26 de out de 2012

Tentáculos

Conto: Otavio Linhares
Ilustração: Sueli Mendes


logo ao acordar notei tentáculos em meus braços. tatuagens, pensei. fui tatuado enquanto dormia. empurrei-a com o cotovelo. viu isso amor? são lindos, disse e voltou a dormir. levantei e fui tomar um banho. estavam por toda parte. nasciam das costas, do lado esquerdo. de uma bola de fogo. e eram roxos. sem ventosas. nas pernas eles eram mais finos e balançavam. dentro do olho cortavam a pupila ao meio e eram pretos. bem finos. as pálpebras abriam e fechavam. ora pra cima e pra baixo, ora pros lados. e os cabelos haviam sumido. interessante, minhas gengivas estão negras e os dentes amarelados. toquei as cavidades ao lado da cabeça. e elas tem a profundidade de um dedo. há mais duas dessas na região da pélvis. alguns tentáculos maiores nas costas. de vez em quando se descolam e tentam agarrar os objetos que estão por perto, principalmente os amarelos e vermelhos. eles os quebram e os largam no chão e logo procuram por algo novo em que tocar. porque estão me arrastando pra fora do banheiro? dois deles se lançam contra o corpo da minha namorada e a penetram na vagina e na boca com velocidade. me desequilibro e caio de costas sobre ela. todos atacam ao mesmo tempo. eles a absorvem em poucos segundos. sinto a energia dela atravessando para o meu corpo. fluindo em minhas veias. aos poucos os tentáculos vão sumindo de mim. um vazio toma conta do quarto. olho meu corpo e ele está limpo dos desenhos. agora tenho grandes seios e um quadril largo. lábios grossos e cabeleira ruiva. toco meus buracos. 

Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

Sueli Mendes
Seus trabalhos podem ser visualizados no blog: 
bigandlittledreams.blogspot.com

22 de out de 2012

Eu, o filho

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: Dea Lellis

Meu mundo era um salão sem janelas onde ficavam as camas, os armários, a TV e a cozinha. O sanitário, contíguo a esse ambiente, era ventilado por um exaustor embutido no forro. Eu nunca havia visto o céu, nem uma árvore, nem pisado na grama; nada disso. Distraía-me com os livros e DVDs trazidos esporadicamente por meu pai. Eu costumava questioná-lo insistentemente sobre o mundo exterior, contudo, sua resposta limitava-se a encerrar o assunto. Invariavelmente afirmava algo do gênero:

- Não se deixe levar pelo que você lê e assiste, são visões idealizadas, românticas.  Não há lugar para a inocência nesse mundo, não há lugar para fragilidades.

Nos lábios de meu pai a palavra fragilidade tinha a conotação da maior das virtudes. Todavia, eu já estava livre dos pontos e ataduras, não dependia mais de soro e minha coordenação motora evoluíra satisfatoriamente. Os argumentos de meu pai sucumbiam à minha inquietação e, por mais que eu sinalizasse aceitar suas idéias, secretamente ansiava por escapar daquele recinto.  Os obstáculos consistiam em duas portas, separadas por um corredor escuro.  Ambas permaneciam trancadas o tempo todo, mesmo com meu pai em casa. Finalmente, em um filme de aventura, descobri um modo simples e efetivo de fugir: remover o pino das dobradiças. Aguardei que meu pai saísse para trabalhar. O primeiro contato com a luz foi doloroso, protegi meu rosto com as mãos até as pupilas se adaptarem.  Observei minha casa pelo lado de fora e percebi que outrora ela possuía janelas, haviam sido vedadas apenas por dentro. Um longo caminho de pedriscos conduzia até um portão de madeira, mas antes de alcançá-lo, fui atraído pelo gramado em frente a casa. Enquanto meus pés descalços acariciavam o verde, dezenas de ninfas saltitavam; uma onda de minúsculos insetos. Essa distração que me fez ignorar a aproximação sorrateira de um cão. Esquivei-me por sorte da primeira investida do animal e tentei escapar correndo para a grade coberta de hera. Escalei uma mureta próxima ao portão, mas o cachorro alcançou-me e mordeu meu calcanhar com toda sua voracidade.  Desesperado, arremessei-me por cima da cerca e caí na calçada de pedra. Meu corpo foi perfurado pelas lanças do gradil, meu pijama estava em trapos, meu corpo coberto de sangue.

A rua estava deserta, dei alguns passos e recostei-me em uma árvore em busca de alento. Ali, no gramado entre o gradil de minha casa e o meio-fio da rua, eu adormeci.  Despertei com uma dor aguda em minha fronte e as gargalhadas sádicas das crianças que atiravam pedras em mim, meia dúzia de meninos. Aparentavam pouca idade, dez anos no máximo. Tentei erguer-me do solo, mas recebi uma violenta saraivada de pedras que minou minhas forças. Encolhido e com as mãos sobre a cabeça, recebi chutes, pauladas, pisões em minhas costas.  Um garoto aproximou-se erguendo um paralelepípedo o mais alto que podia – minha última lembrança daquela tarde.

Meu pai diz que foi sorte ele ter chegado enquanto eu ainda respirava. Os agressores não estavam mais ali, apenas meu corpo destruído. Ele disse que me fará dormir profundamente. Pode demorar a conseguir novas partes, por isso precisarei dos aparelhos para sobreviver. Ele lamenta que eu não o tenha escutado, muito provavelmente herdarei sequelas de minha transgressão.  Minha aparência deve piorar e pode ser necessário que eu mude de sexo. Não o questiono, nem me revolto. Ele é um bom pai e um bom médico. Ele me ama, ele me fez, ele sabe o que é melhor.

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

Dea Lellis
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/metalpreto 

18 de out de 2012

Salgado

Conto: Paco Steinberg
Ilustração: Zansky



-Nome?
-Plínio Salgado.
-Idade?
-47.
-Não sei se deu pra entender, mas o senhor está sendo processado por falsidade ideológica. É bom começar a falar a verdade, senão as coisas vão piorar pro seu lado!
- Mas será o benedito! Vá lá, como queira.
- Escrivão! Apaga tudo. Do início: Nome?
- Plínio Salgado.
- Idade?
- 586 anos.

Antes de eu responder essa última pergunta, você leitor deve imaginar a preguiça que eu tive de matar aquele guarda, e deve imaginar também que não era a primeira vez que eu ia preso pela Polícia Federal por causa daquela maldita carteira de identidade falsa.

Todo mundo acha bonito quando aparece no cinema essa coisa do vampiro ser eterno e que a gente vive em danação e isso e aquilo. Danação é ter que ir até a Vicente Machado pedir pra um vampirinho mequetrefe fazer meu RG no computador toda vez que alguém me pega. Pra plastificar vamos eu mais ele até o Terminal do Guadalupe, lá ninguém acha nada errado.

