28 de abr de 2012

Títere (VI)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares




2012
            Um pássaro desce pelo céu. Sua imagem some e aparece, por causa do sol. Lá embaixo, na XV, velhos conversam sentados em bancos. Alguns comerciantes anunciam seus produtos. Executivos tomam café em pé, em frente aos estabelecimentos da Boca Maldita. Pessoas caminham.
            O pássaro sobrevoa o Edifício Tijucas. Passa rente a uma janela de um dos últimos andares.
            O garoto vê o súbito movimento. Logo se desinteressa.
            A mãe sai do corredor para a sala, arrumando o avental. No centro da sala, encostada na parede, uma TV. O garoto está de joelhos, sobre o sofá, encostado ao vidro da janela.
            - Ei, filho, olha, tá passando aquele programa, o dos bonecos, não vai assistir?
            O menino vira o rosto para a TV. Não há tensão nos músculos da face. Talvez leve contração no zigomático menor.    
            - Não.
            O rosto vira-se para a janela.
            A mãe abre a porta de uma arca longa e pega duas travessas.
            - Ué, como assim “não”, por quê?
            Sua cabeça reta à janela. De costas para a mãe. Os cabelos, na parte traseira, com pontas suavemente levantadas. Para além da janela, prédios e reflexo.
            - Eu não gosto mais.

1964
        A lâmpada, pendurada pelos fios, pende de um lado a outro. Sua luz é fraca. A cada lado que vai, projeta sombras diferentes na parede de placas de madeira.
            Ele está com a cabeça baixa, ombros caídos e mãos repousadas ao lado do corpo. As mãos formam duas conchas voltadas para trás.
            O pai deposita o galão de cinco litros no chão. Usa um casaco puído.
            - Por que você fez isto?
            Os olhos do menino abaixam. As sobrancelhas erguem.
            - Eu queria pegar os fios de agulha da mãe.
            - Pra quê?
            - Pra amarrar e fazer uns bonecos. Pra brincar.
            O pai olha para a mãe. Ela não pisca.
            - Você tem que aprender, garoto, a não fazer merda.
            O pai infla as bochechas, cerrando os dentes. Suas mãos dirigem-se ao cinto. Tira-o de uma presilha. Olha para a mãe. Ela franze os olhos.
            - Muito bem, garoto, ouça-me bem. – solta a mão do cinto, tira a camisa para fora. Ajeita a calça. Curva-se para o menino.
            - Você não pode mais fazer estas coisas. Tá vendo aquele alçapão ali?
            Aponta para além do garoto, no teto do corredor.
            Ele olha. Demora para erguer a cabeça. Volta ela para o pai.
            - O velho do saco está ali, dormindo. Ele se alimenta de arteirice de guris que nem você. Toda vez que você faz algo errado, o sono dele fica mais e mais fraco. Até que um dia, de tanto você aprontar, ele vai acordar. E você não ia querer ver ele. O velho do saco tem toda a pele apodrecida. E o rosto, oh, Senhor, eu nem sei do rosto dele.
            - O que ele faz com as crianças?
            O pai olha novamente para a mãe. A mãe olha para o garoto.
            - Ele te coloca em um saco e te leva embora para sempre.
           
            Á noite, deitado em sua cama, ele puxa a coberta até os queixos. Um fraco fio de luz da lua corta a porta, em direção ao armário do quarto. Ele ouve ruídos no teto. Estremece. Seus olhos fixam-se na porta. Lá fora, o vento assobia. Silêncio. Ele ajeita a cabeça no travesseiro, ainda de olhos abertos.
            E esperou pelo dia que, fatalmente, a besta desceria do sótão e lhe tomaria em seus braços, para todo o sempre.     


Agradecimentos a Adriano Boriani, Anderson Nery, Guilherme Giublin, Kaiser, Jackson Souza Reis, Jorge Barbosa Filho, Fabiano Vianna, Luiz Felipe Leprevost, Maria Luísa Carneiro Fumaneri (principalmente), Leonardo Burigo, Fábio Young Lopes, pelos momentos em que tiveram de aguentar eu falando sobre este conto e o quanto ele estava me deixando perturbado e blá blá blá, até o limite da xaropice. Thank you all, motherfuckers!

FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
Seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com

27 de abr de 2012

Títere (V)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares




2012
Entre o palco e a janela, ele. De cima para baixo, seus olhos. Respira. A proeminência laríngea, lentamente. A garganta seca. Abre uma gaveta, retira um espelho e um pino. Sobre o espelho, despeja o conteúdo do pino. Com um cartão, ele faz do pó uma fileira organizada. Engole em seco. Usa um canudo cortado para inalar. Funga ruidosamente, apertando uma das narinas. Pra lá do palco, o garoto falando. Não ouve.
Ele respira fundo. A barriga infla/desinfla. Estrala os dedos unindo as duas mãos. Um dos bonecos está pronto, sob o tablado de madeira que compõe o palco. Tira o cinto, arria as calças até os tornozelos e senta-se em uma cadeira em frente ao tablado. Retira da gaveta uma seringa, uma ampola e pequenos pedaços de tecido. A seringa fere o bico da ampola. Enquanto o líquido sobe, sua cabeça ergue-se junto. A boca aberta. Poucos miligramas. Segura o pênis com a mão esquerda e, com a direita, penetra a injeção lentamente no corpo cavernoso. Nem uma gota de sangue.
Os pedaços de tecido revelam-se indumentárias permeadas por fios. Ele amarra os fios em um pedaço de madeira em forma de cruz. O pênis começa a enrijecer-se até alcançar o máximo de sua capacidade. Da mesa, ele pega um jogo de lápis especiais para maquiagem. Sua cabeça pende de um lado a outro, suavemente. Seus olhos estreitam-se enquanto maneja os lápis. Empurra a cadeira para frente, ajeitando os membros inferiores por baixo do tablado. Traz o pênis ao palco através de um orifício circular presente no lado direito do tablado. Por fim, coloca a indumentária, escondendo a glande com a cabeça de uma lagarta feliz. Murmura baixo:

“Você está velho, Pai Joaquim, disse o jovem,
E seu cabelo está ficando branquinho,
Mas você ainda planta bananeira,
Você acha, que na sua idade, isso está certo?3

 Manipula os fios. Sua cabeça balança de cima para baixo. Ele solta a cortina que separa seu tronco do palco. O segundo boneco está pronto.          
O palco ocupa um amplo espaço, limitado em distâncias equidistantes à esquerda e à direita das paredes laterais do quarto. É ligeiramente elevado em relação ao chão. Todo feito de madeira polida. Ele mesmo fez. Uma cortina preta cobre a extensão do espaço em que se desenrola a ação. A cortina é puxada para cima, por uma mão que surge e some, rapidamente, de/por cima do palco.
- Até que enfim! – o garoto está sentado em uma cadeira de plástico branca. Pernas magras, ossudas. Os joelhos estão colados e as tíbias balançam. A bermuda ergue-se quase até o meio das coxas.
A primeira marionete é um boneco articulado, usado geralmente como material de desenho. A lagarta está dormindo. O boneco aproxima-se sorrateiramente, pé-ante-
-pé, em cadência. A cabeça sem rosto vira-se. A lagarta está dormindo. Que tal acordarmos ela?
- Ah, que bobo! – o garoto levanta os braços e os deixa cair.   
            O boneco estremece. Mas a lagarta ergue-se, em todo seu esplendor, curvada para trás. Possui bracinhos ao longo de todo o corpo. É azul. As rugosidades de seu corpo quase somem quando está completamente esticada. Sua voz é poderosa e retumbante: Quem vem lá que me acorda, a esta hora, em meu domínio, eu, Poderosa Lagarta de Onã?
            O garoto franze o cenho.
            Passam-se alguns segundos. O boneco, antes curvado e sem vida, levanta e vira apenas a cabeça. Murmura. Ei, ele está falando com você! Não deixe a lagarta brava, garoto, por favor!
            O menino inclina o tronco para trás. Arregala os olhos. O espetáculo dura cerca de quarenta minutos.
           
