18 de out de 2012

Salgado

Conto: Paco Steinberg
Ilustração: Zansky



-Nome?
-Plínio Salgado.
-Idade?
-47.
-Não sei se deu pra entender, mas o senhor está sendo processado por falsidade ideológica. É bom começar a falar a verdade, senão as coisas vão piorar pro seu lado!
- Mas será o benedito! Vá lá, como queira.
- Escrivão! Apaga tudo. Do início: Nome?
- Plínio Salgado.
- Idade?
- 586 anos.

Antes de eu responder essa última pergunta, você leitor deve imaginar a preguiça que eu tive de matar aquele guarda, e deve imaginar também que não era a primeira vez que eu ia preso pela Polícia Federal por causa daquela maldita carteira de identidade falsa.

Todo mundo acha bonito quando aparece no cinema essa coisa do vampiro ser eterno e que a gente vive em danação e isso e aquilo. Danação é ter que ir até a Vicente Machado pedir pra um vampirinho mequetrefe fazer meu RG no computador toda vez que alguém me pega. Pra plastificar vamos eu mais ele até o Terminal do Guadalupe, lá ninguém acha nada errado.

Já esse guardinha, vejam só. A lei, estamos cumprindo a lei, ele ficava repetindo enquanto eu entrava no camburão; eu avisei que não ia prestar. Paspalho. Imagine, eu, que jogava bocha com o Vladinho usando cabeça de otomano, agora enfiado naquela carroça malfeita, fingindo ter medo da arminha dele. Esse negócio da arma, depois me lembre de te contar, é triste ver um homem se achar macho atirando à distância.

Voltando à delegacia, onde eu estava? Ah, sim, o guardinha. Virei-lhe um safanão na orelha que o infeliz vai levar pra outra vida. Já o escrivão me deu um trabalho danado de matar, eu odeio gente que se esconde embaixo da mesa. Sorte que eu não tenho artrite. Fugir da delegacia também foi chato. Virar pombo é complicado, a gente sempre entala nas janelas, mas nada que uma boa cuspidela pelo rabo não me esvazie a barriga e me faça passar pelas grades. Ah, claro. Por que eu não virei morcego? Mas que pergunta. Morcego na capital? A gente perde a originalidade por conta da civilização. Uma vez o IBAMA me pegou e eu fiquei uns 06 meses dividindo quarto com papagaios e tucanos no CRAS, lá no Mato Grosso do Sul, e os matutos tentando me devolver pra mata num programa de readaptação. Caralho.

Lógico que eu podia ter voltado antes, só não o fiz por conta de umas meninas que moravam por lá. Essas sim, minha danação. Com um pequeno detalhe que - não me julgue escatológico, caro leitor - faz meus companheiros vampiros mais afrescalhados, digo, de gosto mais refinado, torcerem a cara numa reprovação nauseante.

Lembro como se fosse agora, a primeira de todas. Chamá-la de moça é uma extrema bondade da minha parte, mas convenhamos que idade não é meu forte também. Vestia uma roupinha duvidosa, como toda boa puta sabe vestir, toda apertada, vazando as feminilidades pelos decotes. Pedi a ela que fosse sozinha para o quarto, ela estranhou. É que entrar pela janela na cidade não dá mais. É câmera, é alarme, cidade é um saco. E aqui no mato dá pra gente se soltar, fazer as coisas do jeito original. Mas enfim. Ela lá, deitada de bruços, toda serelepe, com as pernocas abertas pensando que eu vinha pela porta. Fiquei ali olhando a dona da janela, achando graça de sua sem-vergonhice um pouco ultrapassada, até que a safada virou o rostinho na minha direção e me chamou numa rebolada, que com o movimento das ancas escancaradas fez cair um pingo descuidado de seu primeiro licor mensal. Pensa que ela avermelhou, leitor? Qual nada! Aí é que se assanhou de vez...Que marota.

Foi aí que começou esse meu fetiche. De gostar de menstruação. Eu sou tarado por menstruação. Aquela dos primeiros dias então, em que os coágulos se amontoam e fazem uma dança na calcinha das meninas mais apressadas fazendo manchar a roupa, é uma perdição. O meu negócio é esse. Só chupar, ao invés de morder. O sangue é bem menos que uma jugular, é verdade, mas não há prazer que pague. Pra morder você assusta a pessoa, é aquela gritaria, luta, e o IML fica lá com aquela cara de paisagem pra diagnosticar a causa mortis. Chupando eu me sinto mais novo, conquisto as moçoilas, dou prazer e ainda mato a fome. Cada refeição, uma diversão. Às vezes a festa é tanta que deixo-as gozadas na cama, finjo ir ao banheiro e sumo pelas janelinhas, com a boca ainda suja de sangue. Não são todas que deixam, mulher é complicada, faz aquela cara de “não acredito” quando eu peço, mas prazer todo mundo quer e no fim das contas ninguém recusa quando a pedida é bem feita.

Há muito tempo montei um açougue ali no Juvevê pra ninguém ficar mais perguntando das marcas de sangue na roupa e até na minha cara. Se bem que o sangue desse povo da capital é muito fino e aguado. Essa gente mais loirinha então cruz credo, é morder num dia, no outro eu suo fedido como um bêbado do Passeio Público.

E assim vai indo, né. Eu e os outros vampiros (estava achando que só tinha o da Ubaldino, é?) ficamos ali na Boca Maldita, engraxando o sapato e contando mentiras um pro outro. É, leitor, durante o dia mesmo. Esse negócio de que a gente só sai à noite é coisa da cabeça do Stoker! Eu, por exemplo, nunca tive castelo nem durmo em caixão, já pensou, e a minha claustrofobia como é que fica? Que mania de misturar ficção com realidade que esse povo tem... Falando nisso, dia desses fomos comer um pão de alho ali no Lucca Café só pra tirar um sarro, e na mesa ao lado uma mocinha folheava um livro sobre vampiros, as outras coleguinhas de colégio todas interessadas, só porque fizeram um filminho mequetrefe do assunto. Uma delas, toda séria, chamou a atenção da que lia, perguntando por que ela perdia tanto tempo acreditando numa besteira dessas de vampiro. A garota ficou ofendida, enfiou o livro na bolsa e foi embora. No seu movimento juvenil atordoado, deixou cair um absorvente no chão.

Eu, que não sou bobo, paguei o meu café e fui atrás dela.

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

Zansky
Outros trabalhos: www.zansky.com.br

Um comentário: