parede da sala como se fosse feita de papel. Atirei-me na noite e me alimentei da carne dos primeiros passeantes noturnos que encontrei. Havia bem menos postes de luz na Tiradentes e mais árvores nas ruas, o que contribuía para uma atmosfera ideal. Eu sentia o cheiro dos humanos vindo de todos os lados. Desejo por carnificina.
Depois de saciar a fome, dormia em qualquer lugar e acordava maltrapilho, jogado num pedaço de terra qualquer. De vez em quando encharcado pela chuva, noutras queimado pelo sol.
Toda a noite eu tentava surpreender o monstro com alguma armadilha. Cordas grossas, algemas, correntes. Coloquei mais trancas nas portas. Eu achava ingenuamente que conseguiria controlá-lo quando o momento chegasse. Mas aí a coisa saía do controle e é como se minha consciência acompanhasse em paralelo e eu não tinha como interferir.
Passei meses acordando em lugares inusitados, virado em trapos rasgados manchados de sangue. Para lá do Prado Velho, no Guabirotuba, na Rua da Liberdade. Certa vez, até na linha do trem quase em Roça Nova. Despertei com o apito nervoso e por pouco que não virei pasta de presunto.
No começo acharam que as mortes eram obras de um assassino em série, tipo aquele Jack de Londres. Eu tenho todas as capas de jornal da época. Inclusive o exemplar de “O Jornal das Moças”, que publicou uma matéria alertando a população e principalmente as donzelas, do maníaco que estava fazendo vítimas nas noites escuras citadinas. É engraçado ver hoje em dia a matéria, ao lado de uma propaganda do sabonete, água de colônia e talco “Regina”.
Foi numa destas noites brancas que o lobo desgovernado atacou um bonde elétrico na Cinelândia, local hoje conhecido como Boca Maldita. As cenas dantescas ainda ecoam em mim. Pulei no bonde em movimento, em frente ao Cine Avenida, coração da Cinelândia. Várias pessoas lotavam o cinema, mas o filme estava sendo rodado lá fora. Lembro dos crânios decapitados sendo lançados na rua – no capô dos carros, as mulheres desesperadas saltando em frente aos veículos com o bonde ainda em movimento, os rostos dos senhores assombrados, a carne atirada nos bancos de madeira escura. Um ainda tentou em vão se defender com uma bengala, coitado. Foi um banquete brutal. Minhas garras rompendo tecidos, penetrando a pele. Até que o elétrico descarrilou. Não desperdicei nem o maquinista. Quem pode fugiu para dentro das lojas ainda abertas na avenida. Daí apareceram um ou dois policiais e atiraram em mim. Nem cócegas. Saltei por cima do Palácio, escalando as paredes das construções como se fosse um inseto. Destruindo balaustradas. Um dos tiros disparado pelos policiais acertou uma senhora de camisola que observava a cena na sacada de um sobrado perto da Zacarias. Fugi em direção à ferroviária saltando pelos telhados, como faço até hoje pelas casas do bairro.
No outro dia acordei todo retalhado e nu, deitado na relva de uma floresta para lá do Uberaba. Foi a primeira vez que roubei roupas no varal de uma cabana. Depois voltei andando feito um pedinte, seguindo uma trilha de terra que dava no centro. Peguei carona com um pessoal que vinha de São José, e me deixaram perto da vila Rebouças.
Daí a função do dia seguinte: pregar as tábuas, limpar o sangue, incinerar as roupas. Tomei um banho e caminhei até à Luiz Xavier. Mais de trinta pessoas mortas – divulgou o Correio Paranaense. Poucos conseguiram escapar, alguns foram arranhados. A notícia se dava por relatos, ninguém conseguiu fotografar o massacre. As máquinas fotográficas ainda eram novidade naquela época.