            A lagarta está inerte. Seu tamanho e esplendor sumiram, suas glórias são finitas. Puniram ela. Bateram nela, tiraram-lhe toda a vida e todo o vigor. A lagarta prezava a Beleza. Esse foi seu único pecado.
            - Eu não vi ninguém bater nela! – brada o garoto.
            A voz surge atrás do palco.
            - Bom, isso aconteceu depois. Eu não contei. Mas aqui está ela, veja. Venha dar uma olhada de perto.
            O garoto levanta-se da cadeira e anda até o palco. O boneco articulado está caído no lado direito do tablado.
            - Olhe. – os fios da lagarta erguem-se, balançam, mas ela está enrugada. Pende de um lado a outro. – Viu? Pegue.
            O garoto estende a mão. Uma lufada de ar, vinda de cima, percorre seus dedos. No momento em que sua mão engloba a lagarta.
            - Ele é um boneco bem mole!
            - Ele não é um boneco, meu rapaz. É uma lagarta.
            - Mas agora ela não fala mais! Você é que faz ela falar! Faz ela falar de novo. É apenas um boneco sem vida!
            Mais uma lufada de ar atravessa os dedos do garoto. Ele olha para cima. Seus olhos encontram-se.
            - Ela não quer falar. Esta lagarta está muito solitária. Puniram ela. Bateram nela. Ninguém mais quis brincar com ela.
            - Por que ela foi punida, então?
            Ele funga. Seu maxilar cerra-se.
            - Isso não importa agora.
            - Ela morreu?
            - Oh, não. Ela só está triste e sem forças. Ela precisa que alguém faça carinho nela. Tua mãe nunca te ensinou o que é carinho?
            - É claro que eu sei. É assim. – com as costas da mão, ele roça a lagarta, suavemente. Ela estremece levemente.
            - Não, ela está muito triste... isso não bastará para que ela volte a falar com você! Você tem de segura-la, firme, sacuda ela, para cima e para baixo. Sim! Isso, desta maneira, veja como ela já está acordando!
            O garoto sorri.
            - Ah! Ah! Ah!
            Um pingo de suor cai sobre o tablado. A lufada de ar na mão do garoto torna-se mais forte e frequente.
            - Fala! Fala!
            Oh, sim, garoto! Já posso sentir as forças voltarem! Faça mais forte! Eu voltarei!
            A lagarta volta a ter seu tamanho normal. Seu corpo não está mais enrugado. O garoto usa as duas mãos. Pra cima, pra baixo. Sorri. A ponta de sua língua surge entre os lábios.
            Você me ajuda, garoto! Você está cheio de beleza, você me preenche!
            - Ah! Ah! Ah!
             As lufadas de ar começam a fazer barulho.
            Eu estou viva. Eu estou viva, oh Deus... oh, Deus...
            Mais pingos de suor caem sobre o tablado. O garoto olha para cima. O rosto do homem está elevado. Os olhos estão fechados. A boca está aberta, úmida, o lábio superior ligeiramente à frente do inferior. Algumas bolhas de suor entre a boca e o nariz.
            Estou viva, es... Ahh..ah..
            - Você está bem?
            Sim, es-, estou bem, continue, garoto, continue!
            O menino larga a lagarta. As mãos estão ainda dentro do palco.
            - Ei, moço, eu não quero mais brincar.
            O rosto elevado baixa os olhos. Ainda geme. Suas sobrancelhas assumem a forma de um “v”. Abre os olhos. Seus lábios alongam-se. Seus dentes estão cerrados.
            - CONTINUE!
            O garoto recua. As íris azuis ligeiramente úmidas. Refletida na pupila, uma sombra vaga contra alguma fonte de luz indistinguível. A esclera, em intervalos irregulares, ora para a direita, ora para a esquerda, rapidamente.
            Suas mãos estendem-se novamente para a lagarta.
            Ahhhh, sim, sim, deus...você é poderosa, e o inferno desabará sobre aquele que te enfrentar!
            A expressão de seus olhos, quando vista em conjunto, revela aguda tensão dos supercílios em sentido inferior.       
            Os gemidos intensificam-se.
            Não há elevação do sulco palpebral superior.
            A lagarta contorce-se. As mãos do menino estão encharcadas. O líquido escorre por entre seus dedos.
            A poderosa lagarta agradece, pois o espetáculo da Beleza está vivo e continuará apreciado e vivo. E se retira.
            O homem pega, com uma das mãos, ambas do garoto, que as mantém esticadas. Em silêncio, ele conduz o menino até o banheiro.
Lá, ele lava suas mãos.


3 Alice no País das Maravilhas.


FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
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26 de abr de 2012

