19 de jun de 2012

Amoral

Baseado no roteiro original de Nika Braun e José Victor
Direção: Nika Braun
Direção de fotografia e cor: Rosano Mauro Jr.
Direção de Arte: Alex Rocca
Maquiagem: Andréa Tristão
Som e trilha: Vinícius Nisi
Montagem: Eugenia Castello
Assistente de fotografia: Débora Vecchi
Still: José Victor
Locação: Rogério Mendonça
Música: Mordida – Eu amo você


Atores: JOEL VIEIRA & DÉBORA VECCHI
Alex Rocca / Anna Rafaela Bacila / Nika Braun / Rogério Mendonça / Vinícius Nisi 



14 de jun de 2012

Lorena (o filme)

Baseado no conto de Daniel Gonçalves, inspirado na ilustração de Arthur d´Araujo
Direção e Adaptação: Carol Winter
Direção de Fotografia: Eli Firmeza
Direção de Arte e Maquiagem: Ana Bellenzier
Edição: Carol Winter
Pós: Lilian Döring
Produção: WTF?!filmes
Trilha: Troy Rossilho
Assistência de Produção: Bruna Barboza

Atriz: JANAINA MATTER

Figuração: Felipe Araújo / André "Pé" Dedecek / André Quadros / Felipe Pinheiro / Isabella Bicalho / Danilo Custódio / Vinícius Sgarbe / Victor Hugo


Lorena*
Conto de Daniel Gonçalves inspirado na ilustração de Arthur d'Araújo

Absorta em seu cigarro, Lucia desce a ladeira sem elegância alguma, equilibrando-se sobre as sandálias plataforma. Próximo dali, ecoa a algazarra dos foliões de carnaval. Um carro encosta; carro imponente; e ela vai se debruçando junto à janela da porta traseira. O homem mascarado deposita trezentos Reais no decote da moça e abre-lhe a porta sem delongas. A quantia supera o lucro de uma noite inteira de programas, Lucia embarca.
– Prazer, Lorena! – ela se apresenta, estendo a mão para ser beijada.
– Prazer, Lorena! – ele retruca, beijando-lhe as costas da mão estendida.
– Misterioso... hummm...
– Que bom que isso lhe agrada...
Ele ordena ao motorista que siga; ela observa que esse também está mascarado.
– Coloque essa máscara, por favor, Lorena.
– Tudo bem! Fetiche de carnaval... espera! Essa máscara não tem olhos!
– É uma precaução, por minha privacidade; mas se preferir, eu paro o carro e você desce aqui...
– Não, tudo bem!
Alguns minutos rodando na escuridão pareceram uma eternidade. Ainda de olhos vendados, Lucia foi conduzida gentilmente casa adentro e acomodada em um sofá por seu anfitrião.
– Não tire a máscara, vamos brincar assim por enquanto.
Pela cabeça de Lucia, passam várias hipóteses: de deformidades faciais a complexos fálicos. Ela ouviu uma garrafa sendo aberta e o tilintar de taças.
– Beba esse vinho, é excelente!
– Nesse calor, eu cobiçava uma cerveja bem geladinha...
– Ah! Mas o vinho é uma bebida tão mais sensual, não me faça essa desfeita, sim?
Foram alguns goles da bebida adulterada; a partir daquele momento, ela estaria totalmente vulnerável. Outros mascarados adentraram a sala e ajudaram a carregar Lucia, ou Lorena, até o porão - uma antiga adega erigida em pedra. Despida, deitaram-na sobre um altar, ornamentado com bizarros simbolismos. A moça contorcia-se em delírio. O rito começou com a entoação de um mantra – YOG-SOTHOTH AI’F ZHRO OGTHROD – repetido continuamente. Uma urna foi aberta e um odor nauseabundo alastrou-se pelo recinto. Da caixa, ergueram um saco de tecido roto que continha uma cabeça, aparentemente taxidermizada, de um animal de pelagem grossa, bocarra feroz e olhos vidrados. Com uma adaga, cortaram sete vezes a moça. Cortes superficiais. Para cada incisão, uma única gota de sangue, a ser precipitada na boca da cabeça grotesca – sete gotas. Depois, posicionaram a cabeça entre as pernas de Lucia. A respiração da meretriz gradualmente ritmava-se ao mantra. Quanto maior a força na evocação das palavras, mais profunda tornava-se sua respiração; seu ventre contraia-se violentamente. Ouviu-se um bufar poderoso; o monstro piscou os olhos e começou a respirar; o corpo de Lucia agora lhe pertencia. Um segundo recipiente foi aberto, tratava-se de uma caixa térmica com gelo, que guardava um coração humano. O mestre da cerimônia depositou o órgão na boca da criatura, que mastigou e engoliu a oferenda.
Lucia acordou com o ruído do ventilador de teto, em um quarto de hotel barato. Ao lado da cama, encontrou uma bolsa com tanto dinheiro que desistiu de contar. Aturdida, desceu as escadas; na recepção, descobriu que sua diária estava paga. Perguntou sobre seu acompanhante, mas uma vaga descrição foi tudo que obteve.
Alguns meses depois, Lucia morreu. Complicações no parto.