Florestano Boaventura
É editor da revista pulp Lodo: http://www.revistalodo.blogspot.com

24 de dez de 2011

Lá fora as cores do Natal


Texto: M. D. Amado
Imagem: iaskara

A roupa tinha o branco e o vermelho já tão tradicionais e cansativos para aqueles dias. Nos olhos a tristeza carregada pelos outros dias do ano e não pelo falso espírito natalino que invade as almas das pessoas, transformando-as magicamente nas mais benevolentes figuras humanas da face da terra (sim, ironia é uma característica minha).
Nas costas o enorme saco que a cada passo se tornava ainda mais pesado. Na outra mão a chave do carro (você não esperava por um trenó e renas saltitantes, não é?). Noel, que curiosamente carregava esse nome em sua identidade real, tinha um presente especial para entregar e já estava atrasado. Entrou no carro depois de acomodar o saco no banco de trás e partiu ao encontro de uma criança especial. Seria a última pessoa a ganhar um presente naquela noite, mas talvez aquela que daria a Noel a maior satisfação pessoal, ao ver seus olhos quando abrisse o saco.
Depois de praguejar o trânsito, que nem mesmo na noite de Natal dava folga na grande cidade, Noel pegou um atalho que servia mais pra economizar tempo do que propriamente encurtar a distância.
Enfim, o bairro...
Seu coração disparou naquele momento. Uma sensação estranha, pois já estava tão acostumado a fazer seu trabalho, que não entendia o porque de tamanha excitação. Obviamente os seguranças não deixariam um estranho passar pelos portões, ainda mais naquelas circunstâncias. Avisados pelo rádio, os moradores da mansão foram para o portão, seguidos de alguns policiais que se encontravam na residência.
Ele não esperava por uma recepção tão calorosa assim, mas já que estavam todos ali...
Noel ficou em silêncio diante das perguntas desconfiadas de todos. Notou os policiais com as mãos prontas para sacar as armas e os ignorou. Somente quando o pequeno garoto apareceu e caminhou até a mãe, segurando-a pelas saias, foi que Noel abriu um sorriso e fez menção em tirar o saco das costas. Nesse momento, policiais e seguranças já haviam sacado as armas.
Então ele disse suas primeiras palavras... e elas foram direcionadas ao garotinho de apenas sete anos, que olhava curioso para aquele homem, vestido como um médico, ou açougueiro, com suas roupas brancas manchadas de sangue por toda parte:
― Aqui está garotinho... Um presente de Natal especial para você. Espero que aprenda a não ser tão filho da puta quanto ele ― abriu o saco e derrubou seu conteúdo diante do portão. ― Divirta-se com os pedacinhos de seu papai querido.
Noel, homem comum que não morava na Lapônia, nem tinha habilitação para conduzir trenós puxados por renas, virou-se dirigindo-se ao carro e ignorando os avisos dos policiais, de que ele deveria parar.
As costas da camisa branca ganharam tons mais vivos de vermelho.
Caído na grama diante da casa, um corpo e as cores do Natal: branco, vermelho e verde.
Nas mãos do garotinho, um braço direito enfeitado com um laço dourado.


M.D.Amado
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iaskara
Arquiteta e Urbanista na empresa  H A U S S T U D I O. Estudou Especialização na instituição de ensino PUC-PR. Mora em Iaski, Leningradskaya Oblast', Russia. Casada com Abonico Smith.

