29 de ago de 2014

O cemitério de ideias

Conto: Rafael Pesce
Ilustração: Hafaell Pereira


O ano era 2556. O clima na sala do Imperador Drextos II era de tensão. À frente do trono, cravejado por diamantes roxos, estava uma mesa redonda, onde os mais importantes generais, cientistas e conselheiros imperiais estavam sentados. A ausência de som foi quebrada quando o Imperador levantou-se. O ouro da extravagante túnica chacoalhou, interrompendo o mórbido silêncio. Foi o sinal que todos esperavam. Em um grito uníssono todos bradavam com a mão em sinal de continência: Vida longa ao Imperador! Vida longa ao Imperador! Vida longa ao Imperador!

- Quietos! Já chega seus vermes! Já faz quase um ano que estamos no meio dessa guerra contra essa horda de rebeldes que insiste em não reconhecer o meu poder absoluto. Convoquei essa reunião para acabar de vez com a baderna que insiste em atrapalhar meus planos. Eu exijo uma solução imediata para este problema!

O primeiro a se levantar foi o General Horxos, responsável pelo comando de todas as tropas imperiais. Entre uma gaguejada e outra encontrou coragem para se manifestar:

- Oh co-co-comandante supremo. Eu, eu...já não sei mais o que fazer. Mando diariamente nossas tropas combaterem esses insurgentes, mas quanto mais lutamos mais o inimigo parece se fortalecer. Não importa o que façamos, os rebeldes parecem sempre estar um passo a nossa frente. Eles não têm medo, não desistem nunca. Usamos toda nossa força, todo nosso arsenal e parece que nada os faz desistir. Eles não são simples homens, não sei o que os faz continuar.

- Tolo! – respondeu o Imperador. Eu não convoquei esta reunião para escutar desculpas. Estou aqui para ouvir uma solução. Se eles não entendem por bem a necessidade de nossos altos impostos, que entendam por mal. Saia daqui, insolente!

Horxos não teve tempo suficiente para abandonar o recinto. Um gesto foi suficiente para que dois soldados, que até então permaneciam imóveis na entrada, atravessassem suas lanças laser nos pulmões do agora ex-general. As risadas de Drextos II ecoaram sozinhas pela sala. O encontro então prosseguiu:

- Trevor, você era o segundo em comando. O controle de nossas tropas agora está em suas mãos. O que você pretende fazer para retomar a ordem?

O novo General em nada lembrava seu antecessor. Era uma pessoa confiante, que não demonstrava medo e não evitava o olhar penetrante do Imperador.

- Grato pela oportunidade de mostrar o meu valor, oh grande Imperador Galáctico! Como todos sabem, temos um arsenal muito mais forte do que aqueles pobres rebeldes. Eles parecem um bando de ratos. Esmagamos um, mas no lugar desse, aparecem dois. E isso tudo porque eles têm uma ideia coesa por trás. Seus líderes conseguem manter o que, inicialmente pode parecer uma multidão desorganizada, em uma forte arma de repressão. Enquanto não exterminarmos essas cabeças, não acabaremos com a força por trás desta ideia absurda de rebeldia.

O Imperador sentou-se no trono e pareceu intrigado com a afirmação de seu novo general. – O que nos impede de terminarmos de vez com essas patéticas vidas?

- Infelizmente essa corja rebelde desenvolveu um escudo defletor capaz de bloquear qualquer ataque proposto por nossas tropas. Existem apenas cinco desses escudos, e eles estão justamente divididos entre esses líderes. Ainda não conseguimos descobrir uma maneira de furar esse bloqueio.

- O Imperador Drextos II se levantou exaltado. – Não acha que é muito cedo para vir com desculpas? Já disse que exijo soluções, SOLUÇÕES!

Antes que Trevor pudesse responder, uma voz, um pouco trêmula, e já entregando a idade, pediu a palavra. Era o Dr. Strengler, um velho cientista que estava no canto mais distante da mesa.

- Caro Imperador, general e demais presentes. Não precisamos necessariamente matá-los. Como Trevor bem disse antes, sem um ideal a tentativa de revolta estará morta. Tudo o que precisamos é estancar de vez esses poços de ideias.

- E como isso será possível? – indagou Drextos II.

Calmamente o cientista respondeu. - Há anos venho trabalhando em um projeto secreto que recentemente viu a luz do dia. Estava esperando a oportunidade certa de usá-lo. – O cientista puxou de dentro de uma bolsa o que aparentava ser um pequeno rifle laser. – Isso, meus caros, não é o que parece. Em uma primeira olhada pode dar a impressão de ser uma arma letal, dessas que desintegram o inimigo. Mas não, não é isso que ela faz. Ela é o que eu chamo de Nápad. E qual sua utilidade, vocês me perguntarão. Respondo: Ela extrai ideias.

Todos os presentes na sala de reunião arregalaram os olhos. Um burburinho de palavras indecifráveis se criou no ambiente. SILÊNCIO!!! – gritou o Imperador. Continue a sua explicação Dr. Strengler.

- Com sua licença, oh grande Imperador. Tudo o que preciso é programar o dispositivo para extrair toda e qualquer ideia relativa à rebelião. Como ela não é uma arma de ataque, garanto que não há escudo no mundo capaz de impedir a sua funcionalidade. Basta apontar, apertar o gatilho e pronto. O pensamento será apagado da mente do inimigo e a possibilidade de regenerar tal ideia ficará impossibilitada, graças aos efeitos do Nápad.

Em meio às gargalhadas eufóricas o Imperador repetia: - Ótimo doutor, ótimo, ótimo! Dessa maneira iremos aniquilar para sempre essas ideias ridículas.

- Meu caro Imperador, ideias não podem ser destruídas. Como eu disse anteriormente, o meu aparelho as extrai, não as elimina. Uma vez arrancada ela tomará uma forma física e ficará retida nesta cápsula redonda. Não se engane com o tamanho, se este aparentemente inofensivo receptáculo for perdido, as ideias poderão retornar para seus donos. Para evitar o pior, sugiro a criação de uma sala blindada, com toda a segurança necessária para que esses pensamentos jamais voltem a ter vida.

Drextos II finalmente sorriu aliviado, esvaziando a tensão que ainda preenchia o ambiente. Olhou para todos e falou: - Um cemitério de ideias...gostei! Construam essa tumba de aço imediatamente!