* conto publicado na rodada 2 do blog, dia 9/2/2012. Clique aqui para ver a ilustração do Arthur

9 de jun de 2012

O Caso da Morte do Mutreta (Parte 6)

Texto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Foca Cruz



Parte 6 – Final

As luzes se acenderam e alguém ofegante entrou. As cortinas impediam que Guerra visse quem era diretamente, mas o quarto inteiro refletia na janela. Era um cansado Célio Silva, carregando uma grande bolsa de viagem. O prisioneiro se debateu com as luzes acesas. Mutreta derrubou a bolsa ao lado dele e desferiu-lhe um tapa na cabeça, dizendo que ficasse quieto. Avançou para a janela em cujas cortinas Guerra se escondia, parando a palmos de distância dele, sem vê-lo. Olhou para fora por alguns instantes e voltou para o prisioneiro.
Trouxe uma cadeira abaixo do nó de forca e sentou nela, ao lado do prisioneiro.  Sacou um isqueiro e brincou com ele nervosamente. Guardou o objeto, subiu na cadeira e segurou-se na corda com as mãos, erguendo os pés. A corda aguentou seu peso. Desceu, pegou um pacote de salgadinhos da bolsa e comeu um atrás do outro. Retirou um papel escrito do bolso, correu os olhos por ele com detimento e o colocou sobre a cama. Logo sacou o isqueiro e voltou à nervosa brincadeira de antes.
O Mutreta respirou fundo, parecendo resolvido. Sentou-se e pegou uma das mãos do prisioneiro. Agarrou firme um dos seus dedos, e com a outra mão acendeu o isqueiro. Mutreta queimaria as impressões digitais do prisioneiro, não fosse o cano do revólver do investigador em sua nuca.
O rastro de dinheiro até a fotografia era muito evidente para ser acidental. A data da foto faria quem a descobrisse vir até o motel. Chegando um pouco mais tarde, descobririam um corpo enforcado e desfigurado, certamente com algo que o identificasse como Célio Silva. Como em outros casos, profissionais e amorosos, Guerra era recompensado pelo seu profundo conhecimento dos motéis da cidade.
Célio Silva deixou cair os ombros. Relutava em começar aquela odiosa tarefa e parecia aliviado por ter sido interrompido. Márcio lamentou que alguém da reputação dele tivesse posto tudo a perder daquele jeito. O investigador descreveu como só uma coisa podia fazer aquilo tudo fazer sentido. Mutreta precisava sumir antes que a Polícia descobrisse as pontas soltas de um crime antigo. Como o assalto a banco de dez anos atrás. O detetive só quis saber por que forjar a própria morte mais de uma vez.
— Quem precisa de mim vai saber que estou vivo. Mas pra quem me quer morto, não vale a pena nem descobrir se estou vivo, quanto mais me matar. Mas nunca terão certeza. Eles se ferram... em dobro.
Sem se virar pra responder, Mutreta sorriu seu sorriso irresistível. Propôs com algumas palavras que ele sairia do quarto e desapareceria. Guerra podia ficar com a bolsa e tudo o que havia nela. Com um gesto sutil, abriu a bolsa, revelando pacotes de cédulas. Assegurou que não era nem perto do total, mas que seria o máximo que qualquer pessoa encontraria. Com o silêncio do investigador, Célio Silva levantou-se e andou lentamente até a porta, para a impunidade, sorrindo.
Horas depois, Guerra retornava ao mesmo quarto. Tentou parecer indignado ao ver o corpo enforcado que era examinado por Correia e pelos novatos. Aguardou enquanto os legistas desceram o corpo desfigurado e encontraram o ferimento a bala nas costas. O papel sobre a cama era uma nota de suicídio, escrita pelo Mutreta. Correia emitiu uma série de impropérios. Os novatos entreolharam-se confusos.
A quilômetros dali, “Champinha” finalmente soltou as mãos. Conseguiu remover a venda e a mordaça. Antes de soltar os pés, viu algo que havia sido largado com ele com os lençóis do motel no meio daquele matagal. Era um pacote de dinheiro, ainda com a fita de papel do banco.


