11 de jun de 2014

O filho do caseiro

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: André Ducci



Petrônio era o filho do caseiro da chácara dos Aguilar, um casal de idosos que praticamente ignorava a existência do menino. A verdade é que poucas pessoas se relacionavam com o garoto recluso e ensimesmado que, apesar de toda aparência, não era nenhum anjo. Petrônio tinha suas bizarrices, por exemplo, o seu mais obsessivo hobby, o cemitério em miniatura que estava construindo. Em um canto pouco explorado da propriedade dos Aguilar, para cada pequena lápide que ele entalhava em madeira, havia um animal sepultado.

Começou enterrando insetos, tais como: baratas, besouros e grilos, até o dia em que achou um rato morto e providenciou seu funeral. Durante algum tempo se satisfez com a simples coleta de cadáveres, todavia, impaciente para expandir sua necrópole, passou a cometer pequenas atrocidades. A primeira vítima foi o canário dos Aguilar, vulnerável em sua gaiola.  Depois alguns gatos que visitavam inadvertidamente a chácara. Também armou arapucas com as quais capturava ratos, sapos, lagartos e qualquer pequeno animal que por desventura cruzasse seu caminho. O cemitério de Petrônio era o seu orgulho e agora havia se expandido por um bom trecho, até as proximidades do pomar.

Certo dia, voltando da escola, Petrônio avistou uma ambulância em frente à chácara. Aproximou-se cauteloso e, antes de passar pelo portão, observou que era a sua mãe quem recebia o atendimento. O garoto correu casa adentro e trancou-se no quarto, de onde pode ouvir as sirenes dos carros de polícia se aproximando.

Minutos antes, a mãe de Petrônio estava coletando laranjas no pomar, quando percebeu um odor forte de putrefação. Ela, uma senhora religiosa e cheia de superstições, ficou transtornada ao deparar-se com centenas de pequenas cruzes e lápides de madeira. Impulsivamente, ela pegou o rastelo e começou a revirar todo o terreno na intenção de desmanchar aquele cenário grotesco. Revolver a terra daquela maneira fez com que o cheiro nauseabundo se alastrasse absurdamente potencializado, mas isso não foi o pior. O rastelo enroscou em algo e, quando a mãe de Petrônio fez força para livrar a ferramenta, acabou fisgando um sapato. Era o sapato que o senhor Aguilar calçava na noite em que desapareceu misteriosamente.

A visão do pé necrosado emergindo da terra, somada à náusea causada pelo cheiro forte, fizeram com que a mulher desmaiasse. Ela foi encontrada pela senhora Aguilar e o restante dos acontecimentos pode ser deduzido. Agora, Petrônio apenas desenha suas lápides, pois é tudo que lhe permitem no sanatório.



André Ducci
andreducci.art.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA,  escreve e desenvolve ilustrações para esses periódicos, além de ter participado de outros projetos, como as revistas Fascículo, Arte & Letra e Jandique.  Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design.

facebook.com/danielgoncalvesarte
 

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