7 de ago de 2014

Lápide

Conto: Thiago Tizzot
Fotos: Marco Novack*
* Com: Digão Duarte e Michelle Rodrigues
Maquiagem : Cristopher Gegembauer




Ela usava uma saia um pouco abaixo dos joelhos. O sapato era bege, provavelmente de couro, com um cadarço de mesma cor. Lembrava um sapato masculino, mas com salto. A meia era grossa, apesar do sol a cidade tinha um vento frio e cortante. Ele gostava de sentir o rosto gelar com a brisa. Não lembrava a primeira vez que a viu, tão pouco seu rosto. Sempre começava a admirá-la pelos sapatos, as meias, a saia e não passava da bolsa. De couro preto.







Era como se sua cabeça não conseguisse se erguer. Como se os anos de humilhação e fracasso tivessem solidificado sobre seus ombros e a ousadia de encarar alguém nos olhos o tivesse abandonado. O emprego de varrer os caminhos que serpenteavam as lápides foi a única coisa que restou. Tirava pouco dinheiro, mas pagava o aluguel e a pinga. Tava de bom tamanho. Ofereceram para carregar os defuntos, mas com isso ele não queria mexer. Uma coisa era ver as lápides, imóveis na frieza da pedra. Outra eram os caixões, os parentes chorosos, a sensação de ser humano. Isso ele não queria.
Os anos se acumularam, os cabelos, agora brancos, permaneceram somente acima das orelhas o resto o tempo levou. Passou a mão pelo rosto molhado da chova fina. A mulher vinha toda a semana, nas terças, às 10h30. Jamais faltava. Ou se atrasava. Nunca teve curiosidade de saber quem ela visitava ou até mesmo para onde ela seguia depois. Simplesmente a admirava passar, apoiado em sua vassoura e com os olhos baixos.








Era como deveria ser, não existia uma razão, como se alguém lá em cima ou lá embaixo tivesse determinado e assim se fez.
Consultou o relógio no pulso, herança do pai, nunca viu o sujeito usar. Um dia saiu para comprar bebida e nunca mais voltou. Ele era pequeno não entendia o que se passava a de noite chorava de saudades do pai. Talvez por isso ele hoje beba. Encontrou o relógio em uma gaveta na casa de sua mãe. Depois que ela faleceu, foi chamado para recolher os pertences da velha senhora. Uma vida inteira em uma caixa de sapatos. Há anos não via Dona Zuleica, também não viu seu enterro, não sabe quem a enterrou ou onde. Pode ser que seja no mesmo cemitério que trabalha, nunca procurou. Falta de vontade ou vergonha. Não importava.




Estava na hora, 10h30, logo ela passaria. Pela primeira vez percebeu que existia uma rotina, uma seqüência de movimentos e ações que fazia todas as terças pela manhã. A primeira era olhar o relógio, lembrar de seu pai e sua mãe, depois segurava a vassoura com a mão direita, a esquerda buscava pela pequena garrafa de metal em seu bolso. Um rápido gole, o líquido descendo pela garganta, ardente. O frio do metal de volta no bolso, a mão esquerda se junta sobre a direita apoiada na vassoura. Em cima das mãos o queixo e a perna direita cruza sobre a outra.




Naquele segundo, antes de os ponteiros marcarem o momento exato, percebeu que fazia a mesma rotina. Não lembrava há quantos anos. Olhou para a calçada, bem no ponto em que uma pedra era mais alta que a outra. Esperou pelos sapatos de bico quadrado, beges, com cadarço. Mas eles não vieram.
O sol incomodava os olhos, espremia o rosto tentando enxergar melhor. Mas não tinha nada para se ver. A mulher não apareceu.
Coçou a cabeça, o coração batia acelerado, abriu a garrafa de metal, o tampa rolou pelo chão irregular de pedra. Bebeu em longos goles, sentiu suas entranhas se aquecerem. O cheiro de álcool agrediu as narinas.
Os passos eram hesitantes, arrastava os pés. Não sabia que direção tomar, só queria ir em frente. Precisava ver a mulher. Não se preocupava em descobrir porque ela não estava ali. Só precisava que ela estivesse. O vento acariciou seu rosto, gelado, sempre gelado.
Tudo era igual, uma selva de pedras escuras com letras douradas, alimentada pelos incontáveis corpos que chegavam em carrinhos de metal, empurrados por aqueles mais queridos do pobre coitado morto no interior do caixão.
Os pés pararam. Pesavam uma enormidade e ele não conseguia que fossem adiante. A lápide era simples, flores mortas sobre a tumba. Era ali. Não tinha dúvidas de que aquela era a lápide que a mulher vinha visitar. Como sabia? Não importava. Mas sabia.
Finalmente conseguiu erguer a cabeça, viu o céu, azul e sem nuvens. Depois as letras rebuscadas cravadas na lápide. Seu nome.



Marco Novack
flickr.com/photos/oavestruz

Thiago Tizzot
Autor dos livros "O Segredo da Guerra" e "A Ira dos Dragões e outros contos", pai da Lili e Basilisco.

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