Títere (IV)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares



1964
            Ele sabe que o sapo é perigoso. Pode soltar um leite que se pegar no olho pode cegar. A mãe disse. De cócoras, observa a inércia do anfíbio. Um lampião ilumina a varanda da casa de madeira. A mão larga a pedra há pouco pega.
Entra pela porta da frente, silenciosamente. No final do corredor que se estende a partir da porta, ouve o som da máquina de costura da mãe. Pé-ante-pé, entra pela primeira abertura à direita. Aproveitando apenas a luz do corredor, abre o armário do quarto dos pais. Tenta alcançar uma caixa de sapatos em um dos armários do quarto. Consegue, mas junto à caixa, acidentalmente arrasta um pequeno trabalho em gesso. De seu pai. Antes de rachar-se ao chão, a estátua tem o som da quebra abafada pelo reflexo de sua mão. Curva-se, alerta. A máquina de costura continua. Olha para a figura partida em duas no chão. Coloca a mão na boca e encolhe a barriga. Cata as duas partes da estátua e as coloca atrás da caixa que acabara de retirar.
De volta próximo do sapo, ele desenrola os barbantes brancos. Caminha, vagarosamente, até os fundos da casa. Ali, em um pequeno rancho, monta a armadilha.
É eficiente. Segura o sapo, com força, usando a mão esquerda. A direita, com habilidade, tece nós com o barbante. O tempo inteiro mantém os olhos protegidos pelos ombros.
            Logo que termina, salta para trás, desenrolando pequena parcela da totalidade do rolo de barbante. O sapo pula. Ele tensiona. O anfíbio cai verticalmente, de lado. Mas logo se recompõe.
            Ele manipula os fios. Correndo pelo cascalho, ora levantando os braços, ora relaxando-os.
            - Pula, sapo! Pula!
            Sorri. De um lado a outro, pelo cascalho.
            Há um portão rudimentar na frente da casa. Ele ouve seu barulho. Suas mãos soltam os barbantes. O pai surge na virada da varanda para o caminho de cascalho.


FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
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25 de abr de 2012

Títere (III)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares



1994
            Existem, no Condomínio Saint Pierre, diversos meninos. Púberes. A complacência e submissão emocional/intelectual de que precisam é notória. Alguns mais velhos, mais “experientes”, outros mais novos. Mas não faz diferença. O que conta é a distinção entre cada um. A diferença de criação, de mentalidade, de sensibilidade. E, principalmente, de maturidade. Mas todos ávidos.
            Ali está o garoto que perdeu o pai cedo: sua sede por uma figura heroica, de autoridade, para que deposite suas inseguranças. Acolá este moleque que apanha em casa do irmão mais velho, homem da casa depois da mãe viúva: ele está babando para descobrir do homem de mais envergadura a polpa de sua vingança. O maior deles sedutoramente desespera-se pelo reconhecimento, apenas para não perder o respeito perante os menores. E outros, ainda, uma encenação bastante previsível. Os corpos têm a textura macia da androginia característica da puberdade, ao mesmo tempo que a promessa de uma virilidade contida - bundas salientes e fortes, falos tímidos sob pentelhos ralos. Quando explode, ainda é culpada, frágil e desorientada. A tensão entre a fragilidade e a fúria do desejo é a Beleza.
            Eles estão aí, nesta sala miúda. Duas caixas de som estão tocando as primeiras notas de “Time”, do Pink Floyd. Eles querem vê-lo tocar bateria. Querem ver junto com a música. “Beleza é aquilo que desespera”1. A reação se uma revista pornográfica fosse jogada no meio deles seria a mesma. A possibilidade de “venerar” algo lhes reforça a identidade, independente do motivo. Excitam-se com a crença de que estão no controle. Regozijam-se com mãos hábeis. Mas ainda são ingênuos. Não sabem que mãos hábeis não sabem ser hábeis consigo. Estão aliciando uma ilusão. Sempre a tensão. “Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio.”2
            Foi uma boa época a do Condomínio Saint Pierre.