23 de dez de 2011

Bizarre

Texto: Thiago Tizzot
Ilustração: Daniel Gonçalves



Hoje vivo entre os prédios modernos, carros, lanchonetes, tenho um apartamento, mulher, filha e um emprego. Minha vida não poderia ser mais ordinária e tranqüila. Tenho muito orgulho disso, pois nem sempre foi assim e o que veio antes só me lembro através de terríveis pesadelos que me aterrorizam todas as noites.
Sobre meu nascimento tenho poucas informações, uma vez um palhaço anão que comia lâmpadas me disse que uma noite de tempestade apareci na porta de Monsieur Tissot. Estava em uma caixa de papelão velha manchada de sangue e berrava como se o mundo fosse acabar. Nunca acreditei nas palavras do anão, acho que algum componente das lâmpadas que comia deveria ter afetado seus miolos, um belo dia decidiu que faria dieta e não comeria mais nada com vidro. Sua silhueta estava comprometida. Monsieur Tissot ficou furioso, pegou um martelo, daqueles que usam para firmar as estavas que sustentam a lona do circo, e bateu tanto no pobre anão que quebrou quase todos os ossos de seu corpo. Nunca mais tivemos qualquer notícia de Biel, sinto falta de suas piadas e a forma que sua gengiva ficava repleta de pedaços de vidro depois das refeições.
A vez que estive mais próximo de descobrir minhas origens foi em uma viagem que fizemos ao sul da França, terra natal de Monsieur Tissot, uma pequena cidade litorânea chamada Saintes-Maries-de-la-Mer. Em maio um grande encontro de ciganos acontece na cidade para homenagear a santa Sara-la-Kali, sua padroeira. Monsieur Tissot achou que seria interessante o circo estar lá para fazer um ganho extra.
Enquanto procurávamos um lugar para montar o circo, uma cartomante agarrou meu braço. Disse que poderia ler meu passado, esfregava os dedos ásperos na palma de minha mão. Sua voz era algo familiar para mim, cantarolou que nasci em uma tempestade, com fúria, e que meu passado era escuro como o céu de uma tormenta. Mas ela poderia ser o relâmpago que tudo clareava em um segundo e a noite virava dia por um instante.
Monsieur Tissot apareceu novamente com seu martelo de fixar estacas e afugentou a cigana. Durante o período que permanecemos em Saintes-Maries-de-la-Mer procurei, mas nunca mais vi a cigana.


Thiago Tizzot

Autor dos livros "O Segredo da Guerra" e "A Ira dos Dragões e outros contos", pai da Lili e Basilisco.

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado e pai de três filhos. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA, seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br .  Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 

22 de dez de 2011

Annunciata

Texto: Simone Campos
Ilustração: André Ducci


Meu nome é Annunciata em homenagem a uma tia. Essa que passou agora, carregando a bandeja do peru; a tia Ciata, como todos a chamam.
— Tatá...
Tatá sou eu.
— ...vê se acaba logo com essa louça.
— Você diz pra acabar? — digo eu, fingindo jogar o prato no chão.
— Não, lavar.
Minha irmã não tem o mínimo senso de humor. É verdade que eu também só estou aqui por obrigação. Só mesmo os velhos é que parecem se divertir, de pé desde as oito, cozinhando. Mas não custa aliviar a coisa.
Natal aqui em casa é assim: minha mãe levanta e acorda minha avó, eu e minha irmã mais velha; marchamos em direção à cozinha, decididas a fazer o mínimo necessário: o peru, a rabanada e um tipo de bolo. Quando já estamos quase terminando, acorda meu pai e pede bolinhos de bacalhau. Depois acorda a Carol (só a mim deram esse nome estapafúrdio) e pede brigadeiros, na língua dela:
— Bigadeio!
Então cada uma resolve fazer questão do seu prato preferido. Nós nos esfalfamos na copa. Nisso chega o resto da parentada com outros tantos tipos de comida, algumas ainda não prontas.
Quando afinal o banquete está à nossa frente, todos respiram fundo. Com solenidade, o peru é cortado e começamos a comer, conscientes da empreitada coletiva de acabar com tudo aquilo. Cada um devorando a sua cota, inclusive o cachorro, sobra apenas o suficiente para alimentar um batalhão inteiro.

