18 de ago de 2012

Coração das trevas

Ilustração: Foca Cruz
Conto: Daniel Russell Ribas

17 de agosto (ano ignorado)

A busca continua. Não recordo como exatamente teve início. Só lembro do agora. Este momento. Este vento frio cortante. Este cheiro salgado e irritante. Esta água gelada e dura, que corrói os corações e a moral. O nome do Senhor não é usado na embarcação. Ele jamais é pronunciado. Pois uma tripulação imersa em uma terra que não se fixa ou termina, sem sinal de civilização em todo o horizonte, está entregue aos instintos e práticas mais abomináveis que o homem é capaz. Aqui, Deus não enxerga. Trata-se do coração das trevas, onde o mal prevalece e todo o horror faz sentido.
Deveríamos ter chegado em terra firme há meses. O céu sem estrelas tira a pouca esperança dos homens. Nosso suprimento acabou há semanas. Houve inquietação. Mandei que fossem recolhidas todas as armas e objetos cortantes. Mas isto não adiantou. Senti que se uma medida mais urgente não fosse aplicada, um motim estouraria. Precisei fazer uma escolha. Uma opção que os homens de bem jamais cogitariam ou teriam de fazer. Mas um homem do mar é não é um homem de bem. É um ser entregue ao puro instinto, acostumado ao selvagem.
Tentamos pescar, mas o mar não foi generoso. O que conseguíamos diariamente não conseguia alimentar a tripulação. A fome se espalhou. Qualquer discordância, real ou imaginária, levava a conflito e a sangue. Sabia que era o começo do fim. No mar, é preciso evitar a morte a todo custo, sendo que esta nos cerca por todos os lados. Marinheiros são uma espécie suicida, disposta a morrer à procura de algo além do usual. Isso também os torna matadores sem remorso. Quando fiz minha escolha, não prestei contas ao Senhor. Não busquei perdão, apenas sobrevivência.
O primeiro foi um imediato de cujo corpo tomei para minhas necessidades de homem. Como disse, no mar, não há morais, apenas instintos. Além do mais, alguém que se presta a esta papel, mesmo que necessário em uma embarcação, não é digno. É uma criatura abaixo dos homens e dos tementes ao Senhor. Com minha faca, cortei sua garganta. Com o balde, conservei seu sangue. Com o fogo, cozinhei sua carne. Com a tripulação, saciei minha fome.
Cinco almas até o momento foram perdidas. Digo para todos que o mar as levou, embora haja desconfiança. Desde então, ando fortemente armado.
Foi após a quinta refeição anormal que a besta surgiu. Como que enviada por um Senhor que finalmente olhou para seus filhos pródigos em meio ao lar dos desgarrados, mandou a criatura para nos punir. Para lembrar-nos que há limites, mesmo quando estes são se aplicam em nome da sobrevivência.
A besta é incansável. Persegue-nos há dias. Nos embates, sete almas foram engolidas por sua gula maldita. Sua fúria, como que manipulada por uma força sobrenatural, é inesgotável. A força, quase imensurável. Ontem, por um dia e uma noite, atacou-nos pela proa, pela pompa e por baixo. Embora tenha causado danos extensos, nenhum deles foi o suficiente para afundar a nau. É como este bicho irracional não estivesse disposto a nos assassinar ainda. Deseja mais. Quer torturar-nos, expiar nossos pecados antes que tenhamos que pagá-los na danação eterna.
Esta noite, até agora, o ser das profundezas não apareceu. O mar está calmo. À distância, vê-se uma tempestade. Nada de terra. A busca continua. O porto surgirá, seja como um lugar exótico e firme ou na escuridão da barriga da besta. O monstro é a encarnação de nossa heresia, que retorna para mostrar-nos que somos homens e que há um preço a pagar. Cinco assassinatos imorais não compensam ao Senhor a vida de cinquenta homens cujo instinto é sobreviver. Seremos punidos por ceder à selvageria, pelo coração das trevas, onde mal prevalece e todo o horror faz sentido.


Foca Cruz
Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

16 de ago de 2012

Anan

Ilustração: Júlio Vieira
Conto: Yusef Al Ayub Hudhayfah


O capitão Zaide Muwaffaq e sua tripulação conheciam muito bem os riscos e as lendas a respeito das águas malignas do mar Makhluk antes de aceitar a perigosa incumbência alvitrada pelo imperador Dal Ima Adin, de Amtullah. Entretanto, isso não foi suficiente para intimidar os maiores marujos mercenários de Zaide ≈ bando composto pelo seu irmão Zaim, Radi Habib, Benevides Nasih, Butrus Moamede, Anadil e Sharif Mahmud, Jibril Fahd, Boulos Latif, Dharr Dhul Fiqar, Shadi Ra’id, Ayub Dib, Rarin Katar, Sab Mu’ayyad e Zaib Mansur.  
O rei desafiou Zaide e seus comparsas a encontrar o Nazar Bancugu, um talismã milenar que protege quem o usa, da inveja dos inimigos. Ele é conhecido também como O Olho Místico ou Olho Turco. Os turcos acreditam que com o amuleto do olho você estará protegido e toda a energia ruim estará dirigida ao amuleto e não atingirá você. 
A recompensa foi generosa e o soberano Dal Ima Adin sabia muito bem como agradá-los: pagou antecipadamente a metade do valor em moedas e artefatos de Zildar.
O navio de Zaide partiu no dia seguinte à negociação. Levaram suprimentos suficientes para mais de cinco meses de viagem. E um pequeno baú de madeira, especial, chamado Kahon, abençoado pelos magos, onde deveria ser guardado o Nazar.
Depois de vinte noites no mar, algumas aterrorizadas por pujantes tempestades, aportaram em Anan ≈ cidade de brumas. Muitas histórias de bruxarias e rituais de Anan circulam pelas barbas dos frequentadores das tavernas de Amtullah. Anan é uma cidade encoberta pela névoa, encrustada nas montanhas de Azmar. O que favorece a obscuridade de rituais macabros. Dizem que muitos bruxos amaldiçoados se escondem nesta cidade, inclusive tramam e agem contra os grandes reis. O Silêncio fático das janelas e ruelas de pedra tortuosas não passa de um ardil para enganar visitantes. Corujas bicéfalas e morcegos alvos furavam a cerração, dando rasantes, assustando os marujos.
O grupo passou a noite numa pousada com degraus de musgo, chamada Estalagem Almas, a menos de cem passos da praia. Durante a madrugada, vozes gritavam na escuridão. Anadil ainda tentou enxergar algo pela fresta da veneziana no quarto, mas só viu neblina. E depois, mais berreiros desesperados.
No outro dia, os marujos levantaram cedo e antes de embarcar, se depararam com algo se movendo na praia ≈ um restolho de corpo, pedaço de ser humano retalhado. No lugar da cabeça, havia uma mão, seios no tronco com tatuagens de caveira e as extremidades cortadas em pequenos tocos. A escória movimentava-se na areia, feito uma serpente, arrastando-se lentamente. O corpo parecia ter sido também queimado ou entregue a algum tipo de ritual. A pele, vermelha como lava. Dharr Dhul transpassou a carne da cria com sua lança, fazendo o sangue jorrar.
Então finalmente, Anan se revelou para eles. Aquele pedaço de carne humana modificada era uma amostra do que acontecia por trás do véu de nuvens, do outro lado da cortina que protegia os bruxos. Alguns acreditam, inclusive, que a bruma é criação dos magos e que além dos rituais, a cidade abriga também alguns dos mais cruéis assassinos do Oriente. Dizem, inclusive, que no meio das brumas das ruas tortuosas de Anan, é capaz de se encontrar com parentes mortos, almas perdidas. Quem sabe até se deparar com algum deles, no salão de café de uma pousada.
Contudo, ironicamente, foi em Anan que o grupo de Zaide dormiu o sono dos justos. Descansaram as vinte noites mal dormidas. E Zaide sonhou pela primeira vez com sua amada, Kamilah, depois de vinte e um dias longe. O sonho foi tão real que ele acordou com a sensação exata do seu perfume de jasmim, pode tocar suas mãos macias e lembrou da maciez dos seus lábios.

Júlio Vieira
Publica suas criações no blog: juliovieira.blogspot.com

Yusef Al Ayub Hudhayfah 
Nasceu em Teerã, em 1977 e hoje vive em São Paulo, Brasil. Começou a escrever aos 18 anos e publicou em 2008 seu primeiro livro de contos, “Almas” pela editora “Mizmar”.

15 de ago de 2012

Vitorino

Fotografias: Marco Novack
Conto: Paulo Biscaia Filho
Estrelando: Luiz Bertazzo
Maquiagem: Andréa Tristão
  • Figurino: Day Bernardini
  • Apoio: Trio Iluminação & Cia Senhas




… o pequeno se esforçando para chegar ao oito. Vitorino está só. Olha para o teto buscando ver horizonte, mas não existem curvas no mundo quando você…

Vitorino busca a lembrança de Anastácia. A bela Anastácia - a verdadeira - cuja pele de porcelana... 

Os laços de cetim no cabelo cacheado não eram tão perfeitos como as rosadas bochechas de seu rosto. Quantas vezes Vitorino olhou por baixo daquele vestido de renda e procurou alguma coisa ali? Sua cabeça afundava em meio a suas pernas e ele a provocava, mas ela mantinha sua expressão congelada. 

Nenhuma careta? Mesmo? 

Apenas um sorriso protocolar de quem deseja ser simpática. Mais nada. Não ofegava. Não deixava nenhum lábio mordiscado. Nem mesmo seus olhos fechava. Não gritava. Anastácia certamente não o amava. Vitorino se deita novamente e com a ponta de seus dedos...



... que foi o momento onde as lembranças de Vitorino deixaram de circular pelos olhos que ele não sentia mais ter. Percebeu suas roupas amassadas e tentou ajeitá-las, mas, no meio de um movimento para tentar alisar um engruvinhado, interrompe. Ele apreciava as rugas de sua roupa. Em seu rosto não havia nenhuma, mas havia na roupa. O peso de tudo o que fez não estavam em sua face, apenas nas rugas da roupa. Dedicou-se a contemplar toda sua história em cada dobra jamais removida. Lembrou de suas aventuras em minha infância. Quando ele não pensava em Anastácia, mas apenas em escalar um Everest imaginário feito de pilhas de livros que minha mãe deixou espalhados anos antes de sua temporada no hospital onde...

A outra Anastácia trazia o jantar sem tempero e insatisfatório que é típico desses lugares. Ela sempre vinha as sete e meia. Eu sabia disso pois via os ponteiros no relógio ao lado da porta. Me presenteava com uma xícara de chá por que era "bonito um filho que não sai de perto da mãe". A outra Anastácia era uma mera empregadinha que merece... Não, não, ela era... 

... pelos corredores tentando não pensar. Como ele conseguia pensar? Ele era apenas...
... um tapa bem dado em seu rosto. "Meu deus, ela está morta e você quer brincar de que?" 
... não era para...
... "embora daqui e enterre sua mãe como ela merece". Perguntei murmurando pra mim mesmo se ela realmente merecia algo. "O que? Fale direito!!". Ela sabia como gritar. Eu gosto de uma mulher que sabe exatamente como ... 

Vitorino continuava olhando para o teto. A campainha bate. Me arrependi depois de ter caminhado lentamente até a porta. Se soubesse antes que era ela, teria voado. Certamente veio pedir desculpas. Santa campainha! Ela estava aqui em casa! A outra. A de carne. Que ideia! Poderíamos subir o Everest juntos! Ela certamente adoraria iss... 

Boneco? Que Boneco? 
"Esse que está aí na sua mão." 
Nada ele só é uma coisa que eu tenho e ... Entre. 
..."É que você tá?" ... Bem ... "... não deveria ter dado um tapa na..." ... Tudo bem, eu acho que eu merec... "então eu vou ind..." quando ela se levanta, curva seu corpo para frente e eu consigo ver seus seios por baixo da blusa de alças e deixo escapar um gemi... Não!!! Fica mais um pouco. a gente pode tomar chá! ... Segurando pelo braço... ela grita, mas não com raiva. Pelo menos eu acho que não era com raiva. É bom o som. Sinto crescer meu ... No chão! ... "Pára!" ... Eu não... Mão esquerda na garganta e a direita... Entra... Grita mais ... Se debate... Ofega... Seu rosto é um moto-contínuo de caretas de horror e dor e pânico e ... Acho engraçado e continuo... ela sente algo .... Isso é bom, não é? Ter alguém que faça te sentir alguma coisa? .... e eu também sinto ... Quando o meu corpo treme e minha mão esquerda sente um estalo... Ela não faz mais caretas. Só uma. É sem graça. Não tem nada. Nada. Nem mesmo o sorriso protocolar.

 




ESTÁ NA HORA DO CHÁ, VITORINOOO!!!!

Vitorino e Anastácia - a verdadeira - estão à mesa. Comportadinhos e bem arrumados como deve ser. Ela está de roupas diferentes. Um lindo vestido de renda e fita no cabelo. Ele carrega o mesmo uniforme de tantas aventuras. A felicidade é tão grande que Vitorino resolve estender sua perna comprida por baixo da mesa e em meio ao vestido...

Ela não faz caretas. Ela certamente não ama Vitorino. 

... choro...

...cabeça cai na mesa...

 Vitorino estende sua mão. Ela é dura e com pedaços descascados e sem tinta que revelam a verdadeira cor de seu material. Estende sua mão sobre minha cabeça e me faz cafuné. 

... Não faço caretas, apenas olho para frente e vejo o relógio na parede com o ponteiro grande no seis e... 