Já esse guardinha, vejam só. A lei, estamos cumprindo a lei, ele ficava repetindo enquanto eu entrava no camburão; eu avisei que não ia prestar. Paspalho. Imagine, eu, que jogava bocha com o Vladinho usando cabeça de otomano, agora enfiado naquela carroça malfeita, fingindo ter medo da arminha dele. Esse negócio da arma, depois me lembre de te contar, é triste ver um homem se achar macho atirando à distância.

Voltando à delegacia, onde eu estava? Ah, sim, o guardinha. Virei-lhe um safanão na orelha que o infeliz vai levar pra outra vida. Já o escrivão me deu um trabalho danado de matar, eu odeio gente que se esconde embaixo da mesa. Sorte que eu não tenho artrite. Fugir da delegacia também foi chato. Virar pombo é complicado, a gente sempre entala nas janelas, mas nada que uma boa cuspidela pelo rabo não me esvazie a barriga e me faça passar pelas grades. Ah, claro. Por que eu não virei morcego? Mas que pergunta. Morcego na capital? A gente perde a originalidade por conta da civilização. Uma vez o IBAMA me pegou e eu fiquei uns 06 meses dividindo quarto com papagaios e tucanos no CRAS, lá no Mato Grosso do Sul, e os matutos tentando me devolver pra mata num programa de readaptação. Caralho.

Lógico que eu podia ter voltado antes, só não o fiz por conta de umas meninas que moravam por lá. Essas sim, minha danação. Com um pequeno detalhe que - não me julgue escatológico, caro leitor - faz meus companheiros vampiros mais afrescalhados, digo, de gosto mais refinado, torcerem a cara numa reprovação nauseante.

Lembro como se fosse agora, a primeira de todas. Chamá-la de moça é uma extrema bondade da minha parte, mas convenhamos que idade não é meu forte também. Vestia uma roupinha duvidosa, como toda boa puta sabe vestir, toda apertada, vazando as feminilidades pelos decotes. Pedi a ela que fosse sozinha para o quarto, ela estranhou. É que entrar pela janela na cidade não dá mais. É câmera, é alarme, cidade é um saco. E aqui no mato dá pra gente se soltar, fazer as coisas do jeito original. Mas enfim. Ela lá, deitada de bruços, toda serelepe, com as pernocas abertas pensando que eu vinha pela porta. Fiquei ali olhando a dona da janela, achando graça de sua sem-vergonhice um pouco ultrapassada, até que a safada virou o rostinho na minha direção e me chamou numa rebolada, que com o movimento das ancas escancaradas fez cair um pingo descuidado de seu primeiro licor mensal. Pensa que ela avermelhou, leitor? Qual nada! Aí é que se assanhou de vez...Que marota.

Foi aí que começou esse meu fetiche. De gostar de menstruação. Eu sou tarado por menstruação. Aquela dos primeiros dias então, em que os coágulos se amontoam e fazem uma dança na calcinha das meninas mais apressadas fazendo manchar a roupa, é uma perdição. O meu negócio é esse. Só chupar, ao invés de morder. O sangue é bem menos que uma jugular, é verdade, mas não há prazer que pague. Pra morder você assusta a pessoa, é aquela gritaria, luta, e o IML fica lá com aquela cara de paisagem pra diagnosticar a causa mortis. Chupando eu me sinto mais novo, conquisto as moçoilas, dou prazer e ainda mato a fome. Cada refeição, uma diversão. Às vezes a festa é tanta que deixo-as gozadas na cama, finjo ir ao banheiro e sumo pelas janelinhas, com a boca ainda suja de sangue. Não são todas que deixam, mulher é complicada, faz aquela cara de “não acredito” quando eu peço, mas prazer todo mundo quer e no fim das contas ninguém recusa quando a pedida é bem feita.

Há muito tempo montei um açougue ali no Juvevê pra ninguém ficar mais perguntando das marcas de sangue na roupa e até na minha cara. Se bem que o sangue desse povo da capital é muito fino e aguado. Essa gente mais loirinha então cruz credo, é morder num dia, no outro eu suo fedido como um bêbado do Passeio Público.

E assim vai indo, né. Eu e os outros vampiros (estava achando que só tinha o da Ubaldino, é?) ficamos ali na Boca Maldita, engraxando o sapato e contando mentiras um pro outro. É, leitor, durante o dia mesmo. Esse negócio de que a gente só sai à noite é coisa da cabeça do Stoker! Eu, por exemplo, nunca tive castelo nem durmo em caixão, já pensou, e a minha claustrofobia como é que fica? Que mania de misturar ficção com realidade que esse povo tem... Falando nisso, dia desses fomos comer um pão de alho ali no Lucca Café só pra tirar um sarro, e na mesa ao lado uma mocinha folheava um livro sobre vampiros, as outras coleguinhas de colégio todas interessadas, só porque fizeram um filminho mequetrefe do assunto. Uma delas, toda séria, chamou a atenção da que lia, perguntando por que ela perdia tanto tempo acreditando numa besteira dessas de vampiro. A garota ficou ofendida, enfiou o livro na bolsa e foi embora. No seu movimento juvenil atordoado, deixou cair um absorvente no chão.

Eu, que não sou bobo, paguei o meu café e fui atrás dela.

