14 de fev de 2012

Souvenir

Ilustração: Zansky
Texto: Paulo Biscaia Filho





É um erro definir a memória como algo puramente abstrato. Não podemos alcançar fisicamente nossas lembranças, ainda assim existem fragmentos que nos tocam a ponto de sentirmos um líquido espesso e cheio de insetos rastejantes tomando o lugar de nosso sangue. Somos tolos. Insistimos na contínua formação de um compêndio de lembranças apesar da incontestável impossibilidade de reviver estas experiências. Paradoxalmente, quando tentamos fazê-lo, nos frustramos ou ardemos em dor. Como certos exploradores no século XIX em busca de terras e culturas virgens a olhares europeus, existem ainda alguns que buscam novas experiências apenas para trazer novas matizes a seus repertórios de impressões. Ao encontro dessas cores que não deveriam tingir nenhuma tela, tudo mais se desfaz e encontramos rumos que em nada se assemelham a jornada original.

Sou escritor porque não conseguia encontrar outro ofício que me desse alguma paz - não! Não é ‘paz’. Isso é uma péssima escolha de palavra. É conseguir suportar tudo em volta. Nas obsessões que este trabalho traz como rotina busquei lugares, olhares, atos, ritos e outros elementos que podem sugerir substância ao conjunto de palavras. Em vez de viver, me alimentava de material apenas para dar vida ao que pretensiosamente chamava de obra. Esqueci de minha vida e de meu corpo. Esse modus operandi deve ter sido o motivo que culminou em um conflito amoroso que vivi pouco depois das festas de ano novo. Não deveria ter sentido tanto, já que não via a vida como algo mais importante que meus escritos. As palavras que ouvi antes de ela ir embora parecem ter lacrado, ou pelo menos confundido meu olhar para o mundo como uma fonte de imagens para meus contos. Não deveria ter acontecido assim, mas me encontrei na mais banal crise criativa. Depois de dizer para mim que eu não era humano, ela foi até a parede da sala e pegou um pequeno quadro de uma paisagem de um navio atracado em um porto ao por do sol. Havíamos comprado a pequena pintura juntos, juntando os trocados que carregávamos, em uma feira de rua. A imagem do quadro trazia pinceladas que remetiam aos impressionistas, mas sem a mesma sutileza e com um olhar naïf, apesar dos traços borrados que lhe dava alguma personalidade. Quando ela saiu, olhei para aquele espaço em branco na parede. Apenas um prego solitário e uma marca retangular de atrito sobre a parede branca. Minha mente se transformou naquele espaço branco. Era necessário preencher para poder viver - não! Péssima escolha de palavra. Para poder escrever.

Nunca fui afeito a beber e sempre achei patético beber por solidão. É tolice acreditar que a embriaguez pelo mais amargo absinto nos transforma em seres diferentes. Ela apenas liberta a estupidez que guardamos atrás de toneladas de costumes e leituras. Estupidez sim, pois somos criaturas que pontuam atos relevantes pelos momentos de insensatez. Eu já estava embriagado pela brancura daquele espaço na parede. Nenhum destilado de zimbro seria capaz de me embriagar mais. Foi justamente o auge deste delírio - no meio de uma invisível espiral num retângulo branco - que me fez querer viajar. Era preciso sair dali. Fugir daquele prego na parede que mostrava uma ponta de ferrugem e oxidava minha vontade de escrever.

Viajei em plena sexta feira de Carnaval. É inacreditável que em meio a toda esse caos, ainda precisemos de datas no calendário para celebrar a insensatez que é nossa razão de ser. Sempre odiei este feriado. Durante carnavais anteriores, ficava trancado em meu apartamento lendo jornais velhos e esperando que aqueles dias terminassem para poder abrir a porta. Foi justamente esta minha aversão que me fez viajar para um lugar onde as festas de Carnaval eram conhecidas por seus peculiares e delirantes excessos.
Parecia perfeito. Eu precisava de uma nova experiência. De uma nova cor para preencher aquele branco mais insuportável que a palidez da baleia para Ahab. Uma condição compulsória de dissipar meus preconceitos e buscar uma perspectiva alheia a tudo o que eu até então cultivava.