Rafael Pesce 
Nasceu em 1985 na cidade de Três Passos, interior do Rio Grande do Sul. Mudou-se para Porto Alegre em 2003, onde se formou em Jornalismo pela PUC-RS e mora até hoje. Em sua estante de livros Nick Hornby e J.R.R Tolkien brigam constantemente pelo maior espaço, mas agora ganharam a concorrência voraz de George R.R Martin. Devoto do gremismo, não dispensa um café ou um chimarrão bem quente.  
contosdefleming.blogspot.com

 Hafaell Pereira
flickr.com/photos/hafaell

28 de ago de 2014

Zumbi colega é uó

Conto: Paco Steinberg
Ilustração: Gihad Hak



“Quieta! Fica quieta! Olha que eu te mato! Vou te foder, sua piranha, e é melhor você ficar bem quieti... mas que porra é essa?”

-Você tá brin-can-do que ele foi grosso desse jeito?
-Pois é. 
-Amiga, como assim? O cara não viu que você tava se transformando? Ui, homem é muito devagar, né. Lua cheia, a louca entupida de pelo uivando pra lua, ele acha que é o quê? Tpm?
-Ai, zumbizete, fica quieta, deixa ela terminar de contar.
-Então. Eu dei uma torturadinha antes de matar, né? Quebrei uns dedos, furei os dois olhos, arranquei um braço, básico. Ele sangrou um monte, ui que nojo. Ainda levantou e saiu correndo! Acredita?
-Gente. Tô passada.
-Tá nada, esse seu lençol tá um horror! Fantasma neoclássica é uó.
-Ei, não fala assim da Mary Antonieta! Olha o bullying! Deixa eu falar?

CON-TA! CON-TA!

-Então... aquele tarado fajuto começou a correr que nem um desesperado, gritando muito! Medo! Acho que ele era de Sagitário, ui, odeio gente exagerada. Corri demais atrás dele.
-Ai, que fim de carreira. Eu nem me dava o trabalho.
-Pra você é fácil, né, querida, pega a vassoura, dá uma voadinha e pronto! Além disso, eu tinha acabado de fazer as unhas da pata! Ui, que ódio.
-Ai você fez francesinha dourada! Que tudo!
-Pois é, vim retocar. Gentem, deixa eu falar! Então, quase desisti de correr atrás daquele infeliz, mas com o tanto de carne que ele tinha, não podia deixar passar.
-Amiga, sério, eu jamais comeria um cara que quisesse me estuprar.
-Lógico né, zumbizete. Você come cérebro, eu como carne! A carne não tem pensamentos.
O salão de beleza de criaturas rompeu em gargalhadas.
-Ui, que cadela burra. Para de pintar esse pelo de loiro, hein?
-Você que fez minhas mechas, fica na sua. Mas hein, deixa eu contar... fiquei com tanta raiva por ter estragado a minha unha que antes de matar, arranquei o pau dele e deixei correr mais uns 400 metros.
A zumbi colega se rachou de rir.
-Tá certa, amiga, tortura boa é quando a pessoa acha que vai sobreviver.
-Ah, eu ia torturar mais, sabe, gosto de começar a comer a pessoa ainda viva.... mas o retardado começou a chorar, daí a carne fica dura, né!
-O sofrimento me excita.
-Credo, você tem que se reinventar, amiga! Vampiro tá off.
-Se liga, zumbizete! Vampiro é que nem estampa de oncinha, tem desde a antiguidade e sempre volta pras prateleiras!
-Sabe tudo, a bafo de urubu! E você, hein... loba má! Nem lembra das amigas! 
-Como não, flor? Olha aqui, trouxe a cabeça dele pra você!  
-Humm, delícia! Ih, meninas, olha lá na porta, tem um mané de sobretudo preto nesse calor dos infernos! Deve ser parente da bafo de urubu...
-Não fala assim do meu irmão! E para de me chamar assim!
-O salão é meu e eu falo como quiser!
-Ah, é?

SEPARAAAAAAAA

Paco Steinberg
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.

26 de ago de 2014

Regras do empresário do circo

Conto: Assionara Souza
Arte: André Coelho



Se encontrar um homem nu vadiando entre as tumbas do velho cemitério, leve-o para o campo de experiências e faça com ele todos os procedimentos necessários à conversão

Em primeiro lugar, adormeça o homem nu até que nele se desenvolvam sonhos. Enquanto ele dorme e sonha, implante as hastes de penas por todo o corpo e comece a descrição para que ele reconheça a si mesmo como a um artista

descreva a pele os olhos descreva dentes descreva a língua em movimento quando se formam as palavras descreva a textura da voz que ousou sair de dentro do corpo quando era somente incômodo do sentir e forçou-se por vontade sair expressar-se descreva as unhas coladas aos dedos descreva as marcas digitais

o homem nu acorda sozinho dentro da sala com paredes de espelhos, dispara do teto um jorro de luz e mil imagens se projetam multiplicadas dentro da consciência do homem nu, ele pode mirar apenas uma delas

no centro do quarto com paredes de espelho, o homem nu aproxima-se de uma das imagens (angustia-se por ter abandonado todas as outras – algumas o ferem no centro oco de quando se deu a primeira compreensão do que era dor) os olhos miram os olhos perscrutam deslizam pelo rosto comandando a boca a abrir-se pronuncia-se uma palavra:
a g o n i a

agora, observe se ele já se acostumou à falsa liberdade de ser um artista, interrogue-o


-há uma simplicidade do lado de fora, não prefere ir lá? do lado de fora não há paredes de espelhos porque o corpo de um será o espelho do corpo do outro, o que assusta?, o julgamento o assusta?, o julgamento como um mapa que foi entregue ao outro para que domine os territórios extraordinários da percepção, salas escadarias quartos sofás puídos cartas escritas para ninguém, venha, antes que acabe, antes que fique frio e o corpo paralise, antes que fique escuro e os olhos não enxerguem, antes que a vigilância dos pensamentos diga que tudo é mal e que dever ser evitado

o homem nu diante do espelho o corpo coberto de penas vê pelo reflexo aproximar-se uma criança, não somente por ser uma criança – o que já seria suficiente para causar espanto – mas trata-se de uma criança doente que sorri, a doença está dentro da criança desde que nasceu. Faltou oxigênio, o parto foi muito demorado e faltou oxigênio. Isso mexeu com as funções motoras, hahaha, dela, e por isso ela, hahahaha, adoeceu assim

o homem nu teme que a criança caia e se machuque, observar fraqueza ou força espanta em igual proporção, o riso da criança ecoa dentro do quarto de espelhos, ela está brincando com a ideia de ainda existir precariamente, o corpo pende ao trocar dos passos, as imagens do homem nu voltam-se para a apreciação da criança

o homem nu vê a criança afastar-se e pensa que não compreender faz todo o sentido, esse será o primeiro aprendizado, depois disso as lembranças do sonho se encarregarão de erguer paredes altas para o labirinto ficar mais acolhedor a quem desejar manter-se lá dentro e criar estruturas incríveis aos olhos dos seres comuns