 



Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Marco Novack
Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br

14 de ago de 2012

♥ Dead Teen ♥

Ilustração: Lena Muniz
Conto: Paco Steinberg



COMO MATAR E NÃO IR PRA CADEIA!
Meninaxx! A história de hoje é da leitora I.M.L., e a gente aqui da produção quis super dividir com vcs, pra todo mundo ficar ligada no que fazer naquela hora que vc tá mega nervosa com uma faca por perto.
I.M.L. levou um fora no mês passado, e ficou arrasadésima. Ela mandou uma carta suuuper cuti-cuti pra gente, e resolvemos compartilhar a história.
Depois do fora, I.M.L. chorou deveras, e o garoto simplesmente humilhou a nossa amiga na frente das colegas da facul. CRUEELLL. Ela mandou um recadinho no inbox do face dele, no dia seguinte, convidando pra um ménage no banheiro da universidade, pra ver se eles se entendiam. Rolou ménage sim, mas com a faca da I.M.L. Ela meteu tanto a faca nele que até machucou o pulso. BAFO!
**Gentem, FAIL. Matar em lugar público não é legal. Só mate em lugar público se for na rua, à noite, disfarçada. Ok? E o mais importante! Mate pessoas desconhecidas! A polícia nunca vai desconfiar de vc! =D
Chegando em casa, nossa miga se matou e ressuscitou com nosso Kit Zumbi Fashion. Depois, arrancou o coração com a faca, abriu pra tirar as lembranças de dentro e costurou o próprio peito com o cadarço do All Star!
Aiiinn, ela não é uma fofa?? Gentem, virar zumbi é tudo, tá na moda e atrai muitos gatinhos mais velhos...
A nossa amiga I.M.L se deu bem, sai na Zumbyboy desse mês e tá bombando!
Se liga agora nas nossas dicas pra vc ser uma zumbi e/ou assassina de sucesso como nossa miga poderosa:

♥ Pra virar zumbi, vc tem que ressuscitar! Então clica no link ao lado e adquira agora o seu Kit Zumbi Fashion da revista DEAD TEEN!  

♥ Vc não quer virar zumbi porque acha que a moda vai passar, mas tá afim de continuar metendo a faca? Arranca o coração do chato do seu irmão, que usa o seu note quando vc quer. Lembrem-se do nosso último bate-papo: Assassina EVER, suicida NEVER. Só lembra de fugir depois, tá?

 ♥ Gente, abrir o peito, só pra colocar silicone! A I.M.L exagerou. Se vc realmente estiver muito louca e quiser fazer o mesmo que a nossa miga, beba um litro de vodka antes que dói menos. Não peça pro seu pai, roube do barzinho da sua casa. 

Lição da semana finalizada, #fica a dica: Zumbi não vai pra cadeia! Então mata quem vc odeia sem culpa migaxxx! Beijos no coração. Se ainda tiver o seu =D

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

Lena Muniz
Publica suas criações e desenhos no blog: www.omodernario.blogspot.com.br

13 de ago de 2012

Algo a ser esquecido no cerne de uma caverna na Patagônia

Ilustrações: André Ducci
Conto: Fabiano Vianna

O meu amigo Ramon Garcia sempre foi metido a fazer esportes de aventura. O cara vivia me convidando, na época que estudávamos arquitetura, a acompanhá-lo em subidas aos picos do Anhangava, Marumbi, Salto dos Macacos... Mas eu nunca fui destes passeios. Sempre preferi o clausuro das bibliotecas e a segurança de uma vida pacata, caseira. Ele entendia isso e com o tempo desistiu de me chamar.
Ontem nos encontramos no Café Metrópolis, no centro. Ramon, como está numa onda de bicicletas, prendeu sua “fixa” no poste em frente. E eu já estava lá em minha mesa habitual, quase encostado no balcão do caixa – onde é possível assistir de um bom ângulo todo o movimento da cafeteria e da rua.
Contou-me da sua última viagem à Patagônia. Disse que o grupo era formado por cientistas e arqueólogos que estavam à procura de um antigo artefato místico, e aparentemente apócrifo, no alto das montanhas geladas.
Surpreendi-me em saber que além das aventuras habituais, Ramon estava escalando na neve também. E é claro, fiquei curioso para saber que objeto era esse.
Antes me falou das intempéries. Disse que o branco era tão branco que enegrecia a vista. E nenhuma roupa, por mais grossa que fosse, protegia do frio.
“Tinhámos que nos equilibrar em grandes blocos de gelo, escorregadios, e ainda por cima desviar da neve que desabava. Quando encostei o rosto rente à montanha, ouvi os estalos do gelo se despedaçando. Assustador, cara!”
Nesta hora eu pensei que a única montanha que eu enfrento é o Edifício Tijucas. Diariamente subo até o décimo andar para encarar minha gélida caverna escura. A escalada também é difícil, sobretudo nas segundas-feiras.
Quando perguntei a Ramon que objeto os arqueólogos procuravam, ele desconversou. Falou que só encontraram morte nas cavernas, um grupo de dez alpinistas sem vida, em um acampamento nas alturas.
“Os corpos estavam conservados, provavelmente por causa do frio. Deviam estar lá há mais ou menos cinco meses. Revistamos suas coisas e encontramos diários e anotações, escritos em uma língua que eu não consegui decifrar, mas um amigo me disse que era sérvio. Alguns papéis se encontravam rasurados, como se rasgados por unhas de bicho. Algumas páginas fugidias, manchadas, estavam grudadas no gelo. Trouxemos o que restou dos diários e hoje ele me mandou por e-mail uma parte muito assustadora, traduzida por um professor da Federal, que quero ler para você. Posso?”
“Claro.”
Por isso Ramon quis me encontrar. Ele sabe de meu interesse por histórias sombrias deste naipe, por causa da revista pulp que eu publico.
Mas apesar de já ter se aventurado a escrever alguns causos, ele não possui o foco necessário para a literatura. E entendo isso. Porque escrever é mesmo um calvário.
Pedi logo que ele lesse o trecho do e-mail.
“...os barulhos ameaçadores voltaram ontem à noite. Acho que uma criatura ou máquina caminha por dentro do gelo. Como isso é possível? Jovanov iluminou algo nos seguindo na neve. Estes estrondos são muito diferentes do trepidar das estalactites. Ivanovic está muito doente, acho que contraiu algum vírus. Eu sinto a presença de algo entre nós. De vez em quando tenho a sensação que alguém me sufoca, como se me impedisse de respirar...”