Eduardo Capistrano

Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com

Foca Cruz

Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

8 de jun de 2012

O Caso da Morte do Mutreta (Parte 5)

Texto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Foca Cruz




Parte 5

Nem esperou os policiais chegarem. Não deixou rastro de dinheiro para ser encontrado. Talvez considerassem uma overdose acidental e tardariam a descobrir quem era a vítima, demorando para alertar Correia e os novatos. Estudou uma maneira de pegar a caixa sobre a marquise e acabou estacionando o Chevette embaixo dela, colocando um engradado de cerveja em cima do carro e equilibrando-se sobre ele com muito cuidado. Puxou a caixa com a ajuda de uma ripa. Além de mais algumas notas, dentro havia um pequeno álbum, daqueles fornecidos pelo laboratório que revela as fotos. Três fotos felizes de Célio Silva e a Nega Maluca, dentre plásticos rasgados de outras fotos arrancadas à pressa. Guerra sorriu. Tinha ido atrás da caixa apenas pelo dinheiro.
Estava certo de ter visto o lugar de uma das fotos, com data de alguns dias antes. Manteve-a sob um elástico no quebra-sol do Chevette. Queria que ficasse à vista, para ver se lembrava de onde ficava aquela rua, aquela parede azul-calcinha, aquele símbolo que havia sido cortado pela metade, atrás de Mutreta e sua amante morta. No meio do seu jantar de x-salada e suco, se recordou. O símbolo era de um motel de beira de estrada que não visitava há muito tempo. Terminou o sanduíche no caminho para lá.
Era depois da meia-noite quando chegou. Parou uma quadra antes do motel e andou a pé. Um rapaz foi o tempo inteiro na sua frente e entrou no motel também. O rapaz era um funcionário, que assumiu o balcão e prontificou-se a oferecer um quarto, dizendo entre piscadelas e cutucadas de cotovelo que podia estacionar no motel, pois o sigilo era absoluto.
Descobriu com uma nota de cinquenta que não era tão absoluto assim. O casal da foto havia se hospedado no quarto 27, sem deixar qualquer registro. O homem do casal ainda estava hospedado. Por mais cinquenta, saiu do saguão com uma chave para o quarto.
Alcançou a porta com o revólver em mãos. Anunciou-se como serviço de quarto, batendo na porta. Sem resposta. Usou a chave e entrou rapidamente, trancando a porta atrás de si. No interior, um homem nu estava amordaçado, vendado e amarrado sobre a cama. Começou a se debater assim que notou alguém no quarto. Seu porte estava entre as semelhanças que tinha com Mutreta, mas não era ele. Explicou quem era antes de tirar apenas a mordaça, e o fez. O homem choramingou em mal português que só lembrava de estar bebendo em um bar para acordar ali.
O prisioneiro perguntou porque Guerra não o libertava. O investigador recolocou a mordaça, sem mencionar a corda com o nó de forca pendendo do forro do quarto. Deixou o homem se debatendo, apagou as luzes e esquadrinhou o apartamento só com a lanterna, atento a qualquer som do corredor. Nada havia encontrado quando notou que a porta estava sendo destrancada, e jogou-se atrás das cortinas.