Se for necessário, extirpe os olhos. São os olhos que o afastam da compreensão:

1. Espere que ele adormeça novamente e que sonhe novamente
2. Arranque delicadamente os olhos
3. Retorne novamente ao cemitério para que ele, ainda que cego veja-se como um verdadeiro artista, e aprenda a sobreviver entre cadáveres.

o homem nu dentro do quarto de espelhos adormece, o corpo mergulha em sonhos extravagantes, sonha universos simbólicos intraduzíveis, aos poucos a claridade é substituída por uma escuridão fria




Assionara Souza
Escritora radicada em Curitiba. Publicou em 2005 o livro de contos Cecília não é um cachimbo, 7letras/RJ e é também autora do recente “Amanhã. Com sorvete!” (7Letras/RJ, 2010).   Assionara é doutoranda em estudos literários na UFPR, com estudos na obra de Osman Lins. 
cecinest.blogspot.com

22 de ago de 2014

Sigilo

Conto: Claudio Eduardo Rubin
Ilustração: Ibraim Roberson
"Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. Á noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes."
(Augusto dos Anjos)


Temi que o pior pudesse acontecer nesse momento, sem perceber que as insólitas consequências do acontecido já estavam, inexoráveis, na minha frente, desde o começo. Há horas, encravado no canto do quarto, imóvel, me mantive à espera dos acontecimentos sobre os quais eu mesmo tinha certa responsabilidade e que pareciam não se resolver de nenhuma maneira. A criatura se contorcia com os braços (braços?) apoiados na mesa, balançando  o que indicava ser a cabeça. Mas isso não era o que mais me apavorava, já que era um gesto que ela vinha fazendo desde o início. Era o ruído, que emanava das suas mandíbulas sobressalentes, que me lembravam vagamente um inseto de tamanho de uma pessoa -considere quem lê estas linhas que meu estado mental  não era muito lúcido naquele momento como para discernir si se tratava de este ou outro tipo de inseto- proferindo uma espécie de chamado -fiquei com essa impressão pelo tom lamurioso e sua insistente e monocorde repetição- o qual pronunciava olhando fixo na minha direção com olhos rubros hipertrofiados. "Aaaddllmmee..."  "Aaaddllmmee..."  Essa espécie de cântico inumano tinha se tornado, nos meus ouvidos, a pior evidência  do espanto que a criatura produzia  na minha alma aterrorizada. Eu, paralisado depois da ferida na perna direita, não conseguia sair do quarto. Como um raio, cruzaram pela minha mente a série de eventos que tinham me depositado nesse lugar imundo, aquela noite de agosto (a saída apressada de casa, a procura de refúgio na casa da serra, propriedade de um amigo que se encontrava de viagem no exterior e por fim, os eventos que propiciaram a irrupção da criatura naquele lugar, no meio das sombras da noite sem que eu atinasse a impedi-lo, por um misto de curiosidade e espanto, e que derivou na insuportável situação em que me encontro desde então). "Aaaddllmmee...", "Aaaddllmmee..."... Era o único som que preenchia o quarto, fora a minha respiração entrecortada  produto da dor da ferida e o terror que essa figura deforme produzia em mim. De repente, como se o que estava prestes a  acontecer pertencesse ao que tinha temido desde o início , a criatura se ergueu da mesa, vindo em minha direção, arrastando as duas patas sobre as que se sustentava seu corpo esverdeado e apavorante, pingado de manchas cinzentas. Me arrodeou com os  braços (braços?) e começou a  sussurrar no meus ouvidos "Aaaddllmmee..."  "Aaaddllmmee..." enquanto apertava meu tronco contra seu organismo. Senti um sufoco antes de desmaiar. Quando acordei, algumas horas (dias?) depois, o cenário não podia ser mais desolador. A criatura jazia aos meus pés, prostrada, e com o que parecia ser sua barriga (ou algo semelhante) com um inchaço que não tinha percebido ao longo do tempo da sua estadia na casa. Parecia exaurida, e sem condições de se movimentar de forma alguma, ainda que se encontrava com vida. Apesar da intensa dor que a ferida da perna me provocava, entendi que era a única chance para me livrar desse pesadelo que se desenrolava na frente dos meus olhos. Me arrastei  até  o quartinho onde meu amigo costumava guardar entulhos velhos e  ferramentas  e procurei uma pá. Saí por primeira vez da casa em não sei quanto tempo, e com as forças que me restavam -estava praticamente sem comer e beber o mesmo lapso de tempo que fiquei preso com a criatura- cavei uma fossa de bom tamanho, arrastei ela até a beira do buraco e a empurrei, sem encontrar resistência de sua parte. Cobri com pedras e terra  a improvisada cova, e apoiando-me na pá, à maneira de uma bengala, me afastei do lugar, até chegar a uma estradinha próxima, cuja localização tinha decorado na viagem de ida para a casa. O que tinha acontecido depois de desmaiar é algo que evito ainda hoje pensar. Não quis voltar nunca mais ao lugar onde a criatura se encontra enterrada, nem relatei para pessoa alguma este episódio.  Às vezes, em pesadelos que se repetem de forma intermitente através dos anos, a figura ominosa da criatura abraçada ao meu corpo, retorna como o lampejo de uma atrocidade que não me atrevo nem sequer a cogitar. É melhor que tudo isso fique assim, no esquecimento de um evento que nunca deveria ter acontecido. Solicito a quem por acaso possa estar lendo estas linhas, me conceda a dádiva de nem ousar pensar, nem sequer por um instante, o que há tanto tempo, pode ter ocorrido naquela habitação tenebrosa naquela noite de agosto. É a única coisa que peço.                 

Ibraim Roberson

Claudio Rubin

21 de ago de 2014

A Faca de Bu

Conto: Fabiano Vianna
Artes: José Marconi

“A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.”
Italo Calvino



Estávamos eu e minha amiga Renata Beltrão justamente em frente ao túmulo da beatificada Maria Bueno, no Cemitério Municipal, quando ela relatou-me ter matado um cara com a mesma faca que a santinha foi degolada.
Na hora achei totalmente inverossímil e estranho, porém depois ela me contou em detalhes como adquiriu o artefato de um vendedor de bugigangas na Avenida Victor Ferreira do Amaral, em frente ao Circo Vostok, em noite de espetáculo. O sujeito jurou de pés juntos que se tratava da mesma arma, segundo ela.
“Vi diversos objetos excêntricos para vender sobre sua canga. Entre eles havia até uma réplica do Santo Graal, a tesoura de Valêncio, uma imensa colher de um Potypo e um pente – que segundo ele, pertenceu a Sherazade.”
E eu lembro muito bem deste sujeito, na vez que desenhei o circo. Um tipo de cigano comerciante exótico. Engraçado foi que, enquanto eu admirava seu rol de amuletos extravagantes, ele jogava Angry Birds no smartphone.