Esta região da Patagônia sempre me interessou. Sobretudo as lendas de artefatos escondidos nas catacumbas gélidas, como o Santo Graal e a Arca da Aliança de Salomão. Reza a lenda que Hitler em pessoa vagou por estas terras em busca dos poderes mágicos destas peças.
Pergunto a Ramon se o referido objeto que estavam procurando tinha algo a ver com isso. Mas ele me diz que ouviu apenas eles comentarem alguma coisa sobre um livro, mas que o título lhe é impronunciável.
Relata-me que a missão era encontrá-lo, mas depois pescou um comentário – saído da boca de um dos intérpretes brasileiros. O cara disse que o tomo estava de posse deles e deveria ser escondido dentro de uma câmara ou gruta no alto de uma das montanhas para ser esquecido.
“Possuía um título comprido, com quatro ou mais palavras, e uma ilustração de um demônio de braços abertos numa das páginas do meio. Faz ideia o que seja?”
“O único livro que me vêm em mente é o Codex Gigas.”- digo a ele.
Este livro, que em latim significa Livro Gigante, é considerado o maior manuscrito medieval existente no mundo. Foi criado no início do século XIII, provavelmente no mosteiro beneditino de Podlažice, na Boémia, e agora está preservado na Biblioteca Nacional da Suécia, em Estocolmo. É também conhecido como a Bíblia do Diabo, devido a uma grande figura do Satanás no seu interior e da lenda em torno da sua criação.
Segundo a história, o escriba foi um monge que quebrou os votos monásticos e foi condenado a ser murado vivo. Para evitar esta rígida pena, prometeu a criação, em uma única noite, de um livro que glorificaria o mosteiro para sempre e que incluiria todo o conhecimento humano em suas páginas.
Perto da meia-noite, quando teve a certeza que não conseguiria concluir o livro sozinho, fez uma oração. Não dirigida a Deus, mas à Lúcifer, pedindo-lhe que o ajudasse a terminar as últimas páginas em troca da sua alma.
Não seria impossível que os sérvios estivessem em posse do livro. Soube que os nazistas roubaram-no da Rússia durante a Segunda Guerra. Aí muitos alemães vieram para a América depois da derrota, e a maior concentração de nazistas foi parar justamente na Argentina. O tomo misteriosamente sumiu do lar dos Mengele logo após a morte prematura e inexplicável do último deles.
Lembrei também de outros livros macabros, como Livro de Urântia – que dizem ter sido escrito por seres supra-humanos das mais diversas ordens e Manuscrito Voynich, composto de caracteres indecifráveis.
Mas, talvez não seja nada disso afinal.  Porque o título que Ramon imagina ter ouvido era mais longo que Codex Gigas, Urântia ou Voynich. Os cientistas disseram que o volume era composto apenas de imagens e nenhuma palavra.
“O título começava com Tempat alguma coisa.
Cara, tem sido um tormento sonhar com esta expedição todas as noites. Os devaneios misturam-se com a realidade. Já não sei o que realmente ouvi ou inventei.
Escutei barulhos horríveis à noite, na caverna. Foi péssimo permanecer tão perto de tanta gente morta. Na escuridão da gruta, senti-me acompanhado, mesmo tendo a certeza que estava sozinho.
Outra coisa que me deixou desesperado é que os rostos dos mortos eram iguais, como se fossem gêmeos. E todos muito parecidos comigo.”
Ramon bebeu o café num gole só e se mandou. Eu ainda fiquei um tempo na mesa, terminando de comer uma empada do Caruso que chegara há pouco.
Ele se despediu rente à floreira, já montado na bike, e me disse que se tivesse mais notícias dos relatos me enviava por e-mail.
“Falou man!”
“Até!”
Fiquei cabreiríssimo com a história, e conjecturando, claro, escrevê-la. Mas talvez se trate de um relato a ser esquecido. Penso se todo livro não é feito para nos esquecermos dele, afinal.
No elevador tentei abstrair, imaginando outras coisas. Clientes, ilustrações, camisetas. E juro: senti que não estava sozinho na cabine. Tive falta de ar. Era como se algo tentasse me sufocar.  E então o elevador deu uma travada entre o sétimo e oitavo andar, mas graças a Deus voltou a funcionar. 

André Ducci
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://abducci.blogspot.com

 Fabiano Vianna
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 


11 de ago de 2012

Casablanca

Ilustração: Sueli Mendes
Conto: Thiago Tizzot


Amassou a propaganda com o telefone anotado em caneta azul com os dedos, jogou a diminuta bola de papel com raiva, odiava entrar naquelas espeluncas. O cheiro de cigarro e cerveja barata incomodava seu estômago, sentia o gosto do almoço subindo por sua garganta. Claro, o homem no balcão era um gordo, careca, com a barba por fazer e usava uma regata branca manchada pelo suor. Os pelos escuros do sovaco escapando pela banha que lutava com a malha da camiseta.
- Viu o tipo por ai?
Mostrou a foto para o gordo que não desviou por nenhum instante os olhos da TV. Assistia Casablanca. Bogart desfila de chapéu e casacão. Ele gostaria de ser um desses detetives de filmes, sempre bem vestidos, sempre cercados de belas mulheres. Mas ele era só um merda atrás de um marido que traia a mulher com putas baratas.
Olhou para as manchas amareladas na camisa do gordo, sentiu o gosto amargo do vômito na boca.
- Amigo, viu esse sujeito?
Mais uma vez o gordo o ignorou. Como queria ser Bogart, fazer as coisas com classe, com estilo. Mas ele era só um merda, nem de detetive podia ser chamado. Pegou um copo de cima do balcão e jogou na nuca flácida do gordo. O copo se estilhaçou, vidro e sangue se espalharam sobre a camiseta branca manchada. Finalmente o tipo se virou.
- Ah, agora reparou na minha presença.
Pulou por cima do balcão e agarrou o cara pela camiseta. Socava o sujeito sem piedade, os dedos sujos de sangue e doloridos. O gordo gritava e tentava se soltar, mas se ele tinha aprendido alguma coisa nesses anos de serviço era segurar alguém enquanto acabava com a raça do cara. Não tinha jeito de o gordo se livrar dele.
- Solta ele! – a menina usava só uma calcinha – solta ele!
Ao lado estava o filha da puta da foto. Calmamente retirou sua máquina e bateu uma foto do marido ao lado da putinha. Levantou-se, o gordo tentava respirar, lutando com o sangue que escorria de vários cortes em seu rosto.
Caminhou até a porta, ninguém se atreveu a impedi-lo. Antes e sair, olhou uma última vez para a TV, Bogart falava com o oficial francês e o filha da puta tinha estilo.

Sueli Mendes
Seus trabalhos podem ser visualizados no blog: 
bigandlittledreams.blogspot.com

Thiago Tizzot
Autor dos livros "O Segredo da Guerra" e "A Ira dos Dragões e outros contos", pai da Lili e Basilisco.