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

Zansky
Outros trabalhos: www.zansky.com.br

12 de out de 2012

Uma Sátira

Conto: Cilene Tanaka
Arte: Danilo Oliveira





Ela esta lá sentadinha no biarticulado. Entra um rapaz pela porta 1, ela o olha e vê seus cabelos raspados, suas mãos sem anéis, calça suja de moletom surrado. Entra, ao mesmo tempo, um rapaz pela porta 2. Ela o olha caminhando meio rapper até a porta 3... porta 4...sentando-se: touca preta, sem anéis, calça jeans surrada.Vê alguma relação entre eles, mas inconsciente disto,  relaciona-os apenas ao restante da população pobre que anda de ônibus.
Um charme típico do menino mau. O de verdade que ataca para se defender. Ela é assim também, daí a identificação. Mas ela é mulher e nela as coisas se apresentam de maneira diferente: vestimenta, ironia, silêncio, e outras armas psicológicas da classe média.
Atrai-se pelo estereótipo tanto quanto todo o ibope da Cidade de Deus. Acha esta atração tão repreensível quanto engraçada pela mesma razão que nos faz rir das legendas em francês do filme brasileiro.
É como se a França tentasse traduzir nossa malandragem, o que temos de melhor. Nosso único trunfo sobre o biquinho e a poesia franceses. É como se toda a educada burguesia francesa do XIX não superasse o apelo sexual da pele morena brasileira. Como se sexo superasse toda a história da literatura e do teatro e das ciências e da filosofia e...e se apresentasse naquela fala que é sempre tão informal quanto sábia (Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra). Há muita sapiência na simplicidade, sabia? A relação entre nome e identidade é problema da psicologia, psicanálise, sociologia, literatura, filosofia e etc. desde o XVIII, sabia?
Não pensa isto tudo, só reage com olhares esquivos misto  de temor e atração. Olha até um ponto em que percebe que o olhado percebe estar sendo olhado. Até o ponto em que percebe que aquele ser humano é humano e, como ela, vê. Lembra do positivismo? Ela não. A partir daí já não é mais seguro observar, o observador interfere na ação do objeto e altera seu curso.
O primeiro rapaz para na porta um. Em pé. Começa a falar com o cobrador e ela não consegue ouvir nada. Estranha que a conversa não acabe logo. E vagarosamente (calma...ainda não) vagarosamente, forma a convicção de que algo está errado.
Continuam conversando. Nenhum deles sorri, não são amigos. O rapaz aperta os botões do painel, o motorista não o impede. Eles não olham ao redor, não procuram ajuda. Não acaba logo, não é mero pedido de informação. Não se cumprimentam com aperto de mãos, não se conhecem.
Ocorre a ela que pode descer do ônibus. Mas ele me viu olhando, pode perceber que desci com medo e ficar ofendido se não for bandido. Para não ofender, guarda o iphone no bolso falso, devagar e sem olhar ao redor, como se nada acontecesse, para não ofendê. Pensa se tem algum dinheiro, resolve guardá os vinte pila dentro do tênis, na dúvida. Está chegando seu ponto, faltam dois tubos. E se descer? Vai ser muito ofensivo. E se mudá de lugar? Nem pensar. Perguntar se tá tudo bem seria idiota. Gritá pro ônibus fugir pode ser mentira. E ligar para a polícia só se fosse retardada.
Em contra-partida, se ficar e ele for bandido, respeitou o cara errado. Mas também não pensa isto claramente, só reage. Reage pelo respeito. Não por respeito à pessoa do malaco. Por medo de ser vista como desrespeitosa. Onde já se viu? Tão bonitinha e sentando de perna aberta? Tão bem-educada e falando assim?
“O decoro as vezes nos coloca em paradoxos”, diria o teatro do séc. XVIII. Brincadeira, ele os forja. Lembrou-se dos limites, e isto pensou, não só reagiu. Os limites das coisas e das crenças. A bosta (menina bonita também fala palavrão) da tolerância que impede (impede?) a verdadeira existência das várias culturas. Tudo pode estar certo então nunca posso estar certa. Ninguém nunca está errado porque não há verdade absoluta. É feio xingar, filha. Porque? Por que é muito bonito.
E se o outro rapaz estiver junto no assalto? Não, não, muito desrespeito.
Olha em volta, ninguém parece assustado. Guarda o dinheiro sob a meia, devagar, pra não ofender. E se o outro estiver junto? Não, ele é só malaco. Pensa no computador que não dá pra salvar. Pensa no que fará quando ele chegar perto. E se o outro estiver junto? Credo. E se ele for só um malaco? Se tentar estuprá-la, vai chutar o saco, sem ofensa, claro. E se o outro estiver junto? Não pode nem ser malaco em paz, tadinho. Vai pedir para por o pinto na boca e, nada pessoal mas... vai mo-orde-er a-até-é arrancar. Nem que ele a mate. E se o outro tivé junto? Claro que ele tá, olha lá ele com a mão no bolso. Estupro, perdoe-me pela exagerada alteridade, mas não. Algumas verdades existem.  Se ele não pará de olhá em volta é porque tá junto. Se insinuá desrespeito sexual ou ofensa a algum querido meu, desculpe-me, senhor, vou ter de reagir. Apesar de que ele já insinuou, tá insinuando. Tá. Então, se realizá, oficialmente, de fato, desrespeito sexual a mim ou ofensa a algum querido meu, sinto muito. Tá olhando com muita segurança pra todo o ônibus. Algumas verdades existem. Tolerância é uma verdade estúpida. Olha em volta, todo mundo parece assustado. Só impressão.
Mas realizá oficialmente implica o que? Tipo quando começá a tirá a  própria calça ou me acertá um murro? Não...algo mais forte. Tipo arrancá a calcinha e atirá? Não dá pra estipulá um limite, tem que vê na hora. Mas a hora é agora, vai fazê o que? Tolera e vê no que dá. Ainda não é hora. Eles ainda não fizeram nada. Claro que fizeram, tão assaltando o onibus! Mas nem sei se são os dois. E se o outro só for suspeito porque é moreno? E se for ofensa sexual contra um querido teu e não contra você? E se for alguém tipo uma amigona da faculdade com quem você não fala há anos? Daí acho que não faço nada. Acho que ia tentá atrair a atenção pra mim, vê se ele me tolera. Na verdade, si atraísse a atenção pra mim, podia me fudê, né? Tolerância não é pra todo mundo. Acho que ia, sei lá, ia tentá pegá o telefone e ligá pra polícia. Mais será que isso não é intolerante? Ia tentá falá pro cara não fazê aquilo. Não sei, ui. Que foda. A gente não sabe quem é querido né?
Puta merda! Minhas últimas fotos tão no notebook! Não tenho cópia! Filha da puta.
Tá nervosa, parou de olhar os dois. Eles se esqueceram dela. Olha pela janela. Olha, olha. Pensa, pensa.
Chegô meu tubo. “NINGUÉM DESCE!!!!!!” – ele gritou. Mas ela já está na porta com o pé dentro do tubo. Corre, corre, corre. Olha pra trás, não vê nada. Corre. Entra no no Estação olhando pra trás apavorada. Corre, corre. Não precisa mais correr. Caralho. Anda rápido. Vô tê que atravessa este shopping intêro agora. E se tiverem me seguido. Olha pra trás. Não tão. Nem faria sentido mesmo. Olha pra trás de novo. Iam deixá de assaltá o ônibus inteiro só por minha causa?
Olha pra trás. Para e olha. Puta merda. Caralho. Ligo pra quem? Faço o que?
Vai embora sem ser registrada nos o índices de violência urbana.  

Danilo Oliveira
30 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com.

Cilene Tanaka
Nasceu em Curitiba, cidade onde reside e tece sua colcha de contos, crônicas e críticas. Aluna do Núcleo de Dramaturgia do SESC e habitante da Casa Selvática. Gosta de mistérios, barbáries, laços, óculos de armação branca e versos heptassílabos. Flâneur citadina que perambula nas fronteiras da ficção e realidade. Costuma emprestar seus olhos, corações e mentes para circunspecções sobre o teatro em www.gazetadopovo.com.br/blog/teatrofagia.