2012
            Um fino feixe de luz, vindo pela curta brecha da cortina, atravessa a sala. Ilumina os dois corpos. Ele está com os braços lânguidos, ortodoxamente ao lado do corpo. Os ombros permanecem curvados. Boca entreaberta. Os olhos não piscam. O garoto está à sua frente. Encarando-o, ainda com a cabeça levantada e uma mecha de cabelo caída sobre as sobrancelhas. Eles permanecem assim por alguns segundos.
            O menino pisca algumas vezes. Arregala bem os olhos e arruma a mecha.
            - Não está muito escuro aqui?
            O homem acompanha com o rosto o arrastar dos pequenos pés explorando o novo ambiente. A boca ainda entreaberta.
            - Lá em casa a mãe nunca deixa nenhuma cortina fechada. Pode dar mofo.
            - É por causa do sol. – ele diz, voltando o olhar para a janela. O corpo permanece languente, de frente para a porta.
            - Eu sei que é por causa do sol. – o garoto eleva mais ainda o queixo, contraindo o orbicular da boca. - Apartamento que não pega sol não é bom. Tem que pegar sol de todos os lados.
            O homem esboça um sorriso. Move o corpo, finalmente, os braços voltam a ganhar vida e os ombros ficam eretos. Ele caminha pela sala.
            - Você parece ser um garoto bem esperto.
            - Eu sei.
            O homem gargalha. Em uma distância frágil de tempo, o garoto observa-lhe a reação, prócero tenso, mas logo sorri também. Seus olhos voltam-se para as mãos do homem.
            - Por que suas mãos são assim?
            Ao toque, o homem tem um pequeno ataque de languidez, logo recuperado. Afasta-se. Vira-se de costas para o garoto e recomeça a andar pela sala, em torno do sofá, até a janela e de volta para o centro do recinto.
            - Você sabia, garoto, que o nome deste edifício que não pega sol direito é Tijucas?
            O garoto faz um bico e gira a cabeça molemente, de um lado a outro. A mecha de cabelo volta a cair sobre a testa.
            - O Tijucas foi construído sobre um pântano...um pântano assombrado. – O homem curva-se e suas mãos abrem-se, como garras. Os olhos estão abertos no limite muscular permitido. – Este prédio, garoto, é cheio de fantasmas. Fantasmas das pessoas que morreram no pântano.
            O garoto infla as bochechas e olha para a fresta de luz vinda através da cortina. O homem posiciona-se à sua frente, interrompendo o fluxo de claridade. Sua fisionomia assume uma careta de escárnio, um meio-sorriso esticando-se de um zigoma a outro.
            - Dizem até que às vezes você pode ver o espírito de uma mulher vestida de vermelho andando.., – seu rosto aproxima-se do garoto. Pode sentir seu hálito. Lembra-
-lhe talco. Por um momento, hesita, admirando a forma de seu crânio. - ...pelos corredores deste andar mesmo. – Vira o rosto e arregala um dos olhos, enquanto o outro permanece semicerrado. Abre a boca, em espera.
            - Eu não tenho medo destas coisas.
            O homem fecha a boca. Bruscamente ergue o corpo e a cabeça cai pra trás. Os braços retornam à languidez e os ombros caem. O sorriso some de sua expressão.
            - Você gosta de bonecos, garoto?

1  Paul Valèry, modificado.
Isaías 40:11.


FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
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24 de abr de 2012

Títere (II)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares



2012
            O olho de íris azul está ligeiramente úmido. Refletidos na pupila, flashes de luz indistinguíveis. A esclera, em intervalos irregulares, ora para a direita, ora para a esquerda, sutilmente. A expressão de seus olhos, quando vista em conjunto, revela uma pequena tensão dos supercílios em sentido inferior. Porém, há uma sutil elevação do sulco palpebral superior. É um garoto.
Sentado em uma cadeira giratória, em frente ao computador, o tronco virado para a direita. Seus ombros estão relaxados, prostrados para frente. Sua respiração é regular.
Ele assiste à Turma do Jan-Jan, um programa que passa diversos desenhos ao longo da tarde, intercalados por gags provocadas pela convivência entre bonecos (e apresentadores) de naturezas, formas e tamanhos variados. 
A sala é predominada pelo tom marrom. Carpete, cortinas e dois sofás de couro de mesma cor. Uma mulher loira, vestida com jeans, jaqueta marrom e bandana vermelha com motivos indecifráveis, entra pela porta ao lado da mesa do computador. As paredes são brancas. Um telefone toca.
Alô...
            O menino vira-se lentamente para o computador. Sua boca está entreaberta. Quando faz isso, uma de suas mãos está sobre o teclado. Na tela, um jogo chamado Cavaleiros de Grumma, cujo objetivo é digitar rapidamente as palavras que surgem no menu direito inferior. O conteúdo, em si, é que uma horda de “pilhadores” Yin-Ramat tenta “invadir” a fortaleza dos cavaleiros Grumma. Cada palavra digitada no tempo certo vale uma “derrota” de um dos vilões. Uma palavra digitada em tempo mais do que “certo” vale um combo especial de “derrota”.
Mas não tem como, amiga... hm. O Marcos sai lá pelas seis...ah, tá! Ahahahha...sei...mas com que eu vou deixar o piá? Ãh? Ahahahah...
Ele olha novamente para a TV. Logo depois, para a mãe.
Tá. Tá, eu sei. Eu vou tentar uma coisa aqui, tá bom? Já te ligo. Vou ver com o Marcos também...tá bom. Hm. Beijo. Ah! Ahahahah...tchau!
É rapidamente vestido pela mãe. Os olhos dela são bonitos e lembram um catavento marrom. Na porta do vizinho, ela se remexe inquieta. É pega de surpresa em um momento em que olhava para o corredor do andar.
- Oi...oi! Tudo bem? Olha, bem rapidinho, o senhor já fez algumas calças pro meu marido, ce lembra de mim, né?
Ele abre um sorriso. Tem um declive no orbicular da boca.
- Olha, eu tenho de dar uma saída urgente, surgiu do nada, sabe? – ela sorri. – Eu...eu gostaria de saber se poderia deixar o garoto com você. Até umas oito e meia, por aí, sabe?
Ele olha para o garoto. Este, de mãos dadas à mãe, retribui o olhar, não sem um esforço para levantar o máximo que pode o queixo. Com esse movimento, os cabelos lhe caem sobre os olhos.
- Não terá problema, Senhora. Eu estou sem nenhuma encomenda. Digo, urgente. Apenas a finalização do corte de uma calça, mas é pra segunda só.
- Por que ele corta calças, mãe?
Ambos sorriem. Sua mão cai sobre o batente da porta e lá permanece. A outra sustenta o peso do quadril. Por um momento, olha novamente para o garoto. O supraorbital inclina-se para baixo. Volta um sorriso para ela.
- Ai, meu filho, ele é alfaiate. Ele faz roupas para as pessoas.
- Eu sei fazer roupas. – ele levanta mais o queixo e infla as bochechas, fazendo um bico com os lábios e balançando a cabeça e as pernas.
- Certamente que sabe.