9 de ago de 2012

O canto

Ilustrações: Arthur d'Araujo
Conto: Alexandre França



Movimentando o esqueleto para acordar às 4 da matina, horário que, segundo o meu primo, ela já está “de pé” atendendo. Entro no banheiro gelado, tomo uma ducha rápida, visto o moleton de domingo e esqueço propositadamente o celular na cabeceira da cama. No elevador, ele me diz que talvez fosse melhor não olhar tanto para o rosto dela, ou melhor, não tentar olhar tanto para o rosto dela, tem esta coisa meio medusa, meio apocalíptica de quem não tem respeito pelas entidades, sabe, os imortais gregos, egípcios, sabe, parada cardíaca, praga, anátema, exorcísmo, coisas desta ordem dentro de uma sala escura que pinga e respinga o tempo todo, um cheiro de mofo que parece perfumar o ambiente como se mofo fosse perfurme, mas aquele era um verdadeiro perfume, anúncio do suor de Zeus repousando suas pernas num longo e divino escalda pé. Lá o dia inteiro é noite. Claro! Já vim aqui, reclamo ao meu primo, vinha direto neste lugar quando era adolescente, comer costela de madrugada e olhar umas primas balançando o rabo flácido para os velhinhos encardidos do centro. Entro no recinto e para minha decepção as garotas do lugar parecem ter a minha idade. Sentamos no fundão. Meu primo insiste em pedir uma cerveja - cê tá maluco, não posso/nem quero/nem tenho saúde para beber há estas horas. Temos que pedir, ele diz, para despistar os olheiros, não podemos dar bandeira, poucos sabem da existência dela. Quem se interessa por isto, pensei, só mesmo alunos de literatura viciados na Odisseia de Homero saem de suas casas na esperança de ver uma verdadeira sereia dando conselhos para cidadãos comuns como eu às cinco da madrugada no bar gato preto (ou pantera negra) no centro doloroso da cidade. Pedimos então a pior cerveja do mundo segundo a pesquisa que realizei com todos os conhecidos homens que passaram pela minha vida nos últimos vinte anos – Kaiser. A bebida chega, do jeito que aqueles tarados metidos a machões gostam – quentinha, quentinha. Meu primo toma avidamente. Ele chega a me deixar em dúvida – poderia mesmo estar gostando da pior cerveja do mundo fermentando pesadelos em seu estômago? Vamos pedir mais uma. Cê tá maluco! Poderiamos não sobreviver a mais uma ampola deste venêno, o que eu diria aos meus netos? Ah, ok,ok, eu não tenho filhos, nem mulher, nem mãe, nem pai, nem irmãos e nem muito menos netos. O garçom de um olho só vem até nós. Masca copiosamente um chicletes. – Quem gostaria de ver a dona Nêmesis? Meu primo logo interrompe qualquer resposta – nós dois, viemos especialmente para isto. – Não é polícia, é? – e se fosse? - Venham. - Quem é esta mulher? - A dona Nenê? Ah, é a dona do bar. Ela é a única que pode nos levar até ELA. Dona Nenê é uma mulher muito importante aqui no bairro, apesar de ser extramamente violenta. Manda cortar o pinto dos homens que não pagam a conta e roga pragas para aqueles os quais ela considera metidos – o que, convenhamos, possui uma boa dose de relatividade – portanto, reze para que ela vá com a sua cara. Seja humilde, nunca olhe diretamente para os seus olhos. Chegando no balcão, um senhor bigodudo parece não nos dar muita bola. Ele fecha contas, digita coisas no computador e coça a cabeça numa só ação precisa e ligeira. Parece gostar daquilo – faz tudo com a disposição de um moleque de quinze anos se masturbando no banheiro da escola. E este, quem é? O Frederico? Ah, ele aceitou faz muito tempo a condição trágica da existência. Na parede, ao lado do caixa, vejo escrito a seguinte frase: “Fiado, nunca: niilistas aqui não se criam”. Olá, Fred, diz meu primo. O homem não esboça a mínima reação, continua com suas tarefas orgásticas sem dar a mínima trela para o ambiente. FREDERICO, grita o meu primo. - Ah, sim, quer pagar a conta? - Você sabe que não, Fred – viemos aqui para uma consulta. - Vocês estão dispostos a ir até o fim nesta consulta? Vejo que estou tratando aqui com homens que não medem as consequências, certo? - Não queremos os seus conselhos filosóficos, Fred. - A Nenê não está nada legal hoje – teve que cortar algumas pirocas no decorrer da tarde. Ouçam apenas este conselho – quando forem falar com a Nenê, não a enrolem – vão direto ao assunto. É assim que os super-homens fazem. - Ai, meu Deus/ - Não fala em deus na minha frente. Você sabe como eu fico sentimental com este assunto. Frederico sugere soltar uma lágrima do olho direito, mas logo sorri sarcásticamente da nossa cara.  - E não se esqueça – mesmo que o mundo ideal pareça melhor, infinitamente melhor do que este, prefira o mundo real, ou seja, este mundo. Pois é só este mundo que nós temos! Meu primo agora começa a conversar com o garçon de um olho só. - Vou levá-los até a dona Nenê. Atravessamos todo o bar e subimos uma escadinha em forma de caracol nos fundos. Um cheiro de mofo se insinuava levemente no decorrer da subida. Um largo corredor, então, abria seus braços para nós. É a última porta lá do fundo. Este bar parecia menor, pensei. Como será possível uma estrutura tão grande aqui em cima, e lá em baixo uma tripa curta e fechada? Chegando lá, um escritório cafona decorado com motivos de zebrinha misturados com oncinha. Nenê fuma um charuto cubano e cospe copiosamente em uma escarradeira ao lado de seu trono barroco. Apesar dos maus modos daquela quarentona, um corpo delgado e moreno saltava por detrás da saia curta de vinil e do top estilo bad boy verde limão, já rasgando as laterais de tanto carregar aqueles peitões siliconados. Seus olhos eram inteiramente negros. Não havia nem um resquício de córnea alí. Dois pequenos buracos negros que se abriam e se fechavam lentamente. Meu primo parecia hipnotisado pelos olhos de Nêmesis, embora fizesse um esforço hercúleo para não olhá-los. Dona Nenê, me apressei em falar, queremos uma consulta com ela. - Quem vocês pensam que são para vir até o meu escritório e falar assim comigo deste jeito? - Desculpa, dona Ne/ - QUE HISTÓRIA É ESTA DE DONA? EU TENHO A IDADE DE VOCÊS, PORRA! - É verdade, temos a mesma idade, não é bacana isto? - Achamos que era mais respeitoso chamá-la de Dona. - E por acaso vocês estão tratando com a mamãe de vocês? Por que vocês querem uma consulta, vai um tequinho? Na mesa de mármore rosa, Nêmesis preparava umas vinte carreiras de cocaina. Eu vou, me apresso a dizer. Meu primo continua hipnotisado pelos olhos de dona Nenê. Nós viemos aqui apenas para saber se é verdade que ela existe, diz meu primo. - Então, você terá que fazer um favor para mim – tira a calça. - Mas/ - TIRA AGORA A PORRA DA CALÇA! Ele então desabotoa o cinto, enquanto Nêmesis abria aquele bocão cheio de dentes. Aliás, dentes afiados, todos eles – parecia mais a arcada de um tubarão. - Você vai ter que gozar, filhote, se não, nada feito. Meu primo tremia inteiro, um cheiro fétido de ovo podre tomava conta do lugar. - Você peidou, meu bem? Nêmesis sorria com aqueles dentes afiados. - Não, não. - Agora fica bem quietinho. Nhac! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Meu pau, meu pau, o que você fez, sua vadia desgraçada. Ela, calmamente, ainda com a boca cheia, mastigando, falava - Você é muito cuzão para se consultar com ela. Esta sua hipocrisia não me engana. Se faz de gostoso, mas no fundo é só um coitado querendo pagar de fodão para o primo mais novo. Saia da minha sala, antes que eu faça pior. Antes que eu enfie/ - Ok, ok, sua lazarenta, filha de uma égua, mas eu vou me vingar, você vai ver! - Hahahaha, de mim? Querido, eu inventei a vingança. Agora você, ela se virou para mim antes mesmo de eu acabar de cheirar a quinta carreira. Vejo que você gosta de uma farinha. - Nunca tinha usado, mas como esta é uma ocasião especial. - Todas as ocasiões são especiais, meu querido. Ela então estala os dedos. As carreiras desaparecem. Você não precisa disto, meu bem. Seus olhos adquirem uma cor mais para o avelã. Brilham, como se olhassem pela primeira vez para o ser amado. Beijo ela na boca, mais por impulso, do que por presunção. Ela retribui. Seus dentes não possuem mais a aparência monstruosa de antes. Ao abrir meus olhos, a sala havia se transformado radicalmente. Apenas móveis brancos bem alinhados e distribuídos pelo amplo espaço. A roupa de dona Nenê, uma camiseta Hering branca e uma calça jeans rosada. Você sim, deve ir ao encontro dela. Não entendo por que? Não pense, ela me diz, apenas vá ao encontro dela. MOIRA! Grita dona Nenê, já com o seu velho mal humor de sempre. Moira, acompanhe o rapaz até ela. Uma senhora, já com bastante idade, corcunda e com um olhar opaco de tão cego segura em meus braços. Ela diz – vou dizer o caminho, você só terá que nos guiar até lá. Que senhora agradável: sua testa enrugada, suas mãos trêmulas, seus andar paciente – até a temperatura de seus braços era agradável. - A dona Nenê é temperamental, né? - É, meu filho, a vingança é cega. Quando ela não vai com a cara de alguém, já viu. Se a pessoa vem aqui neste lugar mais de três vezes e não olha diretamente na cara da Nêmesis…daí o bicho pega. Ela considera que a pessoa está dando uma de metida, sabe como são estas neuroses de madame. Chegamos! Disse a simpática vovó. 