Aquela cidade estranha parecia ter sido tomada por exércitos ímpios que obrigavam a população a usar fantasias. Era uma lei marcial. Ainda assim todos pareciam estranhamente confortáveis pelo que eu via como um cumprimento de lei. As batidas repetitivas do bumbo soavam como uma cerimônia pagã de sacrifício humano. Gritos que lembravam brados de guerra, mas ao contextualizar compreendia que não passavam de expressões afetuosas para angariar novos integrantes aos blocos de foliões. Os gritos me afastavam da vibração sedutora das batidas. Caminhava pelas ruas olhando para aqueles foliões como mortos-vivos que vagam acéfalos tentando saciar algo que é impossível de saciar. Exatamente como eu, mas com anseios distintos. Estas diferenças eram grandes o suficiente para fracassar em minha busca por uma fantasia que não me pertencia.

Sentei-me em um boteco. Pedi ao garçom uma cerveja e um pastel. Menu que era a única possibilidade energética naquelas ruas. Aguardei as iguarias sentado naquela mesa sobre a calçada de petit-pavê irregular. Ali contemplei apartamentos e vi sombras de festas privadas cruzando as molduras das janelas. O movimento daquelas sombras exalava uma sexualidade que me fez sentir o sangue correr até o meio das pernas e iniciar uma ereção. Hoje vejo que aquilo deveria ter me surpreendido, mas foi algo absolutamente natural e justamente por esta organicidade, não havia surpresa alguma, apenas o desejo de me mesclar àquelas sombras. Se possível, não em corpo, mas também como sombra. Uma orgia de projeções cuja alegria me impelia a participar. Meu sonho acordado foi interrompido pela imagem de um prato de metal com um pastel de queijo sentado sobre um guardanapo cinza ensopado em óleo. Desejei então por um momento voltar para casa e resolver lá mesmo aquele vácuo de cores. Foi então que ele surgiu em minha frente e fez alguma piada sem graça.

Pela sonoridade, era certo que aquele homem - Não! A palavra não é homem. Isso é uma péssima escolha de palavra. Aquela... ‘criatura’. Melhor. Aquela criatura havia feito algum comentário cômico sobre o estado de meu pastel. Não sei exatamente o que ele disse, mas sorri em resposta, sem imaginar o motivo de estar sorrindo. Olhei para ele. Tinha um bigode bem aparado na parte de cima e um corpo peculiar. Em pontos parecia ser magro demais, em outros com gorduras disformes. Sei disso com detalhes pois seu torso estava nu, não fosse por um peculiar sutiã de cones em seus mamilos. Um sarong escondia suas pernas e completava a imagem bizarra a meus olhos estrangeiros. Perguntou então de onde eu era. Estava mais do que claro que eu não pertencia àquele cenário. Antes que eu pudesse responder, ele me interrompeu:


'Desculpe. Eu não deveria ter feito essa pergunta. Muito menos nessa época do ano. Já sei demais ao ver que você não é daqui. E não é apenas porque você não usa fantasia, mas principalmente por seu olhar. Você parece que está desesperadamente buscando por algo. Estou errado? '
Sorri encabulado confessando silenciosamente que ele estava certo. Ele continuou:
'Agora que estou aqui, você sem dúvida está querendo que eu te mostre alguma coisa para não voltar para sua cidade de mãos vazias, estou errado?'
'Talvez', respondi tentando manter um ar tolamente blasé que pretensos autores como eu gostam de ostentar.
'Você estava olhando para aquela janela ali naquele prédio. Eu percebi quando cheguei aqui e olhei para você', ele falou em meio a um arroto de cerveja.
'Você está me oferecendo alguma arapuca para turista? Quanto isso vai me custar?'
Ele riu e tomou mais um gole da garrafa.
'Não quero seu dinheiro. É carnaval. Eu também quero ver coisas novas. É o que todos querem por aqui'
O sotaque diferente do meu fazia com que aquela conversa ficasse ainda mais próxima de um conflito cultural, mas eu estava ali pelos motivos que ele me apresentava. Não havia como negar. Estava estampado em meus olhos.
'Aquele apartamento que você estava olhando é meu. Aquela festa é minha.', gabou-se.
'E o que é que você está fazendo aqui? Não deveria estar cuidando de seus convidados?'
'Eles sabem se cuidar sozinhos. E eu estava entediado. Então? Quer subir de volta e fazer algo pra fazer este Carnaval valer a pena?'
Pausei poucos segundos para tentar mostrar alguma dúvida, mas era inútil. Eu queria muito aquilo. O que quer que ele estivesse oferecendo.

