25 de nov de 2014

Noite de churrasco, farofa, fritas, aipim e charutos no Gina´s Beef e Mocó do Esley

Conto: Florestano Boaventura
Ilustração: Daniel Carvalho


Chovia na noite em que eu, Dragomir, Linhares e Lufus fomos até o Gina´s Beef a procura de um sujeito conhecido pelo apelido de “Lucélia Santos”.
Vou escrever o que lembro, resumindo algumas passagens para que este relato não se torne extenso demais. O objetivo principal é registrar a noitada.
Linhares tinha uma fotografia do cara num papel de impressora vagabunda jato de tinta, que molhou ao descermos do carro e deixou a imagem toda borrada. Uma bosta.
Ele mostrava o papel no balcão e os caras custavam a enxergar o rosto.  Lufus foi com ele, caso desse alguma merda. (Quem mexeria com um detetive com bigode texano e um cabra barbudo descomunal usando suspensórios?)
Eu e Dragomir pedimos um café na mesa e nos divertimos assistindo um show de strip-tease de uma stripper chamada “Sandrinha Lovecraft”. Ela possuía diversas tatuagens de monstros Cthulhus pelo corpo.
O Gina´s Beef é uma espécie de zona limítrofe entre vários mundos. Entre a Rua Saldanha Marinho e a Rua XV de Novembro. Na Cruz Machado. Um Buraco frequentado por todo tipo de criaturas – vampiros, lobisomens, abantesmas, zumbis, caça-recompensas, matadores, gárgulas, índios, ciclopes, androides, traficas, vagabundos.  Tudo o que há de pior numa cidade suburbana de quarto mundo.
De repente um deus-nos-acuda. Gritaria. Várias pessoas se levantaram e vi um braço voando no meio do povo. Jorro de sangue borrifando no velho ventilador de teto. Uma senhora gorda correndo com os peitos flácidos pra fora, tentando segurar o tomara-que-caia com uma das mãos.
Um outro sujeito, usando gorro de lã se aproximou de nós e mostrou uma besta:
– Florestano Boaventura?
Dragomir voou no pescoço dele. Cravou os dentes. O malaco ainda conseguiu atirar antes de cair e a flecha com ponta de prata ricocheteou na parede ao meu lado e na adjacente, fincando no meio do boné do Miami Heat de um calango que bebia cerveja no balcão como se nada acontecesse.
O clima estava propício para um charuto. Tirei um do bolso do paletó e acendi.
Enquanto o pau corria solto no bar.
As putanas tatuadas quebravam cadeiras na cabeça de outros carcamanos e vampiros que juntaram-se à porrada. (Bastava uma faísca para tudo pegar fogo).
E os churrascos – bifes com arroz, farofa e fritas continuavam a sair da cozinha rumo às mesas. Os shows também não cessavam. Depois da “Lovecraft”, foi a vez de um trio de gurias fantasiadas de X-Men – Tempestade, Mística e Kitty Pride.
Lufus e Linhares apareceram. “Linhaça” com a cabeça do “Lucélia Santos” embaixo do braço, como se fosse uma bola de futebol.
– Podemos vazar. Cadê o Drag?
Dragomir levantou. Sua cara, pescoço, camisa era puro vermelho sangue. Havia sobrado pouco da carcaça do cara que atirou em nós, no chão.
– Opa! Estamos indo?
Enquanto isso, nas mesas ao lado, sujeitos de todas as estirpes se atracavam em pedaços carnes mal passadas gotejantes.

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Lá fora ainda chovia pacas.
Do outro lado da rua, um telão digital passando cenas de uma versão Guerra dos Tronos pornô, com uma Daenerys suburbana dando para vários guerreiros de reinos diversos e depois trepada nua num dragão gigantesco.
Linhaça meteu a cabeça do “Lucélia” numa caixa de papelão e jogou no porta-malas de seu Santana Quantum.
Meu charuto ainda estava em brasa e como Linhares grila que eu fume dentro do carro, sugeri que bebêssemos uma gelada num bar em frente do Gina´s, chamado Mocó do Esley. Eles toparam.
A cerveja estava bem gostosa e foi boa para esfriarmos os ânimos.
Na TV passava um filme serelepe. Pornochanchada. Melhor do que futebol.
Dragomir deu uma limpada do sangue no banheiro.
Pedimos aipim frito com bacon.

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Esta foi só uma das noites regadas a churrasco, farofa, fritas, aipim e charutos no Gina´s Beef e Mocó do Esley.
Já eram quase três da manhã quando saímos.
Linhaça deixou a caixa de papelão com a cabeça do “Lucélia Santos” na porta lateral do Cemitério Municipal e mandou um SMS com o texto: “pacote entregue. está no local. aguardo restante do depósito”.
Até hoje não sei no que o Linhares trabalha.
Fomos embora, rumo ao bairro Uberaba, ouvindo um programa de clássicos dos anos 80 no rádio – Ritchie, Yahoo, Nenhum de Nós, Titãs, Blitz...


Florestano Boaventura
Editor de uma revista de cordel, com temática horror, chamada LODO. A publicação circula  pelos becos de Curitiba desde 1948.

Daniel Carvalho

flickr.com/photos/ilustroide

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