*  *  *


Fiquei muito assustado com o relato da Rê, lógico. Era primeira vez que eu passeava com uma assassina. Olhando para Renata, não imaginaria isso. Nunca suspeitaria de uma moça usando colete de lã, camisa social e óculos de aro redondo. Atravessando a rua calmamente, olhando para os dois lados. Com uma serenidade típica curitibana. E se me ponho a relembrar como nos conhecemos – fazendo curso de história em quadrinhos no Solar do Barão, fica ainda mais estranho. Aquela menina de cabelo azul, quieta e tímida. Sempre sentada na mesa do canto, rente à janela. Recebendo dicas do nosso espetacular professor Cláudio Seto em como desenhar figura humana. Ela era fascinada pelas obras do Will Eisner e eu preferia os europeus, tipo Miguelanxo Prado.
Do cemitério fomos para o Bar do Pudim. E fui me tornando uma criatura mais receosa a cada passo. Tratei de averiguar se a moça não carregava algo, mas ela sustentava uma imensa e misteriosa bolsa de couro pendurada no ombro. Podia ter o diabo ali dentro.
Ela não era mais a mesma quadrinista que eu conheci há vinte anos.
Sentamos numa das mesas do fundo e pedimos bolinhos de camarão – a melhor iguaria do Pudim, na minha opinião.
Ao invés de pendurar a bolsa ou deixar na cadeira vaga ao lado, Renata manteve-a no colo, como se protegesse algo valioso.
E eu perguntei:
“A faca está aí ?”
E ela me respondeu (até hoje não acredito) dizendo que nunca mais a viu. Largou-a ao lado do morto, apavorada.
“Era como se tivesse vida própria. Ela me mandou fazer aquilo. Foi na Vicente Machado, em frente ao extinto bar Dolores Nervosa. Ele conversava com uma piranha platinada. Traíra desgraçado. E ela falava comigo. Direcionou minha mão em direção ao seu pescoço e o degolei. A cabeça rolou pela calçada. Não imaginei que tivesse força para aquilo. Jorrou muito sangue. Apesar de toda filhadaputagem, ele não merecia morrer. Não devia tê-lo matado. Passei treze anos na cadeia por causa disso. E só não estou presa até hoje, porque meu pai pagou uma parte da fiança”. – me contou.

*  *  *

Os bolinhos chegaram para romper o clima que se tornara demasiadamente tenso e nós os atacamos com muita ferocidade.  Entre garfadas, camarões e molho de pimenta, continuou a história. (E eu louco de vontade de escrever tudo).
“Acredito que a faca passou por diversas mãos até chegar a mim. E em todos os casos, sujou-as de sangue. De certa forma, ela interferiu na minha vontade. É um objeto diabólico. Talvez seja a responsável também pela morte dela. Se não fosse isso, talvez a história tivesse sido diferente. Você acredita nisso?”
“Acho uma teoria bem plausível.” – disse.
Respondi isso apesar do panorama macabro transpor-se com os relatos de minha falecida avó Wanly, que recebia o espírito iluminado de Bu em sessões espíritas no centro da Dona Rosinha na Rua Emiliano Perneta.  Influenciam-me também as histórias contadas pela minha amiga Lívia Lakomy, sobre o médium que incorporou Maria Bueno no dia da construção do túmulo no Cemitério Municipal (em 1961 se não me engano) e deu várias dicas de cores e ornamentos aos pedreiros. Inclusive ajudou-o a empilhar tijolos e escolheu o tom de dourado nos detalhes.
O que pode acontecer é a faca ter impulso próprio. Como no conto O encontro, de Jorge Luis Borges, presente no livro O Informe de Brodie. Em que duas facas estão predestinadas a se enfrentarem. E fazem isso no decorrer dos anos. Empunhadas por homens aleatórios – títeres.
Veio-me também em mente o desenho de um diagrama, traçando locais e nomes. Uma espécie de infográfico maléfico. Desde 1893 – ano do assassinato de Maria Bueno, até hoje. Segundo dizem, ela foi morta no mesmo lugar que Renata matou o sujeito – na Rua Vicente Machado.
Talvez todo causo e conto possua um desenho. E a narrativa brote da sobreposição destes eixos, círculos, números, cálculos e diagonais. A saga de Bu pode ser contada através deste traçado.
Mariana Alípia Bueno teria nascido na Lapa. Não se sabe ao certo por que razão e como ela chegou a Curitiba. O certo é que vivia na casa de uma ex-escrava chamada Mariana da Silva Pinto, para a qual lavava roupa.
Ela foi degolada pelo namorado, o soldado Inácio José Diniz.
Era época da Revolução Federalista.
Diniz foi preso por causa do assassinato, mas Curitiba acabou ficando sem o governador e sem o comandante do batalhão, porque os dois fugiram e entregaram a cidade aos maragatos. Daí todos os presos (entre eles Diniz), escaparam da cadeia.
Voltou ao trabalho no quartel do 13.º regimento, que estava sob o comando de Gumercindo Saraiva. Em uma das rondas que fazia com outro soldado, Diniz roubou a mula de um cidadão na rua e o degolou – da mesma forma e com a mesma faca que matou Maria. O sogro do morto viu Diniz com a mula e perseguiu- o até o quartel. O homem fez a acusação de roubo e contou a história para Gumercindo, que mandou fuzilá-lo.
Então para muitos devotos, esta vingança foi um ato milagroso orquestrado por Bueno.
E toda vingança sugere um desenho circular que se fecha nele próprio.

*  *  *


Depois disso, nunca mais soube-se da arma.
Perguntei a Renata sobre o paradeiro e ela disse não saber. Largou-a lá mesmo, no local.
(E imagine – isto conjecturo só agora – se a faca tivesse caído na exata posição das outras vezes? Talvez o diagrama do tempo precise o exato local e direção. Até mesmo a inclinação dos borrifos na parede.) E um médium possa incorporar Bueno novamente e saber o lugar exato onde ela se encontra. E depois e depois...
A faca pode estar em posse de alguém ou escondida sob a lama.