Eduardo Capistrano
Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com

Foca Cruz

Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

7 de jun de 2012

O Caso da Morte do Mutreta (Parte 4)

Texto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Foca Cruz



Parte 4

Enquanto isso, o detetive procurou confirmar a hipótese de que nenhum dos dois cadáveres era Mutreta, gastando algum tempo indo atrás dos cinco nomes que os novatos esperavam conectar a ele. Dois já estavam mortos há muito tempo. Os outros três estavam desaparecidos. O mais recente, um elemento conhecido por “Champinha”, havia sido visto pela última vez apenas alguns dias antes, em um restaurante de beira de estrada. Todos estavam no meio das conexões entre o banco que fora assaltado e Mutreta. Removendo-os, a conexão estaria eliminada.
Tornou-se prioridade para Guerra encontrar quem podia ter respostas verdadeiras. Aquela conhecida de Célio Silva que não havia encontrado antes podia ser a única. Só a conhecia pelo apelido de Nega Maluca. Mutreta gostava muito da Nega, mas ninguém sabia o quanto. Guerra apostava que era sua amante, daí o mistério quanto à relação. Esquadrinhou os pontos preferidos de Mutreta, os verdadeiros, e não os que se diziam como tais para atrair a atenção da mídia e de fregueses impressionáveis. Por um módico “cinquentinha” arrancou o paradeiro da Nega.
O ex-policial esperava que Mutreta tivesse arranjado lugar melhor para esconder uma namorada. Talvez ela não fosse nada disso. O cortiço formado por dois prédios abandonados e uma viela ficava em uma área não recomendada perto do centro da cidade. Guerra entrou no lugar com a arma em mãos. Corredores repletos de lixo pareciam indicar um lugar desabitado, mas de susto quase meteu uma bala na cara de um viciado que cambaleou sobre ele, saído de um dos muitos apartamentos vazios.
Devolveu o viciado ao apartamento com tapas e xingamentos. Em resposta à comoção que causou, ouviu gritos e barulhos um andar acima, que era para onde se dirigia. Correu para as escadas e subiu apressado, a tempo de ver alguém correndo sumir no fim do corredor. O investigador chegou à porta por onde o vulto saiu, lançou um rápido olhar para dentro e mesmo sua “casca grossa” de policial veterano perdeu uma lasca. Em um pequeno e agradável apartamento no meio daquele antro imundo, envolta apenas nos lençóis sobre uma cama abarrotada, uma polaca de generosas carnes róseas se contorcia e cuspia uma espessa espuma branca, tendo três seringas enfiadas no braço direito.
Guerra já amaldiçoava a própria burrice assim que arrancou as seringas, tentando com uma mão ligar para uma ambulância com o telefone ao lado da cama, enquanto a outra abria a mandíbula travada da mulher para evitar que engasgasse com a própria língua. Quando finalmente conseguiu completar a ligação, o volumoso corpo da Nega Maluca já havia parado de convulsionar, a língua caindo flácida fora da boca. Deveria ter corrido atrás de quem fugira. Trocou o pedido de ambulância por um rabecão.
Antes que Correia e os outros chegassem, Guerra teve bastante tempo para examinar o apartamento. Havia indícios suficientes para determinar que alguém estivera residindo ali com a Nega, já fazia algum tempo. Havia roupas de homem com as dela e camisinhas novas e usadas ao lado da cama. Um rastro de notas de dinheiro amassadas levavam de uma caixa de sapatos no armário até uma janela escancarada. Da janela, enxergou uma caixa metálica sobre a marquise do prédio vizinho, contendo, ao que parecia, mais dinheiro.