10 de out de 2012

Gozo Besta

Conto: Milene Lopes Dias
Ilustração 1 (cima): Hafaell Pereira    
Ilustração 2 (baixo): Elis Marina B 


                      

     Você chega em casa e seu marido obeso está esparramado no sofá da sala, bebendo cerveja e assistindo bundas na tv. Você olha pra ele e sente náuseas. Nem dá pra acreditar que aquele cavalheiro por quem você se apaixonou tenha se transformado nesse homem nojento que arrota sem cerimônia enquanto te olha com esse maldito ar indiferente.
    Nem na cama ele não presta mais. Faz-se uma copulação onde você só sente prazer porque é muito sensível e sempre se entrega de corpo e alma. Você faz amor! Amor, amor! Você entra em comunhão com o Universo a cada gozo! Ele transa. Fantasia outras mulheres, se excita, enfia em você e goza. Um gozo besta, sem nenhuma intensidade. A seguir, se é noite, ronca. Se é dia, te beija a boca já sem entusiasmo, murmura um "eu te amo" fingindo sentimento - porque, ah!, só você sabe o quanto ele finge sentimentos! - e vai pro chuveiro já conversando sobre os problemas dos negócios. Você deita nua no tapete de seu quarto, ainda delirante por seus merecidos orgasmos. Enquanto o vê sair do banho para barbear-se, observa com crescente desprezo o modo como ele admira e se orgulha das próprias banhas. Você entra no banheiro, ele bate em sua bunda te chamando de alguma mulher da mídia e sorri daquele modo malicioso. "Tu é mesmo boa, mulher!".
     Você quer vomitar. Já é demais! Você é uma heroína, se desdobra entre filhos, trabalho, casa. Ah!, a casa! No início vocês eram jovens e ele gostava de ser admirado por aceitar e pôr em prática a ideia da divisão das tarefas domésticas. Tudo estava por escrito e vocês revezavam tarefas para não ficar cansativo demais para ambos. Mas depois, com a promoção no emprego dele você compreendeu que era muito esgotante que ele pusesse a roupa na máquina de lavar ou passasse aspirador de pó no tapete ao chegar do trabalho. Além disso vocês teriam uma empregada, já que ele ganharia mais.
    Mas na verdade nunca houve empregada, pois o seu dinheiro não deu e seu marido sempre inventando desculpas para não arranjarem uma.
    Então todo o serviço doméstico sobrou pra você. Seus filhos até poderiam ajudá-la um pouco, pois tem 10 e 13, mas seu marido argumenta que ele ainda é muito novo para certos serviços, quando na verdade você sabe que ele não quer ver o "homenzinho" da casa limpando privada. Em compensação dá-lhe revistas de bundas e peitos.
    Olhando pro espelho, pros próprios olhos. Ele se gaba tanto de seus olhos verdes: "Ah, que vontade de matá-lo. Como o desprezo."
Seu marido dorme. Você se deita ao seu lado e o abraça, como todas as noites. Desta vez não diz que o ama. Com cuidado para que ele não acorde, amarra suas mãos na cabeceira da cama. Prende seus pés nos pés da cama. Ele resmunga, diz algo ininteligível. Mas seu sono é profundo.Você senta em cima do homem. Sabe que seus filhos estão tranquilos a essa hora, em São Paulo, de férias.O alicate está em sua mão direita. Você está pronta!
     Por onde começar? Decepar seu pênis ou furar seus lindos olhos verdes? De que modo ele sofrerá? Você se delicia com a idéia de imagina-lo gritando de dor... Você imagina o sangue escorrendo, molhando toda a cama, ensopando lençóis, colchão, travesseiro...
    Nesse momento percebe seu pau ereto. E percebe o próprio clitóris molhado de tesão. Pensa que talvez um gozo final antes da prisão - 
pois você sabe que será presa após decepar seu pênis e furar seus olhos- seria uma vingança gostosa.
    Rasga rápido a calcinha, abaixa-lhe a cueca e senta fundo no desejado pau. Seu marido acorda e curte a situação, embora não entenda nada, pois você nunca foi sadomasoquista, pelo menos não com ele. Então o brocha goza. Você pira: "É agora! É esse o momento!" E quer executar seu plano.

-Ei, amor, não estamos em “Instinto Selvagem”, eu já gozei, acabou a brincadeira. Vamos, me desamarre! E abaixe esse alicatinho!

Você se sente ridícula. Não tem mais vinte anos, não é loira e odeia o tal filme. Droga, seu plano já era! Você deixa o alicate cair, sai de cima, veste sua camisola. Apática. Nenhuma lágrima, nenhuma expressão. O vagabundo sem entender bulhufas pede que o desamarre.Você sai do quarto. O marido chama para desamarrá-lo. Você sai. Você dá partida no carro. Ele fica berrando seu nome com ódio. Seus pés pesam sobre o acelerador. É madrugada. Há um carro de polícia na sua cola. Você pára o carro, tira a camisola. O guarda te olha espantadíssimo. Ameaça te prender por atentado ao pudor. "Isso ainda existe?", você pergunta sorrindo. "Existe". Mas você sabe o que ele quer. Você abre a porta. “Hum... como você é linda...” Você abre as pernas. Abre seu espírito para um coito desajeitado num carro de motor econômico.
      Depois o policial vai embora, dizendo pra dirigir com cuidado. Sem orgasmo e sem roupa, você volta pra casa. A essa altura o diabo gordo daria um jeito de chamar alguém para soltá-lo. Um vizinho, talvez. Não é tempo de perguntas. O fato é que o marido te olha sem saber o que pensar ou sentir, de pé, braços cruzados e boca aberta. Pela primeira vez em tanto tempo a sala estaria num silêncio oco: sem TV nem som, nem brigas por controle remoto. Você observa a cena, nua, cabelos embaraçados, cara de quem “transou e não gozou". Queria chorar. Mas você não pode. Sabe o quanto chorará depois, sozinha, trancada no banheiro.
- Eu quero o divórcio. Você disse. Você quem disse. O marido esboça uma articulação de palavra, mas a voz não sai.
Está muito espantado. Só te olha. As mãos se descruzam e caem ao lado do corpo, encurvando seus ombros. Mas não se move. Permanece lá em pé num silêncio estarrecedor. Divórcio. Separação de bens, de filhos, de almas. Foi você quem quis. Agora fica querendo chorar, me olhando fixo no fundo dos olhos, dos meus olhos.
-Ainda te quebro em mil pedaços, espelho maldito!