*  *  *

Fui ao banheiro.
Lá de dentro, ouvi uma gritaria bestial. Uma voz feminina disparava impropérios contra outra pessoa. Reconheci os gritos, mesmo abafados pelas paredes, de Renata.
Quando voltei, ela discutia com um rapaz barbudo usando camiseta vermelha que bebia na mesa ao lado da nossa. Ele dizia apenas que ela era louca e afirmava não conhecê-la.
Aquela não era mais a Renata que eu conversava antes de entrar no banheiro. Ela havia se transformado numa maluca histérica violenta. Até a feição e a fisionomia pareciam ter se modificado. Uma expressão de ódio tomou conta de seu rosto.
Renata estava totalmente transtornada e enquanto batia boca, mantinha uma das mãos dentro da bolsa.
Isto é o que mais me assustava. Temi pelo que podia acontecer.
Definitivamente ela não era mais a mesma quadrinista que eu conheci há vinte anos.
Não estava a fim de presenciar um homicídio.
Isso tudo aconteceu em alguns segundos.
Tentei acalmá-la dizendo para irmos embora, segurei seus braços enquanto xingava o cara de mentiroso, filho da puta, cretino...
Paguei a conta e puxei-a para fora.
Gritava e chorava ao mesmo tempo. Então caiu sentada rente ao muro do bar, lá fora.
Chorou por um tempo. Depois fomos embora.
Descemos a Rua Senador Xavier da Silva em direção à Mateus Leme e ela, graças a Deus, se acalmou. Acendeu um cigarro. Compramos cervejas e chocolates num posto de gasolina.
Ainda meio nervosa, mantinha uma das mãos dentro da bolsa. A outra, tremia ao levar o cigarro à boca.
Quando perguntei quem era o cara, ela desconversou e disse apenas tratar-se de um canalha.
Depois de uma boa andada, e quando tive certeza que ela estava melhor, inventei uma desculpa para ir embora. Disse que precisava passar na loja Grafitti para comprar papel de aquarela e por sorte Renata não quis ir junto.
Despedimo-nos em frente ao Passeio Público e caminhamos para lados opostos. E até hoje não sei se a Faca de Bu não estava dentro da bolsa dela.


Fabiano Vianna
Nasceu em Curitiba, em Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela PUCPR. Trabalha como designer, ilustrador, roteirista e escritor. Desde Abril de 2013 participa dos coletivos “Croquis Urbanos Curitiba” & “Criaturas Crônicas” – grupos que saem para desenhar e descrever a cidade in loco.
http://polpacomleite.blogspot.com
http://be.net/fabianovianna

José Marconi
be.net/jose-de-souza

15 de ago de 2014

Meu epitáfio (parte 1 de 3)

Conto: Cilene Tanaka
Arte: Isabele Linhares

Aqui jaz Nelson Ascher consumido
pelo amor-próprio não correspondido.
(Nelson Ascher)



(Parte 1)