Eduardo Capistrano

Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com

Foca Cruz

Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

6 de jun de 2012

O Caso da Morte do Mutreta (Parte 3)

Texto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Foca Cruz





Parte 3

Sondou a cidade atrás dos dois conhecidos de Célio Silva. O primeiro era franzino o suficiente para Guerra dar uma de valente. Seu Chevette 1980 bege parou na frente da padaria onde o elemento tomava uma média com misto quente e chacoalhou o homem até ver que aquilo não daria em nada. O homem não tinha mais negócios com o Mutreta desde que ele tinha tentado enganá-lo, e pareceu surpreso, mas não muito feliz, ao saber da morte dele. Célio Silva tinha se tornado importante para muita gente. Mesmo quem desconfiava dele preferia que continuasse vivo.
Não encontrou o outro conhecido, ou melhor, conhecida, de Mutreta. Os dias se passaram, as pistas esfriaram e a busca infrutífera por palpites que se seguiu, além de outros trabalhos e outras preocupações, afastaram a morte de Mutreta da lembrança de Márcio. Sua consciência estava tranquila, pois os contatos cada vez menos esporádicos com Correia indicavam que a dupla de novatos também não tivera sucesso algum.
Isso até Mutreta morrer de novo.
Confusos e sonolentos, encontraram-se Correia, Guerra e os novatos em plena madrugada numa das rodovias que saíam da cidade. A linguagem do momento eram palavrões e impropérios, à medida que avançavam centenas de metros, barranco abaixo e matagal adentro, seguindo uma trilha de lama e vegetação esmagada que já começava a se fechar. A trilha acabava em um festival de fachos de lanterna que convergiam para as ferragens de algo que fora um dia um automóvel. Do metal retorcido emergia uma mão horrorosamente fraturada e putrefeita.
O investigador iluminou a placa do carro e lançou um olhar pra Correia, que em resposta acenou afirmativamente depois de olhar para um extrato que trazia em mãos. Era o carro de Mutreta, desaparecido de sua casa incendiada até aquele momento. Já raiava o dia quando os bombeiros terminaram de cortar as ferragens e extraíram o cadáver para os legistas. Um deles sacou a carteira arruinada e seu conteúdo arrancou risadas nervosas e maldições da equipe. O cadáver portava a carteira de habilitação de Célio Dias.
Os dois Mutretas estavam lado a lado sobre mesas de autópsia no Instituto Médico Legal. Guerra e os outros trocavam hipóteses. Só cabia uma de duas situações: o verdadeiro Célio Silva estava ou não dentre os cadáveres. Estavam “providencialmente” desfigurados além do reconhecimento, com impressões digitais e arcadas dentárias destruídas. O caso ganhou atenção e os novatos regozijavam com a já garantida notoriedade. Exames periciais mais dispendiosos foram autorizados e apenas Guerra e Correia ficaram mais preocupados do que tranquilizados. Todos acreditavam que o segundo cadáver seria o erro que resolveria todo o caso. Mas os dois veteranos sabiam que o talvez defunto não chegou à reputação que tinha cometendo erros.
Os novatos agarraram-se ao caso com unhas e dentes e curtiram a breve onda da fama, dando entrevistas e fazendo o caso do Mutreta chegar aos jornais e revistas. Ocorrendo bem no meio de uma “seca” de tópicos da mídia, o “Caso Mutreta” ganhou os jornais, revistas e noticiários, sendo discutido e até julgado com autoridade por qualquer um que tivesse lido meio parágrafo de um dos vários artigos especulativos que foram publicados.