Agora que já nos conhecemos melhor, posso te dizer a minha idade. Tenho quase doze anos. Não parece? É, ainda mais com essa cara de criança que vejo no espelho, ninguém nessa casa desconfia que eu penso. Eu-a-precoce. É horrível.
Pois é, veja o meu dilema. Uso a força para o bem ou para o mal, Yoda? Às vezes caio em tentação. Às vezes essas pessoas passam dos limites e eu tenho que tomar providências. Às vezes eu sou pega e me põem de castigo.
Piedade... Eu nem chego a ser uma garota; eu sou uma garotinha! Ao menos já passei daquele estágio em que me chamavam de...
— Neném.
Esse que afagou minha cabeça e me chamou desse nome terrível? Papai.
Vou sentar naquela poltrona ali; não tenho nada para fazer, pego o jornal. A ladainha: movimento maior que o ano passado etc. Não dá pra prestar atenção, estou cansada.
Eis que vejo uma figura cartunesca no meu ombro. Um pequenino e vermelho ser, com seus dois chifrinhos e tridente. Ele saltita até a minha orelha e grita lá pra dentro.
— Hou!
Eu me assusto.
— Tá dormindo, garotinha? — diz minha irmã.
Tudo bem, estou acordada. Estou acordadíssima. Você vai ver como estou acordada.
Me encaminho à mesa. Esvaziei o olho. Olho enviesado. Me sinto má. Pior que a minha irmã, muito pior. Maravilhoso sentir-se má no Natal.
Então começa a comilança da qual já pus vocês a par. Este ano temos um novo conviva, é o meu primo de sete meses. Olha ele arrotando na mesa e todo mundo achando bonitinho.
Minha mãe agradece ao cunhado; não quer mais vinho. Ela não gosta mesmo de vinho. Sei que ela tem medo de perder o controle.
— Mãe, posso dar uma provadinha no vinho.
— Tá, pode.
É bom. Tomo mais. Mais um pouco. Virei. Acabou? Puxa, acabou. Minha mãe está distraída.
— Vó, posso provar esse vinho?
Reparou a dissimulação? Notou que pronunciei vinho e o apontei com um dedo como se me fosse um ente estranho?
— Tá — diz ela, me estendendo a taça.
No meio do terceiro gole a taça é interceptada pela minha mãe.
— Chega!
Ela perdeu o controle. Perdeu meu controle.
Tia Ciata nota e comenta:
— Ha ha ha! É a adolescência.
Eu não quero sentir isso; prefiro sentir que sou uma criatura isolada e incompreendida. Porém suspeito que eu e minha tia temos mais do que um nome em comum. Temos uma certa teimosia, um algo mais. Talvez seja o trauma do nome.
— Annunciata, tá com quantos anos?
Não! Não! Não olhem para mim! Olhem pra lá!
— Doze — respondo baixo.
— Vai fazer doze — corrige meu pai.
— Está uma mocinha!
— Mas ainda não está na idade de tomar vinho.
— Em Portugal, um vinhozinho de vez em quando...
— Na Itália...
Começa outra batalha entre o lado português e o lado italiano da família. Pronto, é isso: eu não tenho uma família; tenho um clã.
Enquanto isso, Carol, enfastiada com aquele bate-boca (toda conversinha amigável, no meu clã, vira bate-boca), levanta-se e diz:
— Tô cheia, tchau!
— Não, gracinha, não se diz “tô cheia” e sim “estou satisfeita”.
— E depois, “com licença”.
Odeio a etiqueta.
— Mais um pouco eu vomito.
Eu disse isso? Não é possível, isso não fui eu, foi o vinho.
Mas eles só estão rindo. Todos eles às gargalhadas com a imbecil da Annunciata.
Passa.
Já agora empilhamos pratos na pia. Esse hábito é repulsivo mas é compreensível. Afinal, todos estamos empanturrados; só queremos sentar.