- Mas a senhora nem me indicou o caminho? 
- E olha só o tanto que a gente andou, ela diz. Atrás da porta, uma escuridão úmida. Do fundo da sala, uma voz rouca de fumante perfura as paredes descascadas.
- Por que você está aqui?
- Não sei responder esta pergunta. Queria apenas te conhecer.
- Quer olhar para o meu rosto ou prefere ouvir o meu canto? Você terá que escolher.
- Quero ouvir o seu canto.
- Então preste atenção, querido. Lembra daquela temporada que passamos juntos no interior de São Paulo?
- Lembro. É você? Você é a sereia?
- No meu quarto. Agora você pode entrar no meu quarto. Nós dois estamos de pijamas. Eu gosto do seu pijama, faço questão de elogiar o seu pijama. Você me convida para ir ao seu quarto, quer me mostrar uma coisa e eu vou, vou disposta a tudo que você imagina agora, neste momento, agora, lá, entramos devagar no seu quarto, é de tarde, uma tarde chuvosa cheirando a mato molhado e café da manhã, os seus pais não estão em casa, o ambiente cheira a silêncio e solidão, a chuva cai devagar alí pela janela, no seu quarto há uma janela que dá para o quintal, lá onde as flores florescem mais rápido, lá onde um pé de ipê amarelo nos abraça e colore as lágrimas do céu que caem pacientemente, você sentado na cama, você me diz baixinho no ouvido…o que mesmo?
- Que eu te amo. Eu digo que te amo e que quero te dar um beijo.
- Isto. Consegue sentir a minha língua ainda adolescente passeando pela sua boca? Pacientemente desenhando o desenho da chuva em sua boca, no contorno dos seus lábios, chupo devagar os seus lábios, são gostosos de chupar, tem um gosto de nescau quentinho, aquele que a nossa mãe nos faz todas as manhãs
- Não tenho mais mãe.
- Por isto seus lábios tem o gosto da sua mãe, o gosto do leite da sua mãe, beijo mais um pouco os seus lábios, é a primeira vez que beijo alguém na boca, a sua boca foi a primeira que encostou na minha, o seu peito foi o primeiro peito que toquei com as mãos, embora você tenha guiado as minhas mãos com as suas. Não há ninguém na casa? Você conferiu? Gosto de saber da possiblidade de que alguém pode entrar por aquela porta a qualquer momento, a chuva parece saber quem vai abrir a porta a qualquer momento
- Ninguém vai ver. Ninguém vai abrir aquela porta, eu juro.
- Vem mais perto. Vem sentir a textura da chuva junto comigo.
- A água está gelada.
- Mergulha mais fundo. Eu te esquento dentro da chuva que nos pertence, que nos faz de carne, que nos atravessa sempre quando passo minha língua pelo seu pescoço.
- Sempre fui apaixonado por você. Nunca consegui tirar você da cabeça.
- Então é aqui mesmo que você deve morar. Você deve ficar para sempre dentro desta chuva que nos amacia o espírito. Você se acalma quando eu te chamo de querido, você acha meigo quando falo querido perto do seu pescoço, quando eu pergunto, posso te chamar de querido? Sabe, parece que já estamos há muito tempo juntos, sabe, quando te chamo de querido parece que tenho um certo poder sobre o seu corpo, você me obedece e sente prazer ao me obedecer, querido, querido, querido, tire a calça enquanto eu vejo se não tem mais ninguém na casa
- Não tem ninguém, eu prometo.
- Então você não quer que eu me afaste, querido? Ficarei sempre perto de você, querido. Vou te ajudar a tirar a calça do pijama. Você está sem cueca? Quer que eu te beije aqui, querido, você é o meu querido, você sabe que eu faço isto por amor, por saber o que é melhor pra você e para o seu destino, sua trajetória, sua vida e sua morte.
- Não consigo respirar direito.
- Calma, querido, é só respirar fundo, respire fundo querido, vou colocar a minha boca aqui enquanto você olha para a chuva.
- A chuva é tão linda. Pena que não pode nos molhar.
- Posso fazer com a boca e com as mãos pra você, querido. Não é gostoso? A minha voz pode ficar soando dentro da sua cabeça, querido. Enquanto eu faço este movimento com a boca, com a língua e com as mãos, querido, pode a minha voz soar tranquila em sua cabeça?
- Não estou conseguindo respirar. Quero ir pra fora ver a chuva.
- Mas aqui dentro é muito melhor, querido. Eu trago a chuva pra você. Pronto. Consegue sentir a chuva?
- Consigo. Sei que não é a chuva. Mas consigo sentir a chuva em minhas mãos.
- Agora tudo ao mesmo tempo. Todos os movimentos e a dança que a chuva provoca em seu corpo. Você é tão lindo dançando. Agora me diga: você quer ou não quer ficar para sempre aqui dentro? Sim ou não, querido.
- Sim.





Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com

Arthur d'Araujo
Outros trabalhos em arthurdaraujo.com/


8 de ago de 2012

Mas o quê?!?


Ilustração: Isabele Linhares
Conto: Diego Fortes


-  Mas o quê?!? Acordo com uma épica dor de cabeça. Quanto tempo será que eu dormi?A porta do apartamento está aberta. Meu pescoço dói. Aos poucos, vou lembrando em flashes: Melinda... seus seios... Juraci Esmaga-Crânio... suas mãos de cacho de banana... a navalha... “Um Cão Andaluz”... Meus vizinhos passam pela entrada do meu apartamento e me olham caído no chão. Ignoram e seguem descendo as escadas. Ninguém quer saber de confusão. Se um dia me matam aqui dentro, só os cobradores irão descobrir. Mundo cão. Levanto titubiante e vou fechar a porta. Um pé usando um velho Kichute fica preso na soleira.

- Mas o quê?!? Puxo um bracinho magro para dentro e logo lhe dou um mata-leão. “Quem é você?” “Você está sozinho?” “Ainda existe Kichute?!?” O sujeito quer dizer alguma coisa, mas não consegue. Tenho medo de soltá-lo. Carrego o miserável pelo pescoço até a gaveta do armário, tiro uma pistola e logo aponto para ele. “Senta aí!” Ele obedece. “Vamos por partes: quem é você?” “Meu nome é Joaquim, mas todo mundo me chama de Fuinha.” Não me dei ao trabalho nem de perguntar por que, estava muito claro. “O que você quer comigo, Fuinha?” “Eu era um dos Esmaga-Crânios. Meu irmão era o Miguel Pacotinho.” Lembrei da história inteira: traficantes de pó e crack, traição interna, massacre no churrascão em Piraquara, mas uma coisa não fechava: “Como foi que você escapou do Juraci?” “Eu acho que ele perdeu a conta, sabe? Já me disseram que eu não tenho uma personalidade muito marcante. Na maior parte do tempo, as pessoas nem notam a minha presença. Então, eu acho que o Juraci esqueceu que eu existia. Ou talvez, nunca soube... A questão é que eu vi ele estraçalhando a cabeça de todo mundo e fugi.” O rapaz estava tremendo. “Eu tenho seguido ele e sei onde ele mora.”

-  Perfeito! Temos um plano! Esta trama estava ficando cada vez mais complexa, mas tudo o que eu deveria fazer era encontrar o tal do Juraci Esmaga-Crânio, fazer ele me levar até o Q.G. da G.L.A.C. e talvez até encontrar Melinda. Melinda... como ela pôde fazer isso comigo? Me deixar para ser morto por um brutamontes daquele? Na verdade, tudo isso é culpa minha. Não soube tratá-la direito. Sempre fui um egoísta filho da puta... Será que se eu a perdoasse, ela me perdoaria também? Haveria um final feliz para pessoas como nós? Será que...

-  “Senhor? Senhor?” O Fuinha tinha razão, sua presença não era muito marcante mesmo. Imergi em pensamentos e esqueci que o cara estava ali na minha frente. “Podemos ir no seu carro?” “Não tenho carro.”, respondi. “Diga mais ou menos pra que lado a gente vai que eu verifico qual a linha de ônibus.” Porra, Tarumã?!? Fazer o quê? Bom, tomar um banho, o alimentador só passava dali a meia hora. Fiz a barba, troquei de roupa. Se eu vou atrás de um assassino enorme, pelo menos vou bem vestido. Nunca se sabe o que pode acontecer! Cada segundo pode ser o último! Minha vida é assim, como um... “Senhor?” O Fuinha, de novo, me interrompe os devaneios. Como é fácil esquecer dele!

-  Olá! O senhor é o Sr. Strike?”, ela disse com aqueles lindos lábios. “Pode me chamar de Lucky”, disse eu sorrindo para o lado. Ela era tudo o que me prometiam os contos de detetive. Uma mulher jovem, cabelos de propaganda de xampu, perfume intoxicante, pernas de amazona, busto exemplar. Pensei que se eu não fosse detetive particular, uma mulher daquelas dificilmente estaria falando comigo. Esta profissão enfim se pagava. “Em que posso ajudá-la?” “É meu namorado...” “Está desaparecido? Já pediram resgate? Ainda tem esperança de ele estar vivo?” “Não... Não é isso. O caso é outro. Eu desconfio que ele esteja me traindo.” Nós homens somos demais mesmo!, pensei. O sujeito com uma mulher dessas e pulando a cerca! Bom, a gente nunca sabe. Esta talvez fosse uma chance para conhecer uma mulher ainda mais atraente. Pensei isso, mas desconfiei que uma mulher mais linda do que esta seria impossível...

-  Uia!!! Não é que eu tinha razão?!? O namorado de Amanda (Amanda... que nominho lindo...) era um desses pitboys que vivem em academia. Tinha lá seus hábitos regulares: corria de manhã no Barigüi (sempre sem camisa, não importasse o frio), almoçava numa dessas lanchonetes naturebas, batia o ponto na empresa do pai e logo ia para a academia onde ficava até o anoitecer. Se naquela noite ele não encontrasse Amanda, ele iria beber com os amigos na Vicente Machado, subiria no seu carro importado e iria conferir suas amigas da Rua Saldanha Marinho. Não as prostitutas, mas as travecas. Inacreditável! O rapaz com uma mulher daquelas... Bom, gosto não se discute! Cada um com o seu e que seja feliz da maneira que conseguir. De qualquer forma, eu tinha que prestar contas com a minha cliente.

- “Quer um lenço?” Achei que sua reação seria de desamparo - ser enganada pelo namorado com inúmeras travecas de rua! Mas não. Sua reação foi da mais completa e total neutralidade. “Tá tudo bem?”, eu perguntei. “Tá”, ela disse, “eu só tava curiosa, ele não era exatamente o amor da minha vida, sabe? Eu acho que me atraí por ele por achar que meu pai não iria gostar dele. Eu sou um desses clichês ambulantes da menina com problemas com o pai”, disse ela me puxando pela gravata. Nos vimos por mais de três meses. Ela me ligava de repente e eu ia encontrá-la. Ou então, ela aparecia lá em casa sem avisar. Eu nunca podia contatá-la, era sempre ela. Mas como valia a pena! De uma hora para outra, ela sumiu. Até então, eu achava que ela havia feito as pazes com o pai.

