22 de ago de 2014

Sigilo

Conto: Claudio Eduardo Rubin
Ilustração: Ibraim Roberson
"Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. Á noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes."
(Augusto dos Anjos)


Temi que o pior pudesse acontecer nesse momento, sem perceber que as insólitas consequências do acontecido já estavam, inexoráveis, na minha frente, desde o começo. Há horas, encravado no canto do quarto, imóvel, me mantive à espera dos acontecimentos sobre os quais eu mesmo tinha certa responsabilidade e que pareciam não se resolver de nenhuma maneira. A criatura se contorcia com os braços (braços?) apoiados na mesa, balançando  o que indicava ser a cabeça. Mas isso não era o que mais me apavorava, já que era um gesto que ela vinha fazendo desde o início. Era o ruído, que emanava das suas mandíbulas sobressalentes, que me lembravam vagamente um inseto de tamanho de uma pessoa -considere quem lê estas linhas que meu estado mental  não era muito lúcido naquele momento como para discernir si se tratava de este ou outro tipo de inseto- proferindo uma espécie de chamado -fiquei com essa impressão pelo tom lamurioso e sua insistente e monocorde repetição- o qual pronunciava olhando fixo na minha direção com olhos rubros hipertrofiados. "Aaaddllmmee..."  "Aaaddllmmee..."  Essa espécie de cântico inumano tinha se tornado, nos meus ouvidos, a pior evidência  do espanto que a criatura produzia  na minha alma aterrorizada. Eu, paralisado depois da ferida na perna direita, não conseguia sair do quarto. Como um raio, cruzaram pela minha mente a série de eventos que tinham me depositado nesse lugar imundo, aquela noite de agosto (a saída apressada de casa, a procura de refúgio na casa da serra, propriedade de um amigo que se encontrava de viagem no exterior e por fim, os eventos que propiciaram a irrupção da criatura naquele lugar, no meio das sombras da noite sem que eu atinasse a impedi-lo, por um misto de curiosidade e espanto, e que derivou na insuportável situação em que me encontro desde então). "Aaaddllmmee...", "Aaaddllmmee..."... Era o único som que preenchia o quarto, fora a minha respiração entrecortada  produto da dor da ferida e o terror que essa figura deforme produzia em mim. De repente, como se o que estava prestes a  acontecer pertencesse ao que tinha temido desde o início , a criatura se ergueu da mesa, vindo em minha direção, arrastando as duas patas sobre as que se sustentava seu corpo esverdeado e apavorante, pingado de manchas cinzentas. Me arrodeou com os  braços (braços?) e começou a  sussurrar no meus ouvidos "Aaaddllmmee..."  "Aaaddllmmee..." enquanto apertava meu tronco contra seu organismo. Senti um sufoco antes de desmaiar. Quando acordei, algumas horas (dias?) depois, o cenário não podia ser mais desolador. A criatura jazia aos meus pés, prostrada, e com o que parecia ser sua barriga (ou algo semelhante) com um inchaço que não tinha percebido ao longo do tempo da sua estadia na casa. Parecia exaurida, e sem condições de se movimentar de forma alguma, ainda que se encontrava com vida. Apesar da intensa dor que a ferida da perna me provocava, entendi que era a única chance para me livrar desse pesadelo que se desenrolava na frente dos meus olhos. Me arrastei  até  o quartinho onde meu amigo costumava guardar entulhos velhos e  ferramentas  e procurei uma pá. Saí por primeira vez da casa em não sei quanto tempo, e com as forças que me restavam -estava praticamente sem comer e beber o mesmo lapso de tempo que fiquei preso com a criatura- cavei uma fossa de bom tamanho, arrastei ela até a beira do buraco e a empurrei, sem encontrar resistência de sua parte. Cobri com pedras e terra  a improvisada cova, e apoiando-me na pá, à maneira de uma bengala, me afastei do lugar, até chegar a uma estradinha próxima, cuja localização tinha decorado na viagem de ida para a casa. O que tinha acontecido depois de desmaiar é algo que evito ainda hoje pensar. Não quis voltar nunca mais ao lugar onde a criatura se encontra enterrada, nem relatei para pessoa alguma este episódio.  Às vezes, em pesadelos que se repetem de forma intermitente através dos anos, a figura ominosa da criatura abraçada ao meu corpo, retorna como o lampejo de uma atrocidade que não me atrevo nem sequer a cogitar. É melhor que tudo isso fique assim, no esquecimento de um evento que nunca deveria ter acontecido. Solicito a quem por acaso possa estar lendo estas linhas, me conceda a dádiva de nem ousar pensar, nem sequer por um instante, o que há tanto tempo, pode ter ocorrido naquela habitação tenebrosa naquela noite de agosto. É a única coisa que peço.                 

Ibraim Roberson

Claudio Rubin

2 comentários:

  1. Fantástico o desenho do Ibraim. Abraço. Claudio Rubin

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  2. Perturbador. O que é bom. Me vi dentro deste sonho com o monstro e depois também no lado de fora. Do conto.

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