Eduardo Capistrano

Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com

Foca Cruz

Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

5 de jun de 2012

O Caso da Morte do Mutreta (Parte 2)

Texto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Foca Cruz






Parte 2

Márcio lembrava-se dos feitos de Célio Silva desde seus tempos de Polícia. O Mutreta sempre fora um daqueles criminosos mais incômodos do que perigosos. Acumulava uma longa lista de contravenções e crimes pequenos, mas só alguns lhe deram os poucos anos que passou preso. Era habilidoso pra não deixar provas e pra inutilizar aquelas que deixava. Especulações abundavam sobre sua participação em infrações das mais variadas, das leves às gravíssimas; provas faltavam e Mutreta nada dizia, colhendo os frutos da reputação incerta.
Por algum fato misterioso, o Mutreta era admirado pelos bandidos, talvez por ter sempre “livrado a barra” dos cúmplices em vez de “bater com a língua nos dentes” quando tinha a oportunidade. Mas ele sozinho podia mandar meio submundo pra cadeia. Envelheceu no crime, sempre respeitado. Seu nome era mencionado com alguma reverência até mesmo do lado da lei.
Era um “roleiro” dos melhores, daqueles capazes de vender gelo pra esquimó. Pregava peças em todo mundo, mas só o fazia pra obter alguma vantagem. Desenvolvera com esses hábitos lábia ferina, habilidade como mentiroso e a subsequente descrença de todos, com tudo o que fazia.
Evidência de tudo isso era que tanto Guerra como Correia custavam a acreditar que tinha morrido. Verdade ou não, o fato de um documento dele estar em um cadáver carbonizado dentro de uma casa incendiada era complicação suficiente. Teria sido morto por um de seus inúmeros possíveis inimigos, que finalmente descobriram ser ele o causador de algum prejuízo? Ou seria mais uma peça elaborada do Mutreta? Se fosse o caso, em quem a estava pregando?
Correia apresentou ao investigador alguns dos policiais que também examinavam a cena. “Um par de novatos”, resmungou o agente de meia-idade. Guerra trocou algumas palavras com os rapazes. Havia perdido muito da profissão mas ainda sabia reconhecer o “traquejo” que vinha com o ofício. Os policiais podiam ser novos, mas já demonstravam algo da amargura que vinha com o endurecimento.
Os novatos estavam investigando novas pistas sobre um notório assalto a banco que havia ocorrido uns 10 anos antes. Receberam uma denúncia anônima que não parecia muito válida e acabou sobrando para eles. Estavam ansiosos por um caso que lhes desse algum renome e seguiram uma longa trilha de migalhas, todas cercando o Mutreta. Guerra perguntou como chegaram à conclusão. Cinco das pessoas que interrogaram estavam a alguns nomes de distância de conexão com Célio Silva. “Nada mal”, pensou o investigador com as sobrancelhas erguidas. Ele próprio conhecia os nomes e as conexões, e não se deu conta disso. Os dois ainda não tinham o suficiente para fechar o cerco, quando foram notificados do incêndio.
Era parte do “método Guerra” de investigação apropriar-se sem arrependimento das descobertas dos outros, sem a necessidade de contraprestação. Ocorreu ao investigador outros dois nomes sequer mencionados pelos novatos, um deles que poderia lançar luz sobre o paradeiro do Mutreta, se fosse outro que não o necrotério.
Alguns monossilábicos com Correia firmaram o contrato com seus serviços de investigação. “A combinar”. Dependia do que descobrisse. Correia não havia nascido ontem; se aquilo tudo resultasse na solução do assalto a banco, a Polícia ficaria com os louros.

Eduardo Capistrano

Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
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Foca Cruz

Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com


4 de jun de 2012

O Caso da Morte do Mutreta (Parte 1)