Assistimos tevê. Estou tensa. Sei que, a qualquer momento, meu tio, fantasiado de Papai Noel, surgirá na sala. Para alegria das crianças — refiro-me às outras crianças. O cantor na tevê joga rosas à platéia. As velhas estão felizes também. O resto sorri, tomado pelo espírito vinícola natalino.
— Ho, ho, ho.
Pronto, Ele chegou.
— Vai lá, Annunciata.
— Você diz, lá... — aponto eu — ...com as crianças?
Saindo do meu corpo e examinando esta cena por um momento, vejo-me largada numa cadeira, com cara de desprezo cínico, atenho-me no meio-sorriso, percorro até as mãos soltas sobre os braços da cadeira, sigo pelo carpete até os pés atônitos da minha mãe, enfiados numa sandália barata, identifico o rosto como o de alguém que foi ferido.
Volto, dando-me conta de que ela também saíra de si.
— Você bebeu mais? — tenta ela.
Imediatamente vira de costas e vai ajudar a retirar as barbas brancas do tio Noel das mãos fechadas do caçula. Afinal, deu mais uma espiadela na minha direção. Desconfiada.
Não quero ver isso.
Tia Annunciata está cantando. Baixo, junto com o homem da tevê.
Não quero ver isso também. A canção é sobre o outro esquecido da noite. Uma já basta.

Passa o tempo, e os velhos jogam cartas na saleta. Restam minha mãe e minha tia na sala de tevê. Eu, atrás da coluna, de ouvidos atentos.
— Francisca, entenda isso. A sua filha está crescendo.
Minha mãe faz cara de tragédia.
— Não faz essa cara.
Minha mãe faz cara de quem, no fundo, entende a situação de uma pessoa perdida no meio de uma família imensa. Quem sabe ela também...? Espere, tenho que ir. Estou enjoada.
Corro para o banheiro, sabendo que cumprirei a minha própria profecia da hora da ceia. É a vingança do vinho. É a hora do arrependimento. Nunca mais farei estas más cousas, prometo, enquanto eu viver.
Lavo o rosto. Estou tranqüila. Fui perdoada. Antes de ir deitar, me apóio no batente da porta e ouço tia Annunciata:
— Isso é só o começo.


André Ducci
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://abducci.blogspot.com/

Simone Campos
Mais sobre seus livros: http://simonecampos.net/

21 de dez de 2011

Feliz aniversário

Texto: Celly Borges
Ilustração: Sueli Mendes






Feliz aniversário, eu gritava embaixo da janela.

Era noite e ela apareceu no quadro iluminado da janela, claro que sendo ela, não precisaria de luz artificial.

Sempre a imaginei como minha esposa. Com nossos filhos. Seriamos a família mais feliz, e esta noite eu daria o presente que ela merecia.

Feliz aniversário, eu gritava segurando a caixinha que encerrava o anel.

A vi descer, assim que a chamei, veio com o semblante angelical, linda como sempre, aquele sorriso iluminava minha vida. Não poderia existir sem ela.

Feliz aniversário, eu gritava cada vez que fincava a faca em seu coração.

Ela nunca mais sorriria para outro homem como a vi fazer naquela manhã, ela jurou nunca tê-lo visto antes, mas ele esbarrou nela e pediu desculpas, ela sorriu. E eu vi.

Deixei ali, em seu dedo, o anel, seu presente de aniversário, coloquei o meu, e deitei ao seu lado. Contemplaríamos juntos, a luz das estrelas.


Sueli Mendes
Seus trabalhos podem ser visualizados no blog 


Celly Borges
Publica outros textos e contos no seu blog, Mundo de Fantas.

20 de dez de 2011

Lucky Strike

Texto: Diego Fortes
Ilustração: Frede Tizzot





-   Strike! Lucky Strike! - e ela me olhou com uma expressão confusa sem saber se aquilo era uma brincadeira ou se eu estava falando sério. Ela riu, foi com a alternativa da brincadeira. Eu mantive o mesmo olhar apenas modulando levemente a sobrancelha esquerda para cima.

-   Analu! Na verdade é Ana Luíza, mas a galera toda me chama de Analu. Ana por causa da minha vó Ana, que já morreu e Luíza por causa da música, sabe? Não sei se você conhece, é tipo bem velha... Analu é tipo um apelido. Achei engraçado o seu: Luqui Istraique... Esse não é o seu nome mesmo, né? Quer dizer... é tipo assim um apelido, né?