Entramos no prédio e subimos a longa escadaria com degraus suntosamente marcadas por grossas placas de ébano. Eu ouvia o som da música crescer e meu coração acelerava fora do compasso. Quando estávamos pisando no penúltimo degrau, ele se interrompeu e me disse:
'Precisamos fazer algo com essa cara de gringo. Se você continuar assim, vão tirar proveito de você e eu quero que você tire proveito desta festa. Desviamos da porta de entrada e entramos pelos fundos do apartamento. Era uma área de serviço repleta de copos com restos de bebida. No meio do comprido cômodo percebi uma poltrona de couro com marcas de corpos suados e uma gota seca de esperma fazendo a curva do assento em direção ao chão. Deixei meu olhar pousado sobre aquela poltrona e não pude evitar a recriação da imagem daqueles dois corpos. Minhas visões foram interrompidas pela imagem de um esqueleto. De uma fantasia de esqueleto. Por trás dela, surgiu o rosto sorridente de meu anfitrião.
'Vista isso. Um dos músicos faltou e deixou essa fantasia sem uso. Essa máscara deve dar conta dessa sua cara de cachorro abandonado no sábado de Carnaval', e riu como se aquilo fosse algum tipo de piada. Não vi graça, mas sorri socialmente.

Vesti aquela imagem de mensageiro da morte e me senti particularmente livre. Ria dentro da máscara apenas por pensar que ninguém sabia que eu estava rindo..

Ele olhou satisfeito para mim e falou em meu ouvido, 'Agora eu vou te mostrar coisas que você nunca viu, mas peço que você também me mostre. '

Aquele pedido gelou meu espírito e desejei desistir, mas não havia retorno.

Ele abriu a porta que dava para o salão principal. Era um apartamento gigantesco. Uma verdadeira mansão cravada dentro de um antigo prédio. Músicos com uma fantasia igual a minha tocavam e faziam os pés dos demais convidados dançarem. A dança e a música não eram o mais importante ali. Os convidados usavam fantasias dos mais diferentes estilos. As mulheres, como regra, usavam pouca roupa. algumas usavam apenas uma máscara e um bikini. Outras nem mesmo o bikini. Algumas dançavam de olhos fechados, outras conversavam entre sorrisos com um ou mais homens. Tudo era pretexto para que eles então se ausentassem do salão e entrassem em um dos inúmeros quartos que rodeavam a sala principal.

'Lindas mulheres, não? Qual você vai querer?'. Tão súbito quanto ele lançou esta pergunta, virei para ele surpreso. Ele riu. 'Não, não… não se preocupe, já disse que não quero dinheiro. Não sou cafetão e elas não são prostitutas, o que estou dizendo é: que mulher negaria uma trepadinha com a morte em pessoa?' Estendeu o braço para mim de cima a baixo, como seu se eu fosse um carro novo e ele o vendedor. Não me movi. 'Já vi que você não vai tomar iniciativa alguma. Deixe que eu escolho então. Tome, tome uma bebida...e mais um desse aqui." Estendeu para mim uma taça de champanhe - a mais saborosa que já provei - e um comprimido. Hesitei brevemente, mas eu havia pedido por aquilo. Não! Péssima escolha de palavra. Eu havia desejado aquilo.

Em menos de um minuto o champanhe começou a fazer efeito e o comprimido logo depois.

Ele me levou até uma mulher. Um belo corpo e cabelos negros e compridos. Ele disse que não deveríamos trocar nomes. Me vendeu a ela da mesma forma que vendia ela a mim. As imagens borradas causadas pelo comprimido começaram a me irritar. Era preciso que eu tivesse uma percepção clara de o que estava acontecendo ali, mas já não era mais possível. Conversamos banalidades e ríamos. Pelas leis do bom senso, ele agia com misogenia digna de punição, mas tanto eu como ela estávamos nos regozijando com o tom impresso por nosso anfitrião. Depois de três taças e sabe-se lá quantos minutos, ele nos conduziu até uma porta além do salão. Entramos em um escritório. As paredes estavam repletas de adagas de todo tipo. Sarracenas, ocidentais, medievais, renascentistas, réplicas e originais. Maravilhei-me com a coleção até que minha companheira me desse um beijo e uma mordida em meu pescoço. Ela se afastou e sorriu. Levantou sua mão até a minha máscara, mas o anfitrião segurou seu pulso sorrindo.