Eu tava pensando, esses dias, numa alegoria para o meu epitáfio. Algo pra ficar escrito na minha lápide. Sabe “alegoria”, né? Sabe “epitáfio”, né? E lápide, sabe, né? Eu tava pensando muito profundamente. É, tudo é profundo. Até você, que diz “ih. Lá vem papo cabeça”, é profunda. Claro que é ironia. Sou a rainha da ironia. Tá, tá, mentira minha, cê é muito profunda mesmo. Teu: “ih. Lá vem papo cabeça” é uma ironia e você é bem profunda mesmo. Agora cala a boca, que eu quero te contar uma história. Sei lá, pára de perguntar se eu tenho certeza. Eu tô só inventando. E não é isso que pensador faz? Tô tentando ser pensadora. Haha. Sabe “pensadora”, né? Eu não sei. Haha. Não achou engraçado? Só porque eu não disse que você é profunda? Mas eu disse. Eu disse que você é profunda. Tá bom, desculpa pela ironia. Não! Não vai embora. Eu não sou chata, sou pensadora, é diferente. Ouve, ouve aqui, só deixa eu terminar o que eu ia dizer. É rapidinho. O problema é que, na hora da morte ainda tô muito jovem – eu, meu físico - e não devo morrer, a não ser espiritualmente. E morte espiritual implica o que? Ah! Morte espiritual implica uma coisa pra cada um. Mas, pra resumir, pra chegar logo no meu ponto. Tá, tô resumindo, ó. É rapidinho. Pra mim, morte espiritual também implica um monte de coisa. É, tô resumindo. Nâo, nem é tanta coisa que eu tenho pra falar, só que você fica me interrompendo. Olha, escuta só isso, é rapidinho, eu juro. O que eu quero que morte implique nesta alegoria, nisso que eu tô falando, é a morte intelectual a morte da alma. Filosófico, né? E dá pra ser complicado também. Não, pára de ser chata. Não é nada complicado se você prestar atenção. Eu sei, é chato. Dá pra ser chato também. Dá pra ser complicado também, ó, presta atenção que você entende. Dá pra ser ainda mais complicado que antes, que o filosófico. Dá pra ser mais complicado que arranjar um homem bom por aí. Não, brincadeira, não é tão complicado. Você é esperta, é só prestar atenção que não é complicado. Vou complicar só um pouquinho, mas, daí, como você vai prestar atenção, vai ficar fácil, ó. Por favor, presta atenção. Juro que o chato fica legal as vezes. Juro que eu termino rapidinho, ó: o tempo acelerado – o tempo atual, o tempo que a gente vive, hoje em dia, atualmente - é como se a gente amadurecesse antes do tempo. É algo tipo como se a morte chegasse ainda em vida. Entendeu? Continuo, vou continuar, calma. Ô olha. Não terminei ainda, olha. Tô terminando. Esse “algo tipo” já é algo. Parece abstrato, parece que “algo tipo” não existe, mas já existe. É um algo, assim, sem muitas características, mas já é algo, sabe? Entendeu? Ai, é que você não tá prestando atenção. Presta atenção que você entende. Por isso que você tá solteira ainda. Não presta atenção em nada. Você é profunda, juro. Todo mundo é profundo. Só um tolo se entedia em meio a uma multidão. Todo mundo é profundo. Você é profunda, só não presta atenção. Olha, presta atenção e você entende, tá? Não faz diferença você não querer ser profunda. Não é tua escolha, não adianta achar que não é porque você é profunda e ponto. Que nem todo mundo. Quero dizer, o “é como se” já “é”. Então não é só “como se” a morte chegasse ainda em vida. A morte chega ainda em vida. E isto é, de novo, uma alegoria. Sabe “alegoria”? E não é por ser alegoria que não é real. Não,
não é surreal, é real. Não, não, é aí que ce tá enganada: não é estranho, só é real. Não é por ser alegoria que não é verdade. Não, não, você tá falando besteira. Nâo é bizarro, é real. Nem foi tão complicado assim. Ce viu? Eu e você, a gente é e não é profunda. Tá, tá, eu quase terminei, falta só mais uma coisinha que eu queria te falar antes de você ir lá. Eu sei, papo muito cabeça e tals, mas você gosta. Você só acha que não gosta, mas você gosta. Não, não é porque eu sou diferente. É que eu tento ser mais profunda que você. Você tenta ser mais...mais...sei lá o que você tenta ser mais. O que você mais tenta ser na maior parte do tempo. O que você mais tenta ser na maior parte do tempo? Ah, deixa, depois ce me fala, que eu quero terminar de te contar essa história antes que você vá lá. Ó, rapidinho, terminando, só pra terminar. Daí, aconteceu que, sem pensar nisto tudo, fiz um monte de coisa, esquecida que eu tava da morte. Tô tentando ser profunda. Percebeu? É, isso mesmo, bem profundona. Duma textura daquelas profundas, sabe? Ah! Eu gosto de ser profunda. É bonito ser profunda. Todo mundo gosta de gente profunda. É, ce te razão, não em festa, né? Haha mas, ah! festa é o melhor lugar pra gente mostrar que é profunda. Em festa, ser profunda é legal, é atraente, é ssssexy. Porque daí você é alternativa. Você é diferente. Você é única. Esquecida que eu tava do “hoje em dia” e do amadurecimento. Conversei, conversei e achei que faltava leitura. Li, li, li, pisquei e tava mais que madura. Passei a escrever, já que tinha muito a falar. Agora, passada do ponto, depois de madura, pra onde? Calma, já tô acabando, olha só isso: a morte chega ainda em vida. Parece que a gente apodrece, tipo fruta que põe verde na geladeira. Nâo, não, não tô declamando nenhum poema. Tô te contando uma história. Tá acabando, só mais esses dois versinhos, ó: parece que a gente apodrece antes de amadurecer mesmo. Antes de ficar realmente saborosa. Antes de ficar no ápice do nosso sabor, a gente já tá com a casca cheia de fungo. É divertido ser chata. Ser profunda, eu sempre digo, é ter coragem de ser chata. É charmoso, é legal, é atraente, é ssssexy. E sabe o que é mais sexy do que ser chata E profunda? Não sabe, né? Claro que não sabe. Ce não sabe nada. Não, não fica chateada. Tô brincando com você. Só deixa eu terminar a história. Ce não vai embora antes de eu terminar de te contar minha história, né? É só brincadera minha com você. Você sabe tudo, eu sei que você sabe. Você me entende. Tô vendo no teu olho. Tô vendo neste teu olhinho aí, que você é profunda, ce sabe. Ce sabe tudo. Então, o que é mais sssexy que ser profunda é...tchan tchan tchan tchan: saber ouvir! Hahahaah Eu te juro. Não tem nada mais profundo que homem que sabe ouvir. Nada mais atraente. É sssexy. Mais sexy que dançarino de axé. Mais sexy que vocalista de banda indie. Que homem rico. Que homem engraçado ou inteligente. Que aquela indiferença charmosa. Aquele olhar de quem tá com o sol bem no olho. Mais sexy que falar, é ouvir. Afinal de contas, a gente tem só uma boca, mas tem duas orelhas, né? Hahahaha é...duro. Mas, olha só isto. Deixa ela. Deixa ela ir. Eu não quero mais conversar com ela, ela é chata. Ela não gosta de papo cabeça, quero conversar com você. Olha pra mim. Olha pra mim. Agora é só eu e você. Agora não tem mais ninguém em volta. Neste boteco, estamos só eu e você, meu dançarino de axé, meu vocalista de banda indie com composições próprias. Meu alternativo neo punk. Meu cantor de pop rock. Você. Você, meu ser humano lindo que tenta parecer feio porque é mais ssexy. Você, ideal de homem que usa óculos retrô. Que usa calça justa que nem no axé mas que não gosta de axé. Você, que vai na woods pra pegar mulher mas tá procurando o amor. Você que é charmoso, você que gosta de ouvir. Você é bom ouvinte, né? É, claro que tua mãe te ensinou a sempre ouvir uma mulher. E ensinou muito bem, viu? Você é menino de família então? Além de charmoso e profundo, você é bem educado. Nossa! A mulherada deve cair em cima de você, hein? Deve fazer a mulherada