-  Ali!”, sinalizou o Fuinha, apertando o botão para o ônibus parar. Descemos perto do Parque Stravinski. O parque era um esconderijo ideal: afastado do Centro da cidade, longe de qualquer delegacia e a movimentação de gente era constante. Era um misto de parque de diversões com circo. Tinha a roda gigante, a montanha russa, mas também tinha a jaula dos leões, uma grande tenda e pessoas que passavam fantasiadas. Chegamos perto de um trem fantasma. O Fuinha apontou para lá. “Você tá louco? Você tá dizendo que o Juraci mora dentro do Trem Fantasma?” “O trenzinho só ocupa metade do barracão, tem um fundo falso que você chega entrando num caixão no meio do passeio.” “Você já entrou lá?” “Não. Eu tenho medo. Eu segui ele até aqui. Foi por isso que eu fui atrás de você. Vai na frente!” “Eu?!?” “É, você que tá armado.”

-  Aaaaaahhhh!!! Os adolescentes na nossa frente gritavam. Os meninos levavam as meninas na esperança de elas pularem no colo deles. Para que no meio de todos os sustos e terrores, eles sutilmente conseguissem apalpar alguma coisa. O truque mais antigo do manual. Chegamos no tal caixão. “Vai você na frente!” Pulei do carrinho. Os adolescentes atrás de nós nem se deram conta da movimentação. Forcei a entrada de um tenebroso caixão de plástico - o lugar dava medo mesmo. Ao entrar na câmara secreta, vi o gigante de frente para um espelho circundado por foquinhos de luz, tal qual um camarim. Ele se virou assustado. Sua cara estava mais feia do que os monstros mecânicos ou os atores fantasiados do parque. Alguém havia prestado socorro a ele costurando seu olho direito, pálpebra com pálpebra! Logo se levantou e veio em minha direção. Eu saquei a pistola e apontei para a sua testa. “Alto lá, se não quiser perder o outro olho!” Ele grunhiu com raiva. Fuinha apareceu detrás de mim: “Isso é pelo meu irmão!” e chutou com seu Kichute a canela do ciclope furioso. “Não, Fuinha! Pare!” Fuinha agora esmurrava o tronco de Juraci e ele nem se movia.

-  “Pare, Fuinha, já disse!” Neste momento, o Esmaga-Crânio esbofeteou a cara do pivete que voou na minha direção me fazendo derrubar a pistola. Veio atrás dele, agarrou-o pela blusa e, como num golpe de Luta Livre, o atirou na minha direção. Caí de barriga no chão, tentando encontrar a minha pistola no meio daquele chão de grama e serragem. Que estrago aquilo fazia para a minha roupa! Arrá, minha pistola! Aos alcance dos dedos... Ah, minha mão! Uma botinha Louis XVI me castigava os dedos. Olho para cima e...

-  Mas o quê?!? Amanda?!?” “Lucky?!?” “O que você está fazendo aqui?” “Eu trabalho aqui não está vendo?”, disse ela trajando uma fantasia de vampira francesa do Séc. XVIII. “Não! Não pode ser! Você é rica, é jovem, é herdeira!” “Meu pai me expulsou de casa porque eu não quero tirar o bebê.” “Bebê?!? Você tá grávida?” - fiz as contas rapidamente na minha cabeça pra não ter que perguntar se o filho era meu. “Sim, grávida de quatro meses.” “E quem é o pai?” Um chute bem dado na boca do meu estômago quase me faz perder a consciência. O sujeito era mesmo muito forte. Abro o olho e vejo a sola do seu coturno na direção da minha cara - ele iria fazer jus ao seu apelido. “Não!!!”, gritou Amanda. Ele parou a uns 5cm do meu nariz. “Eu não quero que o nosso filho presencie violência.” “Nosso filho?!? Você está grávida do Juraci Esmaga-Crânio?” “O Juraci e eu estamos tentando construir uma família. Foi com a ajuda dele que eu parei com as drogas. Ele é uma pessoa maravilhosa que também está tentando fugir dos preconceitos da sociedade.” “Esse homem é um criminoso! Ele tentou me matar!” Era a minha vez de voar um pouquinho: ele me agarrou pelo terno e me jogou em direção ao espelho. Crasshhhh!

-  “Juraci, se acalma!”, apela Amanda. Não sei com que espírito, eu continuei falando: “esse seu pai é um idiota! Mas não é por isso que você tem que acabar com a sua vida! O que nós dois tínhamos era especial...” Juraci olha, severamente, com seu único olho para Amanda. Olha para mim novamente e me faz atravessar as paredes de MDF do Trem Fantasma. Craaack!!! Caio no colo de um casal de adolescentes e o trenzinho segue seu curso fazendo a curva numa teia-de-aranha de algodão. Escuto seus passos em meio aos gritos  juvenis dos passageiros do horripilante trem. Arranco uma cruz de madeira de uma cova falsa e espero. Assim que ouço seu grunhido, acerto-lhe em cheio no meio da cara! Pooowww!!! Não dá certo... Ele só fica mais bravo. Eu corro procurando uma saída. Putaquepariu! Ele vem atrás de mim empurrando adolescentes pelo caminho. Uma luz! A saída! Corro para um terreno baldio alagado atrás do parque arruinando meus sapatos e minhas meias.

- Táxi! Não tenho dinheiro para chegar em casa, mas uma corridinha que me leve para longe daquele monstrengo já é uma grande ajuda. Então, Amanda havia levado a história de incomodar o pai sério demais. Engravidar do próprio traficante! Que horror! Estaria ela metida no esquema de chantagens da Gangue dos Lixeiros? Será possível salvar essa menina? E Melinda, onde terá se metido? Será que é seguro eu voltar para casa? Passarei lá apenas para pegar o meu dinheiro de emergências e me esconder em algum hotelzinho barato. Ah, eu realmente preciso de um drinque hoje! Estranho... Não consigo deixar de ter a sensação de que estou esquecendo de alguma coisa...

Isabele Linhares
Seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com

Diego Fortes
É ator, escritor, tradutor e diretor. Nasceu em 1982. Bacharel em Comunicação Social, tem passagens pela Escola Técnica de Formação de Atores da Universidade Federal do Paraná, pelo Ateliê de Criação Teatral e entre diversos outros. Fundou A Armadilha - cia. de teatro em 2001, companhia pela qual montou os espetáculos Marias (2004), Café Andaluz (2005), Os Leões (2006), Bolacha Maria - um punhado de neve que restou da tempestade (2008) e Jornal da Guerra Contra os Taedos (2009). Em 2010, escreveu e dirigiu - com a colaboração da artista mineira Grace Passô - a peça Os Invisíveis, pela qual recebeu a segunda indicação à Melhor Direção do Troféu Gralha Azul. Mantém contato colaborativo com autores de outros países latinos.