"Esse sujeito aqui", disse ainda segurando seu pulso, "esse sujeito é a surpresa da festa. É por isso que eu não quero que você veja o rosto dele. Pra não estragar a surpresa". "Não posso mesmo tirar essa máscara dele?", ela disse rindo e colou sua mão em meu peito.
"De jeito nenhum! ", bradou o anfitrião.
"Então quer dizer que beijo na boca não pode? ", ela disse para me fazer corar ainda mais debaixo daquela máscara, se é que havia sobrado algum sangue em minha cabeça. Ela logo sentou-se sobre a escrivaninha do escritório e deslizou sua mão até o meio de minhas pernas. Gemeu como se estivesse me confirmando seu desejo. Fez seus dedos caminharem até minhas nádegas e empurrou meu corpo para entre suas pernas. Com o canto dos olhos vi meu anfitrião tomar um gole de champanhe e sorrir maliciosamente debaixo daquele bigode bem aparado. Com apenas um olhar, ele comandou que eu continuasse. Também disse algo. Não pude entender. A bebida e os efeitos do comprimido entorpeciam meus sentidos. A distante batida dos músicos vestidos de esqueleto vibravam em meus ossos enquanto eu penetrava aquela mulher. Ela não sabia quem eu era. Não sabia meu nome. Não sabia meu rosto. Não sabia o que eu realmente queria, mas se entregava passionalmente e verdadeiramente a mim. Meus sentidos foram evaporando à medida que acelerávamos nossos quadris. Olhei para frente e não via mais nada do corpo daquela mulher. A única coisa que havia sobrado eram seus olhos. Aqueles olhos flutuantes me instigaram paixão ainda mais fervorosa. Não a paixão dos românticos, mas a palavra compreendida no sentido mais amplo. Paixão significando onipotência. Percebia as gargalhadas daquele que permanecia ali como espectador e produtor do espetáculo. Senti as mãos dele em meu pulso, afastando meus dedos do seio de minha amante sem corpo. Ele me fez segurar algo que eu não sabia o que era. Era frio. Parecia mais um copo de bebida gelada. Ele então sussurrou em meu ouvido: 'Vai'. Não entendi por que é que ele queria que eu bebesse naquela hora, mas sua ordem fez crescer minha sensação de poder e meu êxtase foi se aproximando, mas subitamente tudo dissipou e não compreendi mais nada. Não havia mais olhos, nem corpo, nem lugar, nem música. Tudo era escuridão.

Na manhã seguinte embarquei de volta para casa com um misto de ressaca e uma estranha plenitude. Quando cheguei em casa o porteiro me perguntou se eu tinha aproveitado a viagem. Ainda tonto e incapaz de discernir o que havia acontecido, apenas resmunguei algo para dar a impressão de continuidade a conversa. Entrei no elevador e minha cabeça passou a latejar. Deduzi que era algum efeito tardio de meus excessos. Quando deixei minha mala sobre a mesa da sala, a enxaqueca aumentou. Abri a mala e vi minha máscara de caveira em meio a minhas roupas sujas. Levei minha mão em direção àquele souvenir grotesco e então percebi que seu peso era incomum para algo que deveria ser apenas de tecido barato. Havia algo dentro da máscara. Passei a desdobrar o pacote. Minha mão chegou a um cabo de marfim frio como o gelo. Levantei a última dobra da máscara em um gesto brusco que revelou a lâmina de uma adaga marroquina com a lâmina embebida em sangue que ainda coagulava. A rapidez de meu gesto fez com que uma gota escarlate voasse pelo ar e pousasse contra a parede escorrendo alguns centímetros. Meu coração subiu até a garganta e imagens foram se formando diante de meus olhos. Não eram meros delírios. Eram lembranças. Eram as mais diabólicas imagens de lembranças! Os dentes de uma voluptuosa mulher prazerosamente mordendo o lábio inferior… uma lâmina forjada à moda sarracena em minha mão… uma voz em meu ouvido… um gemido de gozo… um corte em uma vagina onde o jorros de sangue se misturavam ao meu esperma… risos… um corpo nu tombando no chão sem vida… mais um riso se contendo e dizendo: 'Me diga se esse não vai ser um carnaval inesquecível? Pode deixar que eu cuido do resto. Obrigado."

Com o sangue se tornando espesso em meu corpo, fui tomado por um espírito mais forte que a qualquer delírio de ópio e me atirei a escrever. A cada palavra escrita, aquela adaga entrava cada vez mais em minha mente. Ao digitar o ponto final de minha história, entendi que aquela lâmina estaria ali cravada por toda a eternidade de minha alma.


Zansky
Outros trabalhos: http://www.zansky.com.br/


Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

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