11 de jul de 2014

Quatro Segundos

Conto: Santiago Santos
Arte: André Lissonger



- Já decidiu?
- Sim.
- Quando vai ser?
- No dia que eu morri. Ela só soube por que ligaram, né?
- Foi.
- E depois ela foi pra rua? Logo em seguida? Pra pegar o táxi pro hospital?
- Isso.
- Então. Esse dia. Antes disso. Pode ser a hora que ela foi no banheiro. Ou regar as plantas. Ou lavar a roupa. Vê o que fica melhor.
- Tá. Tu vai ter quatro segundos.
- Puta merda. Só quatro?
- Quatro. Teu filho trouxe nove galinhas pretas, não quinze, o sangue não era de bode, era de cabra, as velas eram pequenas, e teve que parcelar porque disse que tá pagando o teu funeral ainda.
- Eu sempre disse pra ele não gastar comigo.
- Ele gastou.
- Me tira daqui, vamos.

O homem ergue a tampa e a terra revirada escorre pra dentro do caixão. Estende a mão pro morto e puxa. Só vem o braço.

- Puta merda, caralho. Me puxa com cuidado, porra.

O homem levanta o cadáver como uma noiva e o coloca de pé na grama. Ali ele fica bambo, mexendo lentamente a cabeça, as pernas e o braço restante. Quando tem segurança suficiente pra andar, anda. O homem o segue em silêncio. No meio da tarde chegam na casa.

- Explicou pro meu filho o que cê me disse? Que não há garantia pro que pode acontecer depois?
- Expliquei. A reação dele foi a mesma que a sua.
- É que a Maria era muito fácil de amar.

Entram na casa de jardim desgrenhado, empoeirada, entristecida. Vão até o quarto do casal. O morto para diante da cômoda, se olha no espelho, vê algumas tiras de carne grudadas no crânio, uma minhoca saindo pelo buraco onde antes havia um olho.

- É aí que vai ficar?
- Aqui mesmo. Ela sempre deixava o celular aqui.
- Quatro segundos. Se prepara. Ela tá na cozinha desfiando frango.
- Tá bom.

A casa rejuvenesce quando o homem bate palma. Os perfumes se materializam na cômoda, os livros, o celular. Segura o botão de desligar do aparelho.

Quando ligam pra dizer que o seu marido morreu num acidente de trânsito, o telefone não toca. Por isso Maria não chora ao pé da cama, não pega a primeira roupa limpa do armário, não sai esbaforida e com os olhos borrados de desgosto, não acaba debaixo das rodas do ônibus e depois na cova ao lado do amado. No fim da tarde, quando já desfiou o frango e terminou o jantar e espera a família voltar pra casa, nota ao lado do celular desligado a correntinha que o marido usa desde pequeno. Ele não a tira por nada no mundo.

Está suja de terra.




Santiago Santos
Começou a escrever cedo e nunca parou. Leitor compulsivo, tereréficionado e jornalista meia-boca. Atualmente reside em Cuiabá – MT, onde já se aventurou pelo mercado independente dos contos ilustrados e blogs abortados. Publica minicontos no Facebook, na página Flash Fiction:

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