-   Garçom! - alcancei dois uísques da bandeja, num misto de sedução e desafio. Ela bebeu igualmente desafiadora. - Lindo nome: Analu. Dizê-lo faz você ficar com um biquinho. Ela riu um pouco mais. Fiquei olhando para aquele pescoço lindo. Seu penteado fazia alguns poucos fios penderem pela sua nuca. Se quando ela parar de rir, ela ajeitar o cabelo para trás da orelha, este é o sinal definitivo para o meu avanço. Ela olhou para baixo, parou de rir e passou dois dedos na orelha para ajeitar o cabel...

-   Taxi! “Isso é tão inusitado”, ela repetiu umas dezessete vezes, entre beijos molhados e suspiros quentes no banco de trás do veículo. Paramos num apart hotel perto do centro. A conta do táxi ficou com ela, graças a deus! O recepcionista nos olhou com certa reprovação. Ele segurava uma mini bíblia numa mão e assistia a uma programa humorístico numa telinha de 14 polegadas. Quem era ele para nos julgar? Subimos no elevador comportados e em silêncio, como se estivéssemos economizando fôlego para dali a alguns segundos.

-   Abre! - ao descer o zíper lateral do seu vestido, fui logo dedilhando seu seio pela base. Enterrei meu nariz em seu pescoço. Que pescoço macio! Com habilidade, soltei as alças do seu vestido. Calcinha branca e de renda. Tentei não fazer nenhum julgamento sobre as expectativas dela em relação a esta noite quando escolheu aquela calcinha. Meu comportamento não condiz com meus sentimentos. Estava adorando aquele encontro casual e inusitado, mas no fundo eu sou um romântico. No espelho da parede do vestir, seus mamilos rosáceos me diziam para parar de pensar.

-   Alô? “Alô?” Alô? - tive que repetir para organizar as ideias e limpar a garganta. “Acordei o senhor?” Não, não, é apenas um final de resfriado, nada grave. - achei que não seria muito profissional atender o telefone dormindo. Queria marcar uma pequena reunião. Não queria antecipar o assunto. O fio do telefone fez cair o aparelho quando busquei um papel para anotar o endereço. Ok, sei onde fica. Ele contava com minha discrição. Discrição é meu sobrenome.

-   Malrboro! “Light ou vermelho?” Pensei rapidamente sobre como estes dois adjetivos se tornaram antônimos para uma marca de cigarros... “Posso fazer uma pergunta?”, o moço da banquinha perguntou. Isso já não é uma pergunta? - pensei, mas meu horror ao óbvio me refreou. Claro, disse eu. “Por que chamam o senhor de Lucky Strike se o senhor fuma Marlboro? E Light, ainda por cima...” Essa é uma história longa, fica para outro dia que o meu ônibus está chegando, desconversei. O primeiro ônibus, o alimentador, só passa a cada quarenta minutos, ai ai...

-   Com licença! - tenho que tomar muito cuidado para não pisarem nos sapatos. É uma verdadeira tourada com os outros passageiros, tão imersos em pensamentos assim como eu. Depois de quinze minutos de trajeto, ainda tenho que fazer conexão no terminal e daí andar mais um pouco até o café onde a reunião estava marcada. Esses longos itinerários acabavam com meus sapatos. Quem me vê nos ônibus e terminais nunca sabe ao certo o que pensar. Já me perguntaram se eu era político em campanha, oficial de justiça, fiscal da receita, entre outros. Só saio de casa devidamente paramentado: terno, gravata e sapatos lustrosos. De vez em quando, um lenço na lapela. Me faz ganhar a distinção de “doutor” no bairro onde eu resido e pelos coletivos que me transportam. 

-   Um macchiato! - adoro este nome! Não sei se gosto mais do nome ou do próprio café:  “manchado”, uma dose de expresso com uma pequena dose de leite com espuma. Algo forte e intenso debaixo de uma camada suave e doce. Acho que me identifico com ele.  Cheguei mais cedo do que o marcado pois o ônibus alimentador é quem pontua meus horários. Não sei se o cliente ficou mais surpreso com a minha presença tão antecipada ou com a minha aparência tão formal. A aparência formal sempre intimida - o que é muito bom no meu ramo de serviços. Me faz parecer organizado, discreto, prevenido. E de mais a mais, os clientes dificilmente tentam pechinchar.