Texto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Foca Cruz






Parte 1

Como muitos de seus casos anteriores, o investigador Guerra poderia resolver aquele facilmente com um flexionar de dedos, um estampido, um corpo caindo ao chão. Não precisaria se preocupar com explicações, as inevitáveis mentiras, a preocupação com as consequências. O homem diante dele sorria um pacto. As mãos ocupadas. A arma, se existisse, ainda na cintura. A sua própria já em mãos. A corrupção sorridente ergueu-se em direção à impunidade. Era como aquela citação. Bastava que Guerra nada fizesse. Os pensamentos dardejavam em sua cabeça.
Márcio Guerra havia sido da Polícia Civil. Foi afastado, diziam, após ter sido acusado de matar um suspeito indevidamente. Ninguém de fato lamentava a morte do indivíduo, um traficante pego no flagra estuprando uma moça. Mas a morte atraiu a atenção da Corregedoria, na época em uma “caça às bruxas” para eliminar o vigilantismo no órgão. A perseguição foi infrutífera na época e Guerra podia ter continuado, mas preferiu sair, principalmente por temer um tiro pelas costas: que a morte do traficante fosse vingada por colegas policiais comprados pelo crime organizado.
Confirmado ou não — ninguém saberia —, o motivo de sua saída da Polícia concedeu a ele uma reputação que soube usar na sua nova linha de trabalho. “Bicos” de segurança ou mensageiro no submundo acrescentaram vários nomes à sua já numerosa lista de contatos. Com isso, veio a oferecer seus serviços como “Márcio Guerra – Detetive Particular”, mas seria conhecido mesmo como resolvedor de problemas. Pessoas de toda a cidade e de todas as camadas sociais o procuravam para obter o que não era obtível pelas vias normais. Ou legais.
Seus métodos não primavam, ressalte-se, pela licitude. Assim, surpreendentemente ou não, a própria Polícia acabava lembrando desse seu ilustre ex-integrante como colaborador eventual, formalizando tal colaboração o quanto fosse apropriado para o caso em questão. Às vezes tinha que dar até nota fiscal de seus custos; às vezes, nunca revelaria que fizera o serviço para a Polícia.
A ligação de Correia, um de seus antigos colegas, anunciava um desses casos. Não soube qual seria o grau de sua associação com a Polícia até comparecer no local e hora marcados para o encontro que discutiria o serviço. O endereço era em um bairro residencial de casas simples na periferia. Da casa em questão restavam apenas alguns tocos projetando-se do solo, terminando em carvão. Duas viaturas policiais ainda estavam no lugar. O encontro era em uma cena de crime.
Sua presença foi apontada pelos presentes com os indicadores e polegares, os murmúrios e cochichos de costume. Sem cerimônia, passou cerca adentro para encontrar Correia diante dos escombros da casa. Tinha com o homem um acordo silencioso, mais forte do que uma lei anciã gravada em pedra. Mencionemos apenas que envolvia a então esposa de Correia, um certo sargento da Polícia Militar e uma cova nunca descoberta num dos bosques da orla da cidade.
Apertos de mão foram seguidos de pigarros secos e silêncio, até que uma maca com um saco de cadáver foi empurrada até eles por um dos assistentes de legista. Guerra pegou a luva oferecida por Correia e abriu as abas do saco. Um cadáver carbonizado sorriria para ele, se tivesse dentes.
Torceu o canto da boca. O ex-colega apresentou uma cédula de identidade de bordas chamuscadas. O documento estava em nome de um certo Célio Silva. As sobrancelhas do investigador se ergueram em reconhecimento do nome, e em seguida franziram em incredulidade. Afinal, como acreditar na morte do homem conhecido como “Mutreta”? 


Eduardo Capistrano
Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com

Foca Cruz

Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

3 de jun de 2012

(Bônus) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 LabEugênia Castello Andrea Tristão


Fotos bônus:







Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
 o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 

Marco Novack

Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br

2 de jun de 2012

(6) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 LabEugênia Castello Andrea Tristão