Milene Lopes Dias 
Palhaça Sombrinha do grupo curitibano Cia dos Palhaços. Também é atriz e contadora de histórias e atua em espetáculos infantis com outros grupos. Ama escrever e deseja ser escritora desde criança. Site: www.ciadospalhacos.com.br

Hafaell Pereira
Conheça mais de seu trabalho em: flickr.com/photos/hafaell

8 de out de 2012

Ahlamn

Conto: Yusef Al Ayub Hudhayfah
Ilustração: Frede Tizzot



Aqueles que aportam em Ahlamn já são finados ou encontram a morte em suas terras malignas. Cidade de matadores e facínoras. O sangue escorre pelos troncos das extravagantes árvores Dracaena Cinnabari ≈ apelidadas também de Sangue de Dragão.
Cerca de 5.000 pessoas vivem na ilha principal em atividades como pecuária, agricultura e pesca.
Apesar de ser considerado um paraíso, a maioria dos habitantes são fugitivos de outros sítios. Procurados ≈ para a captura de alguns deles são oferecidas muitas moedas Zildar. Os assassinos sobreviventes, que são caçados como bichos, escondem-se entre as florestas milenares de Ahlamn ≈ vivendo em cabanas isoladas ou em grutas na região de Khulud, na parte sul da ilha. Khulud é uma cidade dentro da cidade. Um sítio que cresce para baixo, em direção ao subterrâneo. Túneis se alastram, como se emulassem o caminho das minhocas.
Há uma lenda que circula pelo povoado, que toda pessoa de bem que morre em Ahlamn, passa a viver em uma cidade acima. Um vilarejo flutuante, acima das nuvens mais altas. São grandes blocos de terra, pastos e construções conectadas por pontes suspensas. Mas não se sabe se ela esta lenda é real. Assim como as histórias de que existe uma cidade subterrânea na região de Khulud, fundada pelos malfeitores.
Se estas versões forem corretas, Ahlam forma um tríptico, como aquela famosa pintura de Hieronymus Bosch O Jardim das Delícias Terrenas.
Há quem diga também que entre os mortos na cidade de cima, moram deuses e criaturas fabulosas. Ouvi, certa vez, numa taverna em Amtullah, que ao olhar para céu, às vezes é possível ver vacas e carneiros alados flutuando entre as nuvens. Talvez o Nazar, ≈ o Olho Turco, esteja escondido lá. Guardado por um rei de outrora, ou inocentemente exposto entre demais tesouros de civilizações remotas.
O problema é como chegar até esta cidade sem estar morto.
Também pode ter sido roubado pelos saqueadores de Khulud.
E se tudo isso for verdade, Ahlamn é apenas um porto intermediário. Entre o habitat dos deuses e o mundo subterrâneo. 

Yusef Al Ayub Hudhayfah 
Nasceu em Teerã, em 1977 e hoje vive em São Paulo, Brasil. Começou a escrever aos 18 anos e publicou em 2008 seu primeiro livro de contos, “Almas” pela editora “Mizmar”.

Frede Marés Tizzot
Formado em História e Direito, abandonou o mundo acadêmico para fundar a Editora e Livraria Arte e Letra, onde trabalha como ilustrador, capista, diagramador, editor, revisor, tradutor...

6 de out de 2012

Dolorosa Busca

Conto: Jean Michel Silva
Ilustração: Bruno Oliveira


- Maldição
O sol insistia em entrar pelas frestas da janela encardida pelo descuido. Que horas eram? Já não importava. Nada importava naquele momento. Os passos apressados da vizinha de cima a fizeram despertar.

- Maldita

Correu as mãos pela penteadeira ao lado. Acreditava que com os olhos fechados limitaria sua visão. O esmalte forte e vermelho brilhava na luz daquela manhã – mas ela não via, não enxergava o brilho que sempre era ofuscado pela sombra que colocara diante da vida. No passeio das mãos, brancas e bem cuidadas, pode identificar algumas garrafas, animou-se. Apressadamente correu em direção a sua bebida – procurando pelos vestígios da noite anterior. Um copo espatifou-se.

- Inferno

Ainda de olhos fechados insistia em procurar… Nem ela mesma sabia qual era o objeto da busca – mas não desistia. Com uma velocidade quase que animalesca, corria com os dedos tentando agarrar o invisível. Precisava preencher o que estava seco. A secura a consumia internamente, a destruía como fogo em palha, como pedra em vidro fino. Pedra jogada em cristal puro. Por não encontrar o que buscava agarrou o que estava ao seu alcance. Abriu uma garrafa de whisky vagabundo já pela metade e colocou em seus lábios. Apesar de não ver, ela sentia. Passou a mão pelo frasco como quem busca por um pensamento que fugiu . Fechou os punhos e começou a movimentar sua mão como se masturbasse o litro de grossa espessura. Com o movimento, a princípio suave – porém rápido – o líquido começava a escorrer facilitando o vai-e-vem obsceno.

Pode sentir que seu seio estava enrijecido, mas não viu. Não olhou. Sentiu. Os mamilos ficavam agora bem delineados em uma belíssima camisola vermelha. Corpo torneado, corpo de mulher feita. Entre um movimento e outro ousava tocar a garrafa com seus lábios. Lambia com tesão o whisky da noite passada. Passava os lábios, consumia o álcool que lhe deixava viva.

Sem pudores e livre de qualquer amarra, desceu sua mão vagarosamente e quando se deu conta, encontrava com seu próprio prazer. Num ritmo inconstante, intercalava longos goles da bebida com uma massagem excitante. Gemeu. Livrou-se de qualquer pensamento e foi assumidamente egoísta: naquele momento era ela que estava em cena.

O sol já havia caminhado do lado de fora, levando a luz para onde antes não era iluminado. Ela sentia. Agora suas coxas estavam quentes. Num gesto não planejado, desceu com a garrafa. Hesitou em um primeiro momento, mas acabou cedendo a sua verdadeira vontade. Penetrava agora cada centímetro da garrafa , ainda aberta, em si mesma. Gemeu. A dor e o prazer se confundiam. Estava ardendo. Queimava por dentro.

Enfiava cada vez mais fundo, e sentia-se rasgada por dentro. Sentiu algo quente escorrer, mas não se preocupou. Deixou escorrer, deixou correr, porque algumas coisas precisam ser expurgadas, porque precisava ser liberta – então se exorcizava.
A garrafa já estava pela metade e o prazer era quase pleno. Mordia a boca, tirou sangue dos lábios. Afundava os dentes em si mesma tentando engolir o que era. Líquido.

Quando sentiu que havia chego ao seu limite, parou repentinamente. O lençol manchado em tom de papel antigo trazia muito da cor do seu esmalte – porém, menos vibrante e, agora, menos vivo. Levou as duas mãos até seu rosto, aproximou-as dos lábios e as lambeu canibalmente.

Havia chego no limite, mas se viu insatisfeita. O prazer poderia ser maior, o tesão poderia aumentar – e não relutou. Passou as mãos agora molhadas com whisky e seu sangue vermelho e grosso pela penteadeira. Encontrou um maço de cigarros já no final – era o último. Sentiu uma alegria imensa, era o último. De olhos fechados riscou o fósforo e o acendeu. Deu um tragada profunda e segurou a fumaça o máximo que pode. Fumava com uma mão e se tocava com a outra, numa perfeita sincronia, num ritmo invejável.

Quando viu que o cigarro se aproximava do fim o lançou para longe. Apesar de estar acabado, fumado até o filtro, até o fim, ainda acreditava que a pertencia. Então jogou longe, mas ao alcance das mãos.