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23 de abr de 2012

Títere (I)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares
"Não há culpados. O que há são desgraçados."
- Shakespeare
                                                                                            "O demônio pode citar as Escrituras para justificar seus fins."
- Idem









1964
        Ele é um menino franzino e pálido. Corpo marcado por feridas decorrentes de trabalho rústico ao ar livre. Shorts vermelhos com listras brancas nas laterais, imitação da Adidas. Pés sujos. Está sentado sobre um degrau de cimento que há um dia secou. Ele mesmo fizera. O sol se pôe. Grilos. Língua na boca, ele pega uma pedra do cascalho que faz o caminho até os fundos da casa, tenta acertar um sapo que surgiu junto com a noite. Os olhos.
            - Pula, sapo. Pula.
            Nenhuma pedra acerta.

 23:45 – 1997
            Este homem mora no Tijucas. Apartamento espaçoso e confortável. Pouca luz. Raramente sai de casa, à exceção das necessidades mais básicas. Não humanoide de estatura exatamente gorda, mas sim “robusta”, mede quase dois metros de altura. Tem os ombros pendentes, um tanto mais para a direita. Possui uma grande papada e seus cabelos são muito ralos no topo, enquanto que abundantes (e desalinhados) nas têmporas. Olhar vago, porém firme e estático, quando em contato visual.
            Sai pelo lado norte do edifício. Na Trav. Nestor de Castro, levanta a gola do casaco de lã marrom. Olha para os dois lados da rua. Perto da continuação da José Bonifácio, é abordado por dois rapazes com moletons de capuz. No trajeto de volta, ele erra o caminho.
           
03:25 – 2001
            É uma sala ampla. Tacos de madeira. Ele está pelado sobre o sofá de dois-lugares. Região entre o meio de seu abdômen e os pelos pubianos proeminente. Mas não nos lados. Ele vê o DVD de Como se faz o amanhã, estrelado por Richard Burton e Ava Gardner.
            Os cristãos e os bons samaritanos sempre elevaram a questão “quanto você pode perdoar” a um patamar de irrepreensível moralidade, Rose...
            Sua respiração acelera levemente. Sobre um espelho, ele pega um canudo e percorre o nariz.
            Eles não podem compreender, meu amor...
            O quê, Rose?
            Ele serra os dentes e o rosto treme. Calafrio. Percebe seu pênis por um momento, mas logo sua respiração eleva o abdômen. A sensação de enxergar apenas um pouco do que representa o perturba. 
            ...que a verdadeira virtude heroica é o homem conseguir perdoar a si mesmo.
            Suas mãos passeiam sobre o corpo, lentamente. Seus lábios estão entreabertos e úmidos por saliva discreta. 
            Sim, Rose. Um homem de verdadeira ética seria aquele consegue perdoar a si mesmo.
            - Oh, não, não, deus...
            Ele sente sua semente cair sobre toda a área compreendida entre o abdômen e o tórax. Com as mãos, espalha sobre o peito. E é glorioso, senhor Onan, oh, se é, senhor!

FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

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