lamber o chão. É, eu sei que é machista. Mas o mundo é machista e as feministas são chatas. Eu sou só uma mulher. Uma mulher conversando com um homem. Um homem como você, nossa! Olha como você olha com indiferença pra mim, que charme! É...eu até que lamberia o teu chão também. Que nem essa mulherada. Não tem nada mais interessante que homem charmoso, profundo e bom ouvinte. Ainda meio indiferente, ainda, meu deus! É charmoso. É atraente. É sssexy. Sou atraída, confesso, por homem assim. Homem que não mostra que ama. Homem que finge que eu não sou importante pra ele. Sou atraída, confesso, por homem assim. É como eu sempre digo. Mas sabe o que é ainda mais interessante que homem charmoso, profundo, indiferente, bom ouvinte e educado? Homem que tem memória! Sabia? A memória é a única coisa que faz a gente organizar as coisas na cabeça. Falando nisso, lembra do que eu tava falando? Não lembra, né? Tudo bem. Só fica assim, me olhando com essa indiferença charmosa. Com esse olhar cerrado de quem tá com sol na cara. É. Essa tua sobrancelha meio arqueada como se tivesse satirizando o Johnny Bravo, só que não sabe o que é sátira. Essa segurança indiferente que quando sorri parece que quebra. Essa pose constante pra foto que ninguém tá tirando. Não! Não sorri! Fica assim, sério. Sorriso estraga você porque parece que você é vulnerável, daí. Você, charmoso assim, não precisa ter memória. Você pode. Você pode tudo. Bom, eu não lembro também. Mas é claro que é importante o que eu tava falando! Que pergunta! Quer saber? Melhor ainda: sabe o que é melhor? Melhor é quando o homem além de ter memória, sabe o que importa. Lê a mente da gente, sabe? Adivinha até o que a gente nem sabe que queria. Aí sim. Aí é a magia. E é magia porque isso não aparece no espelho. Quer dizer, não aparece no teu espelho. Aparece só no meu, né. Bom, foi mal, eu até limpava teu chão. Mas você não limpou o meu direito. Nem tá me ouvindo. Do que eu tava falando mesmo? Se bem que você não precisa me ouvir. Não precisa ter memória, não precisa nada. Fica assim, só me olhando como se não tivesse prestando atenção. Me olhando como se eu fosse completamente desimportante pra você. Olhando sempre pra porta, porque pode chegar um conhecido mais interessante. Ai! Que charme! Nossa, como você é charmoso. Adoro ser desvalorizada. Não faz assim que eu me apaixono, hein?hahaha Ah! Tava falando do meu epitáfio, porra! Sabe “epitáfio”, né? Da morte que acontece com a gente vivo. Do que tá acontecendo agora, porra. Se a gente fizesse epitáfio pra cada uma dessas mortes em vida, ia sair caro, né? Haha ah! Olha só pra você! Você, assim, lindo, perfeito, homem, sssexy. Eu, aqui, uma mulher. Este bar, só nós dois. Ssexy. Finge que só tá a gente aqui. Isso. Pode até olhar pra porta, mas espera só eu terminar de falar pra sair. Olhou pra porta? Tá olhando? Isso. Agora fica quietinho e ouve, tá? Esta morte, a morte alegórica (sabe “alegoria”, né?) é pulsão. Tem pulsão de morte e pulsão de vida, sabe “pulsão”, né? Claro que sabe! Um menino bonito desses não sabe o que é pulsão! Se não soubesse o que é, pelo menos saberia fazer a cara de quem sabe, né? Daí já é suficiente. Sorri pausado tipo capa de revista, vai. Ai que lindo, você é. Você inunda o salão com a tua beleza e quem vai lembrar de perguntar se sabe o que é pulsão, né? Não é verdade? Shh shh, fica quietinho. Ouve quem sabe das coisas, isso, assim, bonito. Silencioso. Sério. Ssexy. Então. Tem pulsão de morte e pulsão de vida. A pulsão de morte é a que busca o fim, já que o fim é a morte, né? E a pulsão de vida tem a ver com a busca do início, começar as coisas, entende? Então. Daí tem a pulsão. Olha, é bem poético, tá? Tô tentando ser poética. Faz cara de quem tá fruindo o poético, faz. Faz! Ah! Faz, meu, que que custa? Viu? sabe tudo esse garoto! Continua com essa cara, tá? Essa boca vermelha que nem precisa de batom. Isso é a corporificação do poético! Quem aqui precisa de poesia quando a gente vê uma boca dessas, né? Hahaha Vamo tentá ser poético? Pulsão. Pulsão de morte. Morro toda.
Só parar de respirar. Não fosse essa dorzinha na lombar sabe a lombar, né? Faz carinha de dorzinha na lombar, vai. Isso! Que carinha mais linda. Fica bonito até imitando dor inexistente na lombar que não sabe onde é. Sabe onde é a lombar, né? A parte final da coluna, aquela que dói de tanto ficar sentado errado? Shh shh não responde. Fica assim, com essa carinha que finge que tem dor na lombar que não conhece. Me olha sério. Assim. Shh shh quietinho. Bonito. Lindo. Não fosse essa dorzinha na lombar...morte certa. Nem precisava fazer nada, só ficar sentada e era morte certa. A pulsão de vida, a vontade de começar a fazer nada geraria a pulsão de morte, a vontade de fim. Tá chato? Tô chata? Sô chata? Achei que eu era legal. Achei que eu era inteligente, charmosa, atraente. Achei que eu era ssexy. Pode olhar pra porta, então, só enquanto eu termino de falar. Falastrona? Eu? Porque falastrona? Hehe que que eu fiz? Ce só diz isso porque você não viu esse cara que acabou de sair. Esse, sim. Um arrogante. Não tem nada mais chato que gente arrogante. É sexy, é atraente, mas que adianta se é superficial? Acha que é perfeito, tadinho. Daí, quando viu que eu não me desvalorizo, que eu tenho mais que um corpinho bonito pra mostrar, ficou entediado. Quando viu que eu não sou menos que ele, acho que ficou inseguro. Porque eu tenho algo que ele nunca tem. Eu sou inteligente. E inteligência, meu filho, só cresce. Ele, todo lindo agora, vai virá um bagaço daqui a alguns anos. Daí não sobra nada pra ele. Ele vai tá lá, sofrendo porque ficou feio e eu só vou estar mais inteligente. É, é, recalque também não envelhece, ce tem toda razão, mas como eu tava falando, enquanto ele só tem beleza e charme e educação, eu tenho inteligência. A beleza o charme e a educação dele vão sumir. A minha inteligência, não. É como eu sempre digo: inteligência só cresce. E depois, eu até que sou bonita, não sou? Quando eu me arrumo, fico bonita até. Então. Eu tenho mais beleza do que ele tem inteligência. Daí eu tenho mais pra oferecer, sabe. Não sou superficial. Só sô mais mulher que ele. Sou o pacote completo. Daí ele foi embora. Acho que ficou inseguro, tadinho. A inteligência, especialmente de mulheres bonitas como eu, ameaça os homens, né? Sou o pacote completo. Mas ainda bem que você tá aqui, né? A gente pode trocar uma idéia verdadeira. A gente, gente assim como nós duas, a gente é diferente dessa gente aí. Como assim “como eu sei que você é diferente?”. Eu sei, ah, eu sei porque tô te vendo, ué. Dá pra ver, da pra sentir quando a pessoa é diferente. A gente sabe, né? Por empatia. Dá pra ver no olhar. Vou dar um exemplo, ó. Do que eu tava falando antes. Eu tava tentando ser profunda, sabe? A gente não pode ser só um corpinho bonito. A gente tem que ser profunda. A gente tem que ser atraente. A gente tem que ser ssexy. Acho que todo mundo sempre conversa as mesmas coisas. Ninguém é profundo. Mas a gente, pessoas como nós, não se contentam com essa mesmice, sabe. Vê só o que eu tava falando e o babaca nem entendeu: eu tava falando que se não fosse essa ardênciazinha no olho, a vista cansada, que mostra que eu ainda tô viva...morte certa. Nem precisava fazer nada. Não fosse, enfim, o corpo, reclamando existência. É como eu sempre digo: todo mundo só fala a mesma coisa. E, só um detalhe, rapidinho: o corpo sou eu, ele me constitui, certo? Nada muito complicado aí. Ah! Nem sei porque eu tô me preocupando, você entende como ninguém. Vou resumir, porque você já sabe isso tudo. E pra ir mais rápido também, vou resumir. Você também é linda e inteligente, sabe como é. Não fosse, enfim, o corpo, reclamando existência...morte certa. E morte alegórica (lembra “alegoria”?) não quer dizer que não é real, né? Lembra?Alegoria? Meu epitáfio? A morte em vida? Minha lápide que é o meu corpo? Não lembra? Ah! não foi pra você que eu falei isso.