Se aproximava cada vez mais do prazer que buscava, da recompensa perdida que acreditava merecer. Enfiava, mais e mais, a garrafa em seu interior. Pode ouvir a pele ceder e o sangue escorrer entre as coxas. Encontrava o que havia perdido, encontrava com o que desde o princípio havia procurado. E num ritmo agora, inconstante e tortuoso, se tocava e tinha prazer em ouvir e sentir sua pele rachando.
O sol não se movimentou novamente, mas a luz havia aumentado. Um calor descomunal tomava conta de seu corpo, de sua alma e de seu quarto. Ouvia o estalar de madeira velha, sentia o cheiro da fumaça – densa, preta e carregada. E enfiando o garrafa de whisky até a máxima profundidade de seu corpo, suspirou.

- Encontrei.

Bruno Oliveira
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/oitoart.

Jean Michel Silva
Site pessoal: about.me/jeeanmichel


5 de out de 2012

Sobre charutos, ateus e lobisomens

Conto: Florestano Boaventura
Ilustração: Lena Muniz






O escritor e ex-ateu Brás da Silveira cortou um charuto cubano – marca Fonseca, antes de sentar para escrever.
Utilizou um isqueiro tipo maçarico para acendê-lo. Quando em contato com a chama, girou-o lentamente na mão para que fosse aceso uniformemente por todo o raio. Depois levou o tabaco já aceso aos lábios e, antes de dar a primeira puxada, soprou por onde foi feito o corte, para expulsar todo o sabor desagradável produzido pelo acendimento.
Então esperou alguns segundos para dar uma nova puxada, para que o fumo esfriasse. Manteve a fumaça na boca, sentindo as primeiras notas de aromas. Depois o expeliu em direção à janela.
Não se pode ser ansioso ou lento demais para saborear um charuto. Intervalos de um minuto são suficientes para não esquentá-lo demais e nem deixá-lo apagar.
Com a literatura é a mesma coisa. É preciso “degustar” cada palavra, cada frase do conto.
O som característico das teclas da máquina mesclava-se ao som do piano de uma música do Tchaikovsky na vitrola.
Brás escrevia a história sobre um autor ateu, chamado Gregório Munhoz. Certo de suas convicções, passou a vida engendrando histórias autobiográficas ou inspiradas em causos que ouvia. Para ele, escrever significava se atentar às rugosidades da vida cotidiana. Depois de certo tempo, já tinha falado de todos os seus casos de amor e destrinchado memórias até a completa escassez. Estava, irremediavelmente no fundo do poço da escassez de suas ideias. Foi quando, deparou-se com o imponderável. Um morador da estância foi morto de maneira misteriosa. No outro dia descobriram que a vítima teria sido Zacarias, o caseiro. Seus membros foram dilacerados e arremessados por toda a propriedade. Encontraram os braços perto do curral e as demais partes em outros lugares. A notícia logo se espalhou pelos vilarejos em volta e as pessoas ficaram apavoradas.
Gregório observou tudo através de uma lacuna nas ripas da parede dos dormitórios. Como aquela história do rei que espiava o Minotauro por uma fresta na parede do labirinto*.
Brás levou uma semana para finalizar este conto. Parando diversas vezes para degustar seu charuto na sacada, contemplando os desenhos que a fumaça formava no teto do apartamento. Naus, florestas, ninfas nuas...
Sua namorada veio diversas vezes insinuante. De camisola, sem sutiã ou trajando apenas a parte de baixo da lingerie. Fizeram amor sobre a pilha de papéis datilografados encima da mesa. Também sobre a cadeira de rodinhas e até mesmo na janela, inspirados pelo fetiche de serem observados por uma plateia de incógnitos.
Mas o extraordinário nesta história é que o charuto não apagou. Durou uma semana, nem sequer diminuiu. Por mais puxadas e baforadas que Silveira desse, permanecia enorme e intacto. O vultoso artifício foi companheiro das madrugadas e noites insones.
Nas vezes que dormia, o charuto permanecia aceso, encostado sobre o cinzeiro. No outro dia, tornava a fumá-lo. E também a escrever.
Quando terminou, depois de inúmeras transas e baforadas, olhou para o charuto e ele tinha enfim, apagado.
Brás retirou a última folha da máquina, releu a história e conferiu o relógio. Foi então que percebeu que, passara apenas uma noite desde o momento que começou a escrevê-la. Sua namorada apareceu na sala no meio da madrugada e o charuto queimou no tempo certo. Uma semana, na verdade, foi o tempo que Gregório Munhoz levou para terminar o seu primeiro conto fantástico sobre o lobisomem da Fazenda Marabá.

* Rei Minos, de Creta, que mandou construir um labirinto para aprisionar o Minotauro, monstro filho de sua mulher.


Florestano Boaventura
Editor de uma revista de cordel, com temática horror, chamada LODO. A publicação circula  pelos becos de Curitiba desde 1948, e foi relançada junto com a LAMA nº 2 em 2011.
Alguns contos podem lidos em: www.revistalodo.blogspot.com.br.

Lena Muniz
Publica suas criações e desenhos no blog: www.omodernario.blogspot.com.br


3 de out de 2012

Zero!

Conto: Paulo Biscaia Filho
Ilustração: Daniel Gonçalves




1963. Em um certo país na América do Sul, um presidente com afinidades com o socialismo e pressionado entre forças soviéticas e estadunidenses vacilava em que rumo tomar. Seus assessores sugeriram uma aliança com o país do mesmo continente. Ele negou. Ao perceber que forças militares poderiam interromper seu governo, o Presidente decidiu se aproximar dos soviéticos em troca de instalações de maior poderio bélico. Os militares salivaram com o poder que eles receberiam de presente.

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Ela estava com o telefone na mão. Silêncio do outro lado. Sentiu seu coração parar de bater enquanto esperava por uma voz. Sua respiração também falhava. Morrer era inevitável. Se não fosse agora, certamente depois. Minutos depois. Ela sabia disso, mas tinha que falar ao telefone. Uma voz responde do outro lado: ‘Sim, Sra. Presidente?’

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1964. O presidente permaneceu no poder com o apoio dos militares que não compreendiam possíveis diferenças entre extrema esquerda e extrema direita. Vermelho, verde ou azul. O que importava é que eles tivessem poder. Com a instalação estratégica de 265 ogivas nucleares eles possuíam muito mais do que poderiam imaginar.

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‘Almirante, entramos em alerta nível 4’, ela disse depois de engasgar com uma súbita apnéia. ‘Positivo. Aguardo sua ordem de ataque, Sra. Presidente.’. Ela olhou para frente. Debaixo de um quepe, o Ministro das Forças Armadas vacila olhar, mas respira fundo e com um aceno de cabeça confirma. Do outro lado do telefone, a voz do Almirante suspira: ‘Posso ter sua confirmação, Sra. Presidente?’

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1965. O teste da bomba nuclear soviética Chagan é transferido do Campo de Explosões para A Economia Nacional na Sibéria para uma região desértica na América do Sul. Rebatizada de Diamantina, a ogiva é detonada abaixo da superfície, no dia 15 de Janeiro daquele ano. Seu resultado criou uma cratera de 960 metros de diâmetro e 465 de profundidade. A colaboração entre cientistas dos dois países para o teste fortaleceu a capacidade de tecnologia nuclear naquele país sul-americano.