Parte 6    Final

Acordei cedo no outro dia para comprar produtos de limpeza. Aproveitei também para reabastecer a geladeira com cerveja. Trouxe logo dois engradados. Foi trabalhoso esfregar o piso e limpar o sangue. Não sabia o quanto era difícil. Definitivamente é melhor usar veneno para matar as pessoas. Enrolei o tapete e liguei para a lavanderia.
Daí sentei em frente ao computador, mas não consegui escrever. Como a inspiração não veio, mandei um email para a editora com as crônicas que havia escrito até então. Ainda não eram suficientes para formar um livro, mas pelo menos dava para sacar o clima.
Abri uma lata e fui até a janela. O mundo continuava em sua organicidade banal: os vizinhos passeando com cachorros – entre bombas de cocô, na pracinha da Americanas, o vendedor de gravatas dando encima da mocinha da Ótica, o mendigo que parece o Gandalf, encostado no poste da esquina. Olhei para as janelas do prédio e vi outras cenas habituais – tudo matéria prima para novas crônicas.
Toca o telefone. Paro de lavar a louça e fecho a torneira. É minha editora, dizendo que adorou as crônicas e quer marcar uma reunião. Comenta a nefasta coincidência de terem morrido três escritores que ela publicava. Combinamos de nos encontrar à tarde num café do Batel Soho.
Desligo e abro mais uma latinha. Não acredito que enfim serei publicado!
Se isso acontecer, não precisarei mais matar nenhum escritor.
“Poxa, mas era tão bom...e agora?”
Talvez seu eu bolar uma nova lista de desafetos.
O atendente mal humorado do Café da Boca, que finge esquecer que eu gosto de meu sanduíche de queijo e presunto esquentado na chapa, pode ser o primeiro.

(fim)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
 o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 

Marco Novack

Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br

1 de jun de 2012

(5) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 LabEugênia Castello Andrea Tristão







Parte 5

Fomos lá para casa e enquanto bebíamos, eu só conseguia pensar nas camisinhas que permaneciam em segredo no bolso do casaco.
Mostrei toda minha coleção de revistas pulp e de fotonovelas – ela leu e interpretou alguns trechos. Depois li as minhas crônicas novas, mas ela disse que preferia mais os de horror.
Então fui até o quarto e peguei o meu roteiro abandonado das samambaias gigantes assassinas para saber o que achava. Mônica deu várias risadas e achou bem melhor, mas acabamos não lendo tudo, porque nos beijamos e rolamos sobre os papéis.
Só não fomos mais adiante porque a campainha tocou. Achei estranho, porque ninguém me visitava tão tarde, entretanto podia ser um pretexto para ir até a sala pegar as camisinhas no paletó.
Abri a porta e era o sujeito que eu tinha pagado para matá-la, com revólver na mão, cobrando o resto da grana e anunciando meu plano maquiavélico a plenos pulmões. Não adiantou pedir que falasse mais baixo. Ele gritava: “Até entendo que você não queira mais “matá” a vadia, mas quero as minhas quinhentas pratas que faltam!”
Mônica apareceu na sala, para saber quem era e deu um grito quando viu o rosto do mesmo bandido que tentou nos assaltar na porta do restaurante. Debruçada na janela, pediu socorro.
O bandido disse que eu que tinha contratado ele para matá-la e que não fosse besta.
Eu me fiz de desentendido: “Como é que é?”
Aproveitei a distração e agarrei o braço dele. Acabou disparando uns tiros, mas por sorte eu consegui alcançar a faca que estava sobre o criado-mudo e enfiei no bucho. Espirrou sangue pra todo o lado. Para minha tristeza, descobri depois que um dos tiros disparados durante a luta havia atingido Mônica. Seu corpo estava caído, ensanguentado, sobre o tapete da sala.
Mônica não sobreviveu. Os vizinhos ligaram para a polícia. Meia hora depois, eu estava sentado na mesa da cozinha, explicando para os detetives toda a história. Eles elogiaram minha valentia, disseram que estavam atrás daquele trafica há meses e lamentaram a morte trágica da garota. Eu também fiquei muito triste, porque ela foi a única pessoa que elogiou minha história das samambaias assassinas.
Quando os investigadores foram embora, me senti ainda pior. Não só pela perda como pelo fato que eu não tinha Quiboa na dispensa para limpar o sangue. 


(continua...)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
 o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 

Marco Novack

Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br