-   Água com gás! Não posso beber café. Por conta da gastrite. É foda!, se queixava, levando a mão ao estômago. Ah, e um quindim! O quindim daqui é uma delícia! Não quer experimentar?, me ofereceu. Um homem de quase sessenta anos, bigode mal aparado, barba ainda não feita naquele dia, bastante calvo, agasalho de ginástica e tênis de corrida. Não fazia o tipo esportivo. “Barriga de casado”, como dizem. Quem nos visse, do outro lado da rua, pensaria que eu era o empregador e ele o empregado. Ou talvez, não. Talvez pudessem pensar que eu era o segurança dele. Não estariam muito longe da verdade.

-   É foda! Não consigo mais dormir, rapaz. Não consigo comer direito mais - disse ele com a boca cheia de quindim. Não consigo pensar em mais nada. Esses lazarentos querem meu fígado, rapaz. Tô entre a cruz e a espada! Para eles não contarem pra minha esposa o que  eles sabem, querem que eu pague. Mas pra pagar essa porra, eu vou ter que vender o apartamento de Camboriú - e como é que eu vou fazer isso sem ela perceber, hein?

-   Fique tranquilo! Assegurei minha eficácia ao cliente infiel e perguntei se poderia ficar com o jornal que ele trazia debaixo do braço. Permaneci lendo na minha mesa e como o horário do almoço fosse chegando, as garçonetes estavam ficando cada vez mais solícitas: “o senhor quer mais alguma coisa?” Por enquanto, não, obrigado. “Algo mais?” Agora, não, obrigado. “O senhor quer fazer o favor de se retirar e ceder a mesa pra um freguês pagante, seu quebrado?” - era o que estava no subtexto, elas não se impressionaram com meu terno. Andei pelas ruas do Centro repassando o relato do homem do agasalho.

-   Que nome! Naomi Sueli, a garota para quem o sujeito me liga no fim-de-semana que a mulher vai participar do campeonato de tranca da Associação Comercial de Camboriú!Prédio vazio... solidão do sábado à noite... um conhaque na cabeça... não vacilou e ligou para o número da morena boxeadora do site de acompanhantes. Entrei numa lan house e dei uma conferida na dita cuja. Havia fotos de Naomi Sueli num ginásio de boxe (só de luvas), tomando banho de cachoeira (só de óculos escuros) e chupando um pirulito (só de meias coloridas). 1,64m, 53kg, 23 aninhos, a moçoila! Não sei exatamente por que, mas nunca procurei uma prostituta. Acho que me sentiria trapaceando, meu ego não permite... Até então, os chantagistas só haviam feito contato por telefone e não haviam apresentado nenhuma prova concreta da escapada furtiva. No entanto, tinham informações precisas sobre horários e valores. Diziam também ter uma evidência com DNA -  um eufemismo para uma nojenta camisinha usada.

-   É hoje! Estava com aquele evento há semanas na agenda mental. Li na nota da Coluna Social que seria hoje o lançamento de uma nova importadora de bebidas. O evento iria se dar no Castelinho do Batel, muito chique! Importadora de bebidas... Drinques, coquetéis, canapés - meu tipo de programa. Algumas pessoas estranham ver alguém tão exemplarmente arrumado como eu logo cedo. Mas como minha casa fica um pouco afastada, eu já começo o dia preparado para a noite.

-   “Não acenda!” - ela me impediu de riscar o fósforo para meu cigarro. E por que não? Eu estou do lado de fora, ao ar livre. Até onde eu sei, aqui ainda não é proibido. Respondi sem rispidez, que vestido lindo! Coral, de alcinhas, sua pele clara e estatura delgada o vestiam à perfeição. “Não fica bem um homem tão bonito fumando...”, disse com a mistura certa de autoridade e vacilação. Está bem, não fumo. Só por que você pediu. “Como é o seu nome?”, queria saber. Strike!