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Ela não estava no cargo por mais de quinze dias e não pode deixar de achar irônico que sua primeira decisão presidencial seria também sua última. O submarino Guararapes estava a milhares de quilômetros dali, mas a voz do Almirante estava clara como se estivesse ao seu lado. Na verdade, ela nunca se sentiu tão perto de alguém falando ao telefone. ‘Almirante, pode receber os códigos de lançamento….’

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1970. O presidente daquele país estranho morre em decorrência de um ataque cardíaco enquanto assistia a final da Copa do Mundo do México. A KGB e o centro de inteligência local suspeitaram de ação da CIA naquele morte. Se foi ou não uma ação de espionagem, a CIA não contava com a vitória daquele país na Copa de futebol. O Tricampeonato ajudou a fortalecer a ideologia comunista do governo. Um novo presidente foi eleito indiretamente, nos mesmos moldes da União Soviética.

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‘Delta - Zulu - Tango - Romeu…’

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1972. Grupos de guerrilha opostos ao regime comunista são capturados e torturados na Base de Investigações do governo, estabelecida em uma grande cidade à beira-mar, cujas praias paradisíacas haviam servido de capital do Império 160 anos antes. Alguns membros das guerrilhas conseguiram escapar e pediram asilo político nos Estados Unidos, onde foram novamente torturados quando a CIA supôs que se tratavam de agentes-duplos.

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‘Golf - Victor - Alfa - India. Confirma, Almirante?’

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1975. É construído o primeiro submarino nuclear da América do Sul. Nos dez anos seguintes, a frota aumenta e ultrapassa duas centenas de embarcações. Cada uma carregava ogivas suficientes para dizimar um continente.

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‘Código de ataque confirmado, Sra. Presidente. Ordem de ataque autorizada para o submarino Guararapes e repassada às demais embarcações posicionadas. Que viva a ordem e progresso de nossa grande pátria, Sra. Presidente!’
‘Viva’, ela respondeu do outro lado segurando seu suspiro e encontrando energias para dar firmeza em sua voz.

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1990. A União Soviética é desfeita e ruma em direção contrária aos ideais Comunistas. A China e aquele país da América do Sul são os únicos a permanecem com o mesmo regime. Apesar de manifestações da população pela criação de eleições diretas, aquele país abafou opiniões contrárias ao regime através do fortalecimento de suas reservas, fruto de uma surpreendente administração rigorosa na agricultura e economia interna. Naturalmente, eram dados maquiados. Havia uma crise econômica crescendo e o país certamente estava caminhando em direção a uma falência completa.

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Ela lembrou de seus primeiros dias na política, décadas antes. Tudo parecia ser mais poético, mais ideológico. Ela era incapaz de encontrar um adjetivo em qualquer língua humana capaz de descrever o que significava aquele momento.
- ‘30 segundos para o lançamento. Vinte e nove… vinte e oito…’

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2002. Na esperança de recuperar as perdas econômicas de duas décadas, o Partido apontou um radical de esquerda como Presidente. As relações comerciais com dos demais países das Américas e Europa foram cortadas em um embargo sem precedentes. A China negou qualquer apoio às decisões daquele Presidente sul-americano e se apresenta neutra. O Presidente segue com determinações que tornam as relações diplomáticas cada vez mais insustentáveis. Diversos focos de corrupção de políticos relacionados com as poucas empresas privadas remanescentes forçaram o Presidente a estatizar de vez toda a indústria e comércio do país. Revoltas da população são oprimidas com ataques do exército. O poderio bélico construído no país ao longo de quatro décadas assegura uma posição de soberba dos militares e de segurança ao Presidente.

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- ‘Oito… sete… seis… cinco… quatro… três… dois… um…’

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2012. O Presidente é assassinado em sua casa por agentes da CIA. Para entrar em seu lugar, foi apontada a primeira mulher como Presidente daquele país. Sua carreira política havia iniciado como torturadora de guerrilhas na Base de Investigações. Desde então foi ganhando respeito dos militares que permaneciam secretamente como fonte de todas as decisões políticas. Assim que assume o poder, dá a ordem imediata de encaminhamento de centenas de submarinos nucleares para a América do Norte.


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Em meio a redemoinhos retorcidos de pensamentos, ela imagina se suas decisões seriam diferentes se a história fosse diferente. Se houvesse eleições diretas, se não houvesse crescimento no poderio bélico, se houvesse ideologia…
Ela percebe naquele momento que a única ideologia que comandava aquele país há cinco décadas era… PODER. E haveria demonstração de poder, mas não sem represálias que certamente dizimariam milhões. ‘Milhões de quem? Quem são esses milhões? Qual a diferença? Eles não tem nenhuma voz mesmo.’, concluiu corretamente.
Alguém na América do Sul disse, há milhares de anos, que 2012 seria o fim. O fim dos tempos, ou o fim de paradigmas, ou o fim de ideologias. O que quer que fosse, o que via depois iria mudar a história de vez. Suas inócuas divagações foram interrompidas pela voz do Almirante gritando:
- ‘Zero!’


Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

2 de out de 2012

O Dia V

Conto: Rafael Pesce
Ilustração: Francisco Gusso

O dia 6 de junho de 1944 ficou conhecido como o Dia D, o golpe final das tropas aliadas contra o regime nazista de Adolf Hitler. Mais de 155 mil homens dos exércitos americano, britânico e canadense lançaram-se em um ataque nas praias da Normandia, na França. Para os livros de história foi o começo do fim da Segunda Guerra Mundial, mas para mim, foi o início de uma nova vida, um ciclo que desbravaria a eternidade.

Meu nome é James McCovil, mas meus companheiros me chamavam de Jim. Fui casado com uma linda garçonete de nome Margareth, com a qual tive dois filhos. Deixei minha família no longínquo estado do Texas após meu alistamento militar em 1940. Tornei-me cabo do exército americano, pertencente ao 83° Regimento de Infantaria. Junto com centenas de milhares de soldados fiz parte da ofensiva na Normandia.   