***


(Continua...)

Cilene Tanaka
Nasceu em Curitiba, cidade onde reside e tece sua colcha de contos, crônicas e críticas. Aluna do Núcleo de Dramaturgia do SESC e habitante da Casa Selvática. Gosta de mistérios, barbáries, laços, óculos de armação branca e versos heptassílabos. Flâneur citadina que perambula nas fronteiras da ficção e realidade. Costuma emprestar seus olhos, corações e mentes para circunspecções sobre o teatro em www.gazetadopovo.com.br/blog/teatrofagia.


Isabele Linhares

7 de ago de 2014

Lápide

Conto: Thiago Tizzot
Fotos: Marco Novack*
* Com: Digão Duarte e Michelle Rodrigues
Maquiagem : Cristopher Gegembauer




Ela usava uma saia um pouco abaixo dos joelhos. O sapato era bege, provavelmente de couro, com um cadarço de mesma cor. Lembrava um sapato masculino, mas com salto. A meia era grossa, apesar do sol a cidade tinha um vento frio e cortante. Ele gostava de sentir o rosto gelar com a brisa. Não lembrava a primeira vez que a viu, tão pouco seu rosto. Sempre começava a admirá-la pelos sapatos, as meias, a saia e não passava da bolsa. De couro preto.







Era como se sua cabeça não conseguisse se erguer. Como se os anos de humilhação e fracasso tivessem solidificado sobre seus ombros e a ousadia de encarar alguém nos olhos o tivesse abandonado. O emprego de varrer os caminhos que serpenteavam as lápides foi a única coisa que restou. Tirava pouco dinheiro, mas pagava o aluguel e a pinga. Tava de bom tamanho. Ofereceram para carregar os defuntos, mas com isso ele não queria mexer. Uma coisa era ver as lápides, imóveis na frieza da pedra. Outra eram os caixões, os parentes chorosos, a sensação de ser humano. Isso ele não queria.
Os anos se acumularam, os cabelos, agora brancos, permaneceram somente acima das orelhas o resto o tempo levou. Passou a mão pelo rosto molhado da chova fina. A mulher vinha toda a semana, nas terças, às 10h30. Jamais faltava. Ou se atrasava. Nunca teve curiosidade de saber quem ela visitava ou até mesmo para onde ela seguia depois. Simplesmente a admirava passar, apoiado em sua vassoura e com os olhos baixos.








Era como deveria ser, não existia uma razão, como se alguém lá em cima ou lá embaixo tivesse determinado e assim se fez.
Consultou o relógio no pulso, herança do pai, nunca viu o sujeito usar. Um dia saiu para comprar bebida e nunca mais voltou. Ele era pequeno não entendia o que se passava a de noite chorava de saudades do pai. Talvez por isso ele hoje beba. Encontrou o relógio em uma gaveta na casa de sua mãe. Depois que ela faleceu, foi chamado para recolher os pertences da velha senhora. Uma vida inteira em uma caixa de sapatos. Há anos não via Dona Zuleica, também não viu seu enterro, não sabe quem a enterrou ou onde. Pode ser que seja no mesmo cemitério que trabalha, nunca procurou. Falta de vontade ou vergonha. Não importava.




Estava na hora, 10h30, logo ela passaria. Pela primeira vez percebeu que existia uma rotina, uma seqüência de movimentos e ações que fazia todas as terças pela manhã. A primeira era olhar o relógio, lembrar de seu pai e sua mãe, depois segurava a vassoura com a mão direita, a esquerda buscava pela pequena garrafa de metal em seu bolso. Um rápido gole, o líquido descendo pela garganta, ardente. O frio do metal de volta no bolso, a mão esquerda se junta sobre a direita apoiada na vassoura. Em cima das mãos o queixo e a perna direita cruza sobre a outra.




Naquele segundo, antes de os ponteiros marcarem o momento exato, percebeu que fazia a mesma rotina. Não lembrava há quantos anos. Olhou para a calçada, bem no ponto em que uma pedra era mais alta que a outra. Esperou pelos sapatos de bico quadrado, beges, com cadarço. Mas eles não vieram.
O sol incomodava os olhos, espremia o rosto tentando enxergar melhor. Mas não tinha nada para se ver. A mulher não apareceu.
Coçou a cabeça, o coração batia acelerado, abriu a garrafa de metal, o tampa rolou pelo chão irregular de pedra. Bebeu em longos goles, sentiu suas entranhas se aquecerem. O cheiro de álcool agrediu as narinas.
Os passos eram hesitantes, arrastava os pés. Não sabia que direção tomar, só queria ir em frente. Precisava ver a mulher. Não se preocupava em descobrir porque ela não estava ali. Só precisava que ela estivesse. O vento acariciou seu rosto, gelado, sempre gelado.
Tudo era igual, uma selva de pedras escuras com letras douradas, alimentada pelos incontáveis corpos que chegavam em carrinhos de metal, empurrados por aqueles mais queridos do pobre coitado morto no interior do caixão.
Os pés pararam. Pesavam uma enormidade e ele não conseguia que fossem adiante. A lápide era simples, flores mortas sobre a tumba. Era ali. Não tinha dúvidas de que aquela era a lápide que a mulher vinha visitar. Como sabia? Não importava. Mas sabia.
Finalmente conseguiu erguer a cabeça, viu o céu, azul e sem nuvens. Depois as letras rebuscadas cravadas na lápide. Seu nome.



Marco Novack
flickr.com/photos/oavestruz

Thiago Tizzot
Autor dos livros "O Segredo da Guerra" e "A Ira dos Dragões e outros contos", pai da Lili e Basilisco.

4 de ago de 2014

O bote

Conto: Mel Ferreira
Ilustração: Thiago Thome


A pele seca, áspera e fria cercava o corpo do pigmeu. Rastejava fluidamente. Ele não percebia. A noite o havia apagado num desmaio que roncava forte. A pele se espreguiçava ao seu lado; o cheirava, tremendo a língua bifurcada e inquieta, embora seus olhos permanecessem a espreita. Pálpebras transparentes. Foco. Pupilas finas e imóveis. Desgarrada, ela ouvia as ressonâncias do pigmeu que sonhava. Estava medindo... Caberia? Coube.
De bote, a pele o apertou até seus olhos abrirem marejados. Um formigar lento e perpétuo o pinicava, deixando seu corpo bêbado. Ainda que, de pronto, os músculos reagissem com espasmos, não demorou aos primeiros ossos se romperem, abalando a postura.  Os dentes cerrados usavam quase toda a força, agora inútil ao corpo descoordenado. O pigmeu perdia o olhar, enquanto sua consciência agitada tentava distinguir o que estava acontecendo. Doía.  E o coração começou a correr, como se quisesse sair pelos poros de tantas batidas por segundo. Como se quisesse arrancá-lo à morte iminente.
Líquidos vertiam dos cortes que ela fez enquanto o engolia. O corpo hemorrágico do pigmeu, lentamente, se misturava ao seu sepulcro. O esfíncter cedeu. Suas pálpebras caíram. O sangue perdia seu talento, porque do nariz do pigmeu não saía nem entrava ar. O que era pânico virou silêncio. E muito do que existia na cobra, era o pigmeu recém enterrado.

Mel Ferreira