-   Deita! - a calcinha branca me ordenou. Abri o cinto, tirei o paletó, chutei meus sapatos e deitei. Ela ficou de pé no canto da cama. Sua imagem branca iluminava o quarto. Braços para trás, peito empinado, ela ameaça um mergulho em cima de mim. Movimento contínuo, seus joelhos flexionam e esticam, em suas mãos uma fac...

-   O que é isso?!? ,pergunto eu, estupidamente e logo salto para o chão. Ela segue de pé na cama, sua expressão assassina contrasta com sua constituição angelical. Não bato em mulher em hipótese alguma... Ela prepara outro bote. Puxo o lençol da cama, ela se desequilibra e bate a cabeça na natureza morta. A réstia do abajur contorna seu frágil corpo desacordado. Vasculho sua bolsa. Um celular barato. Últimas chamadas: G.L.A.C. Quem ou o que seria G.L.A.C.?

-   Hummm... umm... - ela gemia, despertando do leve desmaio. Eu nunca bato em mulheres, seria a hora de abrir uma excessão? Não, num estado frágil, ela seria útil. Peguei um copo d’água mineral do frigobar. R$ 3,50 por um mísero copinho?!? Por que eu estava preocupado? Não seria eu quem iria pagar a conta. Malditos hábitos de baixa renda. Rompi o alumínio e joguei em sua cara: o que é G.L.A.C.? “Eu não sei.” Sabe! - mais um arremesso de água. Passei a abrir as bebidas isotônicas. É uma sigla, obviamente. O que significa? Gatorade de  frutas cítricas na sua fuça. A esta altura, ela já havia perdido todo o encanto. Quem mandou você? “Ninguém.” Já ameaçava apanhar os espumantes. “Você não sabe com quem está se metendo!” Não, mas você vai me dizer. Apontei a rolha para a sua testa. “É uma gangue...” Uma gangue? “O “G” significa gangue.” Que tipo de gangue? “Uma organização poderosa, muito além das suas habilidades. É a Gangue dos Lixeiros Anônimos de Curitiba!”

-   É claro! Assim tinham descoberto horários e valores. Tudo estava nas segundas vias emitidas pela maquininha de crédito portátil da Naomi Sueli. Não servem para nada estas segundas vias, mas sempre te dão, mesmo quando você não pede. A gangue acompanhava o movimento das prostitutas e depois recolhiam provas incriminatórias nos sacos de lixo do prédio. Quanta coisa se pode descobrir através do lixo de alguém! Quantos eles seriam? A quanto tempo estavam promovendo esta operação sórdida? Calcei meu sapatos, apanhei meu paletó e fechei meu cinto já descendo o elevador. Minha busca começaria procurando a Naomi Sueli.


Frede Marés Tizzot
Formado em História e Direito, abandonou o mundo acadêmico para fundar a Editora e Livraria
Arte e Letra, onde trabalha como ilustrador, capista, diagramador, editor, revisor, tradutor...

Diego Fortes
É ator, escritor, tradutor e diretor. Nasceu em 1982. Bacharel em Comunicação Social, tem
passagens pela Escola Técnica de Formação de Atores da Universidade Federal do Paraná, pelo
Ateliê de Criação Teatral e entre diversos outros. Fundou A Armadilha - cia. de teatro em 2001,
companhia pela qual montou os espetáculos Marias (2004), Café Andaluz (2005), Os Leões (2006),
Bolacha Maria - um punhado de neve que restou da tempestade (2008) e Jornal da Guerra Contra os
Taedos (2009). Em 2010, escreveu e dirigiu - com a colaboração da artista mineira Grace Passô - a
peça Os Invisíveis, pela qual recebeu a segunda indicação à Melhor Direção do Troféu Gralha Azul.
Mantém contato colaborativo com autores de outros países latinos.