Daquele dia me lembro da tensão constante. O olhar perdido de alguns companheiros contrastava com o sangue nos olhos de outros. Estávamos todos preparados para morrer, sem medo de nosso destino. Os tiros e explosões chegavam mais perto a cada metro que o barco se aproximava da praia. Não demorou muito para as primeiras embarcações serem explodidas. Nessa hora, apenas olhava fixamente para frente, rezando internamente para a próxima bala não atingir meu corpo. Assim que minhas botas tocaram os primeiros grãos de areia, corri em busca de um ponto de defesa. Nossa companhia foi uma das primeiras a desembarcar. Tínhamos a missão de tomar dois morteiros localizados no norte da praia, facilitando, assim, a locomoção das tropas. Dividimos nossa força. Vinte homens avançaram em lados opostos na tentativa de surpreender o inimigo. Fiz parte do ataque pelo flanco leste. Costeamos o alvo, em bloco. Tudo parecia correr como planejado, mas foi então que ouvi gritos por perto. Meus dois companheiros da direita caíram após tiros certeiros, que perfuraram seus capacetes sem dificuldade. Pouco tempo depois outros três combatentes foram alvejados, antes que pudessem reagir. Percebi que havíamos caído em uma emboscada. A partir deste momento o terror tomou conta do resto da tropa. Sem saber o que fazer, tentei correr o mais rápido possível em busca de algum abrigo momentâneo. Enquanto minhas pernas tentavam carregar o meu corpo, ainda infectado pelo pavor, ouvi um zunido. Na minha frente caiu uma granada. Booooooooooooooooooooom! Barulho ensurdecedor e falta de visão total.

*  *  *

Acordei em uma cama simples, de madeira. Tentei me levantar, ainda assustado, quando a vi: uma linda mulher, de pele branca e longos cabelos negros que envolviam seus ombros como uma espécie de manto. O olhar dela me petrificou, mas o sorriso, tímido no canto da boca, me passou certa tranquilidade. Ela parecia um anjo. Pensei que estava morto, só poderia estar no céu. Era a única explicação possível.

- Sente-se bem? – Perguntou a mulher calmamente.
- Minha cabeça dói. Onde estou? O que aconteceu comigo? – Um ruído insistente ainda passeava pela minha cabeça.
- Digamos que você está a salvo...
- Quem é você?
- Meu nome é Annabel. Sou uma enfermeira, quer dizer, eu era uma enfermeira. Mas ainda sei como cuidar de um soldado.
- Como assim? Estou em um hospital militar?
- Não, essa é a minha casa. Fique tranquilo, as poucas pessoas que cruzam minha porta estão a salvo.

A cabana era escura, pouco ventilada. Apenas uma janela, não muito grande, permitia um vislumbre da parte externa da casa. Alguns móveis, gastos pela ação do tempo, ornamentavam o lugar. Era noite, um estranho silêncio insistia em me manter calmo. Memórias antigas apareciam como flashes na frente dos meus olhos. Neste momento, pensei na minha terra natal, em tudo que tinha ficado para trás. Uma lágrima escorreu em meu rosto. Annabel não entendia o porquê daquilo.

- Você está bem soldado?
- Sim, apenas lembranças do passado. Esses pensamentos sempre me assombram.
- Fantasmas. Fantasmas de outrora. Diga-me, o que o atormenta?
- Minha mulher, Maggie. Deixei-a nos Estados Unidos. Nosso casamento não ia bem, desconfiava que ela me traísse. Diziam que muitos homens do bairro experimentaram dos prazeres dela. Não conseguia encontrar mais emprego. O dinheiro se tornou escasso. Talvez seja por isso que ela tenha buscado a felicidade nos braços de outros homens. Na época não queria acreditar, mas alguns anos de solidão na guerra foram suficientes para abrir meus olhos. Se algum dia eu voltar para meu país sei que ela estará com outro. E as crianças?  Meu Deus! Christopher tinha quatro anos quando parti. Não tive nem tempo de jogar baseball com meu filho. Annie tinha apenas um ano, perdi o primeiro passo dela. Hoje os dois nem se lembram do pai que um dia tiveram – a intensidade das lágrimas aumentou neste momento, mas continuei a falar - A guerra é uma fuga. Claro, queria ajudar meu país, mas cruzar o mar e pegar em armas foi apenas uma desculpa para escapar de uma realidade que me trazia tormento. Agora, tudo que penso é terminar com essa guerra e matar quantos nazistas eu puder. Quem sabe um dia eu consiga viver em paz comigo mesmo.

Annabel estava com uma expressão consternada. Por um momento pensei que ela iria chorar. Mas a pele pálida permanecia imóvel. Alguns segundos silenciosos inundaram o ar até ela finalmente responder:

 - Eu sei como você se sente caro soldado. Minha guerra não foi essa, muito menos a antecessora, mas do outro lado também estavam os germânicos. Uma guerra entre a França e a então Prússia. Os homens lutaram bravamente na frente de batalha. Para nós, mulheres, sobrava o trabalho de cuidar dos feridos. Perdi meu marido e dois irmãos na Batalha de Sedan. Infelizmente, ou felizmente, Deus nunca me deu a chance de ter um filho. Estava completamente sozinha no mundo. Quando a guerra terminou, sobrou pouca coisa para o lado perdedor, no qual eu me encontrava. Sem ver sentido em minha vida, tentei me matar. Pendurei uma corda em uma árvore, coloquei-a no meu pescoço e esvaziei a mente. Tudo deveria estar acabado em poucos segundos. Mas um salvador apareceu e deu uma benção que me salvou. Terminar com minha vida não era mais uma opção. Uma nova sede tomou conta do meu corpo. Durante muito tempo passei a perseguir qualquer prussiano que estivesse envolvido na antiga guerra. E isso me satisfez por um tempo. Com o passar dos anos fui procurando motivações, desafios e...almas para compartilhar esses momentos.

Fiquei paralisado perante a história de Annabel. Nunca fui um grande conhecedor de história. Sinceramente não sabia nem quando ou por qual motivo essa outra guerra havia acontecido. A aparência jovem de minha anfitriã indicava que o conflito não ocorrera há muito tempo. Era o que eu pensava.

- Soldado, você pode ver que os martírios da guerra não foram apenas um escape para você.
- Eu sei, vejo isso claramente. Queria fazer esse vazio sumir. Sinto um buraco negro crescendo e tomando conta de cada centímetro do meu corpo. Não sei mais o que pensar, nem o que fazer. – Nesse momento as lágrimas verteram de ambos os olhos, incessantemente. 
- Acho que só tem uma solução para isso. Estou pronta para lhe dar uma bênção que há um século me foi ofertada.

Quando olhei para Annabel, sua expressão havia mudado. O sorriso, antes belo, ganhou duas presas, que contrastavam com a penumbra da noite. Ela mordeu o meu pescoço, e antes que a última lágrima tocasse o chão, eu me encontrava inconsciente. Os próximos dias foram de agonia e sofrimento, mas após esse teste do tempo eu estava pronto. Não sentia mais dor, apenas uma sede constante por sangue.


Rafael Pesce 
Nasceu em 1985 na cidade de Três Passos, interior do Rio Grande do Sul. Mudou-se para Porto Alegre em 2003, onde se formou em Jornalismo pela PUC-RS e mora até hoje. Em sua estante de livros Nick Hornby e J.R.R Tolkien brigam constantemente pelo maior espaço, mas agora ganharam a concorrência voraz de George R.R Martin. Devoto do gremismo, não dispensa um café ou um chimarrão bem quente.  
Seus contos podem ser lidos em: http://contosdefleming.blogspot.com

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: flickr.com/photos/volumesvirtuais